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ESPORTE
Peladeiras futebol clube Elas se reśnem toda semana para
bater uma bolinha Fabio Brisolla
Fotos Felipe Varanda/Strana
 | | Talento:
Laura é o destaque nas partidas
de futebol feminino da PUC | O
jogo estava quase no fim quando o juiz apitou o escanteio. Laura pediu a bola,
ajeitou na marca, olhou com atenção e bateu. O cruzamento foi preciso,
atravessou toda a pequena área e Branca, livre de marcação,
apenas escorou com um toque de pé direito. Era o gol do título.
A partir daí foi só administrar o resultado, tocando a bola no campo
de terra batida da PUC Rio. Após o apito do árbitro, começou
a festa no primeiro torneio de futebol feminino promovido por alunas e ex-alunas
da universidade. Durante cinco semanas, seis times, com sete jogadoras cada um,
se esfalfaram em busca do título. A partida entre os times Coisa Fina
o campeão e A Rocha teve todos os ingredientes de uma grande final:
juiz uniformizado, torcedor soltando fogos e comissão técnica orientando
as atletas. O público compareceu em peso: havia uns cinqüenta torcedores
alinhados nas laterais do campo. Quase todos homens. "Nessa pelada você
aparece, não é?", protestou um torcedor ao encontrar um amigo. Outro
gaiato comentou com o sujeito ao lado: "A lourinha joga bem melhor do que você!"
Como nas peladas masculinas, algumas sabem mesmo jogar, outras são apenas
esforçadas. Todas adotaram para valer um hábito tipicamente masculino:
disputar a tradicional pelada semanal. O
futebol feminino começou a ganhar corpo na cidade com o surgimento de escolinhas
como a do Fluminense, criada há quase dez anos. Com o tempo, as meninas
saíram dos clubes e passaram a ocupar campos antes restritos aos homens.
Na PUC, as peladeiras se reúnem no mínimo duas vezes por semana.
"No campo, você se desliga de tudo, esquece os problemas e, depois, sempre
tem aquela cervejinha com as amigas para comentar as jogadas", conta Branca Brownstein,
20 anos, aluna de arquitetura da PUC. Com pinta de jogadora da seleção
sueca, Branca costuma jogar pelo meio e se movimenta bem em campo. "Os homens
acham que todas vão correr atrás da bola ao mesmo tempo e se surpreendem
quando percebem que temos noção de futebol", diz Branca. Algumas
realmente deixariam muitos peladeiros na reserva. Laura Liuzzi, 22 anos, moradora
do Jardim Botânico, é o destaque da pelada da PUC. Numa de suas jogadas
na final do campeonato, veio em velocidade pela lateral esquerda, passou por três
jogadoras da equipe adversária, cortou para a direita na entrada da área
e chutou no canto. Sem chance para a goleira. "Jogo como ala esquerda ou direita,
porque chuto bem com as duas pernas", explica ela. Após uma finalização,
alguns torcedores se entreolham espantados com a força do chute da menina
baixinha. "A Laura faz o estilo Romário, só fica na banheira", provoca
a amiga Branca.
 | | Branca
(de vermelho), Mariana,
Carolina e Laura: a
noção de jogo das
meninas chega a surpreender
a platéia | Outra
peladeira talentosa é a morena Mariana Arcoverde, 21 anos, estudante de
veterinária e moradora do Jardim Botânico. Ela comanda o meio-campo
da equipe A Rocha. Seus torcedores a apelidaram de Ronaldinha. Ela não
gosta do apelido, mas assume que leva jeito para o esporte. "Nunca fiz aula, sempre
joguei em peladas", diz Mariana, que enfrentou a equipe de Laura e Branca no torneio
da PUC. Os marmanjos torcedores da Rocha vibram. Um deles contava no relógio
o tempo que faltava para o fim da partida. "Vim aqui ver a troca de camisa das
meninas após o jogo." Saiu decepcionado. Pelada para as jogadoras é
coisa séria. A produtora de elenco Priscila Jansen, 28 anos, grita com
a equipe, pede raça às atletas. "Marca a saída de bola, marca
a saída de bola", ordenava às amigas. Priscila é apaixonada
por futebol, vai a todos os jogos do Botafogo. A ponto de citar como destaque
do futebol mundial atual o lateral-direito da equipe alvinegra. "Gosto muito do
Ruy, é muito raçudo, corre o campo inteiro. Ele não é
muito bom, mas no time atual do Botafogo acaba fazendo a diferença", define
Priscila. A
zagueira Catarina Alfarone, 29 anos, moradora de Laranjeiras, também faz
diferença. Ela começou a jogar bola há um ano e sua pouca
altura 1,54 metro não impediu que se destacasse na defesa.
"Gosto da minha função, sei quanto é importante. Não
tenho muita habilidade, mas marco firme. Por mim não passa", diz Catarina,
que explica seu padrão de jogo. "Não gosto de ser comparada ao Júnior
Baiano, prefiro o estilo do Mauro Galvão", esclarece. Ela também
é uma fiel adepta do chope após a partida. Perdendo ou ganhando.
Esse novo ritual feminino chega a inverter algumas situações. Um
namorado de Carolina Mossamai, 21 anos, moradora do Leblon, reclamou porque a
pelada terminava muito tarde. "Jogo às terças e quintas. Gosto de
sair à noite, mas só depois da pelada. Não deixo de jogar
a minha bola", explica ela. |