Doutor cerebral

Recuperação surpreendente de
Herbert Vianna
faz o neurocirurgião
Paulo Niemeyer Filho sair da
sombra do pai

Sofia Cerqueira

 
Ricardo Fasanello/Strana
Paulo Niemeyer Filho (no centro, de gravata e calša escura), Ó frente de sua equipe: obcecado por trabalho

Sete horas da manhã de uma terça-feira. O despertador toca na casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no Alto da Gávea. Menos de uma hora depois, ele já cruzou a cidade e está de prontidão no centro cirúrgico da Santa Casa da Misericórdia, no Centro. A seu lado, em silêncio sepulcral (rigorosíssimo, ele não admite conversas nas cirurgias), dois assistentes, um anestesista e uma instrumentadora. Na maca, uma senhora de 60 anos com aneurisma rompido próximo ao tronco cerebral, região que responde pelas funções vitais. Seguem-se seis horas de uma delicadíssima operação. Depois de doses descomunais de adrenalina e descargas taquicárdicas, o procedimento é encerrado com sucesso. "A tensão é substituída por uma sensação de dever cumprido", diz. Doutor Paulo cruza novamente a cidade. Engole um misto árabe na lanchonete da Clínica São Vicente, na Gávea, e passa a tarde em atendimento no consultório que mantém ali. São dez consultas por dia, em média. A rotina se repete no resto da semana, alterando só o local onde opera. E entra pelo fim de semana, diante de uma chamada do celular, ligado invariavelmente o dia todo. Foi assim no domingo ensolarado de 4 de fevereiro, quando teve o cochilo interrompido por um telefonema de amigos do cantor Herbert Vianna, que acabara de cair com seu ultraleve no vizinho município de Mangaratiba. A chamada o despertou para um dos casos mais complicados da carreira, e também o que lhe deu mais notoriedade.


André Valentim/Strana
"A maior alegria de um mestre é ser ultrapassado pelo discípulo, e eu fui."
PAULO NIEMEYER
Neurocirurgião


Relaxar a cabeça no travesseiro, para valer, Paulo só conseguiu após a alta do guitarrista e compositor do Paralamas do Sucesso, 44 dias depois. Coube a ele decidir os procedimentos médicos e estar à frente das três cirurgias a que o cantor seria submetido (veja quadro). "O doutor Paulo foi e tem sido de vital importância para a recuperação do Herbert", afirma o brigadeiro Hermano Vianna, pai do artista. "Tanto que, superada a necessidade da intervenção profissional, ele segue como nosso conselheiro." Filho do neurocirurgião Paulo Niemeyer, que criou um tratamento cirúrgico para a epilepsia e foi pioneiro na microneurocirurgia no país, e sobrinho de outra sumidade, o arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo conseguiu dar vida própria ao sobrenome que por inércia já é sinônimo de proeminência. A recuperação de Herbert consagrou a trajetória do neurocirurgião de jeitão discreto e fala mansa, apontado como um dos melhores do país. "Se eu tivesse de me operar, não teria dúvida: seria com ele", afirma Jacob Klingerman, cirurgião especialista em casos de câncer de cabeça e do pescoço e diretor do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Formado na UFRJ, com pós-graduação na Inglaterra e doutorado na Escola Paulista de Medicina, Paulo chefia três serviços de neurocirurgia, os da Santa Casa, da São Vicente e da Beneficência Portuguesa. "A pressão é constante. Você é posto à prova toda vez que depara com um caso grave", diz ele, com 26 anos de estrada. São as agruras de quem peleja o tempo todo contra a morte.

Ricardo Fasanello/Strana
O neurocirurgião em família, com a mulher, Isabel, os filhos e as enteadas: viagens e programas interrompidos para atender pacientes

Herbert é o caso patente do neurocirurgião preferido da alta-roda carioca, que tem uma lista de pacientes conhecidos. Foi Paulo quem tratou do ator Flávio Silvino, que passou 42 dias em coma, após sofrer um acidente de carro em 1993. Há quatro anos ele cuidou do presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Cabral Filho, com crises de convulsão, e, recentemente, operou o também neurocirurgião e prefeito de Campos, Arnaldo Vianna, vítima de aneurisma cerebral. O político já trabalha normalmente. "Paulo é o famoso filho de peixe que herdou toda a competência do pai. Com Flávio, foi de uma ética e de uma atenção sensacionais", elogia o comediante Paulo Silvino, pai de Flávio. Paulinho, diminutivo afetivo usado só em família, demonstrou cedo a vocação. Aos 12 anos, adorava assistir ao pai operar. "Era uma diversão. Achava tudo normal e ainda levava amigos", recorda. Já adolescente, causou alvoroço no Colégio São Fernando ao levar para a sala de aula um cérebro conservado em formol. Aos 17 anos, já estava na faculdade.

