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7 de junho de 2006

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Peladeiras futebol clube

Elas se reśnem toda semana para bater uma bolinha

Fabio Brisolla

 

Fotos Felipe Varanda/Strana
Talento: Laura é o destaque nas partidas de futebol feminino da PUC

O jogo estava quase no fim quando o juiz apitou o escanteio. Laura pediu a bola, ajeitou na marca, olhou com atenção e bateu. O cruzamento foi preciso, atravessou toda a pequena área e Branca, livre de marcação, apenas escorou com um toque de pé direito. Era o gol do título. A partir daí foi só administrar o resultado, tocando a bola no campo de terra batida da PUC Rio. Após o apito do árbitro, começou a festa no primeiro torneio de futebol feminino promovido por alunas e ex-alunas da universidade. Durante cinco semanas, seis times, com sete jogadoras cada um, se esfalfaram em busca do título. A partida entre os times Coisa Fina – o campeão – e A Rocha teve todos os ingredientes de uma grande final: juiz uniformizado, torcedor soltando fogos e comissão técnica orientando as atletas. O público compareceu em peso: havia uns cinqüenta torcedores alinhados nas laterais do campo. Quase todos homens. "Nessa pelada você aparece, não é?", protestou um torcedor ao encontrar um amigo. Outro gaiato comentou com o sujeito ao lado: "A lourinha joga bem melhor do que você!" Como nas peladas masculinas, algumas sabem mesmo jogar, outras são apenas esforçadas. Todas adotaram para valer um hábito tipicamente masculino: disputar a tradicional pelada semanal.

O futebol feminino começou a ganhar corpo na cidade com o surgimento de escolinhas como a do Fluminense, criada há quase dez anos. Com o tempo, as meninas saíram dos clubes e passaram a ocupar campos antes restritos aos homens. Na PUC, as peladeiras se reúnem no mínimo duas vezes por semana. "No campo, você se desliga de tudo, esquece os problemas e, depois, sempre tem aquela cervejinha com as amigas para comentar as jogadas", conta Branca Brownstein, 20 anos, aluna de arquitetura da PUC. Com pinta de jogadora da seleção sueca, Branca costuma jogar pelo meio e se movimenta bem em campo. "Os homens acham que todas vão correr atrás da bola ao mesmo tempo e se surpreendem quando percebem que temos noção de futebol", diz Branca. Algumas realmente deixariam muitos peladeiros na reserva. Laura Liuzzi, 22 anos, moradora do Jardim Botânico, é o destaque da pelada da PUC. Numa de suas jogadas na final do campeonato, veio em velocidade pela lateral esquerda, passou por três jogadoras da equipe adversária, cortou para a direita na entrada da área e chutou no canto. Sem chance para a goleira. "Jogo como ala esquerda ou direita, porque chuto bem com as duas pernas", explica ela. Após uma finalização, alguns torcedores se entreolham espantados com a força do chute da menina baixinha. "A Laura faz o estilo Romário, só fica na banheira", provoca a amiga Branca.

 
Branca (de vermelho), Mariana, Carolina e Laura: a noção de jogo das meninas chega a surpreender a platéia

Outra peladeira talentosa é a morena Mariana Arcoverde, 21 anos, estudante de veterinária e moradora do Jardim Botânico. Ela comanda o meio-campo da equipe A Rocha. Seus torcedores a apelidaram de Ronaldinha. Ela não gosta do apelido, mas assume que leva jeito para o esporte. "Nunca fiz aula, sempre joguei em peladas", diz Mariana, que enfrentou a equipe de Laura e Branca no torneio da PUC. Os marmanjos torcedores da Rocha vibram. Um deles contava no relógio o tempo que faltava para o fim da partida. "Vim aqui ver a troca de camisa das meninas após o jogo." Saiu decepcionado. Pelada para as jogadoras é coisa séria. A produtora de elenco Priscila Jansen, 28 anos, grita com a equipe, pede raça às atletas. "Marca a saída de bola, marca a saída de bola", ordenava às amigas. Priscila é apaixonada por futebol, vai a todos os jogos do Botafogo. A ponto de citar como destaque do futebol mundial atual o lateral-direito da equipe alvinegra. "Gosto muito do Ruy, é muito raçudo, corre o campo inteiro. Ele não é muito bom, mas no time atual do Botafogo acaba fazendo a diferença", define Priscila.

A zagueira Catarina Alfarone, 29 anos, moradora de Laranjeiras, também faz diferença. Ela começou a jogar bola há um ano e sua pouca altura – 1,54 metro – não impediu que se destacasse na defesa. "Gosto da minha função, sei quanto é importante. Não tenho muita habilidade, mas marco firme. Por mim não passa", diz Catarina, que explica seu padrão de jogo. "Não gosto de ser comparada ao Júnior Baiano, prefiro o estilo do Mauro Galvão", esclarece. Ela também é uma fiel adepta do chope após a partida. Perdendo ou ganhando. Esse novo ritual feminino chega a inverter algumas situações. Um namorado de Carolina Mossamai, 21 anos, moradora do Leblon, reclamou porque a pelada terminava muito tarde. "Jogo às terças e quintas. Gosto de sair à noite, mas só depois da pelada. Não deixo de jogar a minha bola", explica ela.

     
   

 

 
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