Único da prole de seis irmãos a se interessar pela medicina, Paulo não admitiu ser chamado de Paulinho no ambiente profissional. "Imagine se me chamassem de Paulinho e aos meus assistentes de Zezinho e Luizinho. Quem iria abrir a cabeça com esses garotos?" Como o pai, ele adora operar um aneurisma. É como estar desarmando uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Comparações entre pai e filho são inevitáveis. "O nome do pai pode até ter aberto portas, mas ele traçou seu caminho. É um médico completo, com qualidades técnicas e humanas", observa o clínico-geral Abdon Hissa, que também cuidou de Herbert. O diretor médico do Copa D'Or, o pneumologista João Pantoja, é outro a ressaltar seu talento com o bisturi. "Trabalhei muitos anos fora do Brasil e garanto que ele não deve nada aos melhores neurocirurgiões do exterior", afirma. Para o velho Paulo Niemeyer, que aos 87 anos ainda opera, a criatura superou o criador. "A maior alegria de um mestre é ser ultrapassado por seu discípulo, e eu fui", diz.


André Nazareth/Strana
A ex-mulher, Lenny: "Ele consegue passar doze horas operando e depois pegar os filhos para jantar"


O fato de ter o mesmo nome e a especialidade do pai causa confusão. É comum alguém entrar no consultório de um achando que está diante do outro. Paulo só trabalhou diretamente com o pai por três anos. "Ele me incentivou a ter uma trajetória independente", diz. O médico conta que, recém-formado, foi chamado para operar o também neurocirurgião Fernando Pompeu, que coincidentemente havia feito parte da banca examinadora de seu doutorado. Temeroso, pediu que o pai estivesse no centro cirúrgico. Na cirurgia surgiu uma anormalidade. Paulo olhou para o pai e perguntou o que fazer. "Ele disse que o paciente era meu e eu é que teria de decidir", lembra. Como o pai, Paulo é um abnegado. Opera todos os dias. Não possui casa na serra nem na praia e raramente viaja nos fins de semana. "Não gosto de sair do Rio com pacientes internados. Não relaxo", diz ele. A compensação é a confortável casa em que mora em um condomínio no Alto da Gávea, cercado de verde. Férias são outra raridade. No ano passado, depois de muito tempo, passou quinze dias na Itália com a segunda mulher, Isabel Bittencourt Niemeyer, e as enteadas, Isabel, 13 anos, e Maria, 16. Também foram Paulinho, 20, e Isabel, 16, filhos de seu primeiro casamento, com a estilista Lenny Niemeyer.

A viagem foi uma exceção. É comum uma emergência interromper programas em família. Num sábado desses, Isabel e o marido combinaram de ir a livrarias e a exposições no Centro. Paulo saiu de casa ao meio-dia para dar alta a um paciente, coisa rápida. No meio do caminho, foi chamado para uma cirurgia de emergência e, em seguida, para outra operação. Resumo da ópera: o médico só voltou para casa às 4h30 da madrugada. No feriado da Semana Santa, uma ligação para o celular frustrou os dias de descanso do casal em um spa em Búzios. Não é nada, não é nada, conseguiram ficar um dia hospedados. Isabel, que trabalha na Federação Nacional de Empresas de Seguros Privados, nem l;ão Nacional de Empresas de Seguros Privados, nem fica mais de mau humor. "A medicina tem todas as emoções que o instigam. Lidar sempre com o limite é o que move o Paulo", analisa a mulher. "Sou fominha mesmo. Fico para morrer quando alguém me procura para operar e não me encontra." Como as emergências mudam seu rumo constantemente, o médico ameniza: telefonemas da mulher e dos filhos são passados mesmo que esteja em consulta. "Ele gosta de saber tudo o que está acontecendo", diz o filho Paulinho, que cursa administração. "O Paulo é muito presente. É impressionante como ele às vezes consegue passar doze horas operando e depois pegar os filhos para jantar", comenta a ex-mulher, a empresária Lenny Niemeyer. Comer fora é o programa preferido do médico, talvez, até, por ser o único possível de fazer. Nas horas sem o jaleco, ele gosta de conversar sobre literatura e artes plásticas. "O Paulo é um consumidor voraz de livros. Tem muito mais do que pode ler", dedura o amigo Roberto Feith, diretor da Editora Objetiva.

Com a agenda cheia – a espera por uma consulta é de no mínimo quinze dias –, diz que herdou do pai a maneira de cobrar. "Tenho por política nunca deixar de operar. Se a pessoa não pode ficar na São Vicente, a encaminho para a Beneficência ou para a Santa Casa, que é de graça." Na Santa Casa, ele dirige o Instituto de Neurocirurgia, que opera pacientes pobres. Para manter o serviço de primeira, Paulo, que também é professor de pós-graduação da PUC, passa o pires. O equipamento para cirurgia de mal de Parkinson foi comprado por 50.000 dólares arrecadados em doações. Foi nas enfermarias da Santa Casa que ele viveu as cenas mais pitorescas da carreira. Já recebeu ofertas esquisitas. "Doutor, se o senhor tiver qualquer desavença, basta me dizer o nome que eu resolvo", sugeriu um paciente.

Paradoxo dos paradoxos, Paulo detesta ir ao médico. "Não faço check-up há uns dez anos", diz. Ginástica, então, passa longe. "Tentei jogar tênis, mas o resultado foi uma crise de coluna." Deixou de fumar aos 18 anos, graças a uma tentadora proposta do primo Carlinhos Niemeyer, produtor do Canal 100, que fazia filmetes de futebol para cinema. "Ele disse que me levaria à Copa de 70 se eu parasse de fumar. Assisti a todos os jogos do gramado", lembra. Para curar suas próprias dores de cabeça, que aparecem quando fica sem comer, receita mais trabalho. Paulo discorda de quem diz que o bom neurocirurgião tem de ser habilidoso. É preciso outra virtude. "Tem de ser estrategista." Um estrategista cerebral.

 

Maldito celular

Na Semana Santa estava tudo programado. Enfim, Paulo e Isabel passariam quatro dias juntos, tendo como único compromisso o dolce far niente. O lugar escolhido foi um spa em Búzios. O descanso durou pouco. Uma chamada para o celular no segundo dia mudou os planos do casal e ele teve de voltar rapidamente para o Rio para operar um paciente.

O casal Niemeyer estava com as passagens compradas e as malas arrumadas para ir a um casamento no Recife. A idéia era aproveitar a viagem e dar uma esticada de três dias por lá. A caminho do Aeroporto Tom Jobim, toca o celular do médico. Pronto: Paulo teve de operar um garoto que sofrera um acidente de carro. Perderam o casamento e a viagem ficou para a próxima.

Profissionais bem-sucedidos costumam possuir casa de campo ou de praia. No caso de Paulo, seria um desperdício de dinheiro. Ele conta nos dedos os fins de semana em que viajou nos últimos anos. Dias atrás, ele saiu da casa no Alto da Gávea para passar o fim de semana em Petrópolis. Mal desembarcou na cidade imperial, teve de dar meia-volta. Motivo: surgiu uma emergência no Rio.

 

Obrigado, doutor

Há pacientes que fazem questão de dar um agrado ao médico após a reabilitação. Dia desses, Paulo foi procurado por um professor de jiu-jítsu curado de um tumor cerebral. Como gratidão, o lutador mandou gravar no quimono o nome e o telefone do neurocirurgião. "O doutor tem uns cartõezinhos para eu distribuir na academia?", perguntou ele, diante do espanto do médico.

Um senhor vítima de tumor cerebral foi ao consultório com a mulher para ter certeza do diagnóstico. O casal, que veio do Nordeste para a consulta, voltou dias depois disposto a se tratar com ele. A decisão veio depois de um elogio feito pelo taxista no caminho para o hotel. "Esses Niemeyer fazem de tudo para não sujar o nome", comentou o motorista.

Se Paulo desse uma garfada em cada prato que lhe mandam de presente, certamente teria de procurar um endocrinologista. Volta e meia um entregador bate a sua porta. Dias atrás, o mimo foi um caprichado bobó de camarão feito por uma senhora que ele operara. Um paciente que mora no Norte do país faz questão de mandar regularmente lagostas fresquinhas num isopor.

 

Herbert quer voltar aos palcos

 
Roberto Valverde
Herbert com o pai (à esq.), ao ter alta do hospital: projeto de voltar aos estúdios

Nove meses depois do acidente de ultraleve, Herbert Vianna já canta, compõe, planeja voltar aos estúdios e manifesta o desejo de tocar em público. É surpreendente a recuperação do líder do Paralamas do Sucesso, que deu entrada no Hospital Copa D'Or há exatamente nove meses, no dia 4 de fevereiro, com uma vértebra esmagada e múltiplas lesões cerebrais. "Até ele voltar a falar, convivíamos com a possibilidade de ele ter uma vida vegetativa", diz Paulo Niemeyer Filho. Na mesma tarde do acidente – que matou a mulher do músico, Lucy Needham –, ele foi operado para a instalação de um dreno que controlaria sua pressão intracraniana. No dia seguinte, voltou ao centro cirúrgico para a reconstituição da 12ª vértebra e, dois dias depois, o músico submeteu-se a outra cirurgia, para retirar 5 centímetros de tecido cerebral necrosado. Os médicos deram prazo de dois anos para avaliar a recuperação. No mês passado, Herbert já cantava e tocava para pacientes do Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. "Ele recuperou 90% das condições neurológicas", diz Paulo, explicando que a melhora se deve em parte a um fenômeno chamado plasticidade neuronial, em que áreas normais do cérebro assumem funções de partes lesionadas. O músico ainda apresenta falhas na memória recente. Na parte física, as perspectivas não são tão boas, mas a família não perde as esperanças. "A rotina dele está voltada para um intenso tratamento fisioterápico", afirma o brigadeiro Hermano Vianna.