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7 de junho de 2006

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CRÔNICA

Onde você estava em 2002?

Tutty Vasques

Ainda que nos últimos quatro anos você tenha mudado de penteado, de emprego, de estado civil, de carro, de endereço, de hábitos, de padrão de vida, de idéia, de estilo, de rumo, de profissão, de opinião, de candidato e o escambau, aposto que lembra direitinho quem era você em 2002. Ano de Copa a gente guarda para sempre em detalhes impressionantes, e não só dos jogos da seleção: a memória afetiva que cada um tem de si parece mais clara e organizada quando o período que se quer lembrar coincide com o calendário do Mundial.

Muito cuidado, portanto, com o que anda aprontando em 2006 e, especialmente, no que vai aprontar entre 9 de junho e 9 de julho próximos: tudo o que acontecer nesse período poderá ser lembrado em minúcias daqui a quatro, oito, doze, dezesseis, vinte anos – brasileiro tem esse costume bobo de, a cada Copa, recordar o que fazia nas anteriores. Quem tem mais de 45 anos sabe precisar cada passo seu no dia em que o Brasil foi tricampeão no México, em 1970. Lembro de mim, aos 16 anos, em pé sobre o pára-choque traseiro do Fusca do meu pai subindo o viaduto que sai da Praia de Botafogo para cair na Rua Pinheiro Machado, os carros ficando pequenininhos lá embaixo, o asfalto de repente passando mais rápido sob meus pés... Tremenda irresponsabilidade do velho!

Histórias assim começaram a me ocorrer num desses engarrafamentos transbotafoguenses de rotina – mais especificamente aquele que na semana passada celebrizou uma cratera monumental no Humaitá –, de maneira que tive tempo suficiente para recapitular quem eu era em cada Copa do Mundo que vivenciei. Experimente fazer o mesmo, o método é rápido, eficaz e divertido. Em 42 minutos, de uma ponta a outra da São Clemente, passou o filme da minha existência rumo ao hexa.

Em 1958, aos 4 anos, eu achava que toda aquela animação no quintal lá de casa era por causa de meu aniversário, celebrado em festa junina das grandes no dia da final na Suécia. O bicampeonato no Chile transcorreu nas mesmas circunstâncias, mas, em 1962, eu já sabia até quem era Pelé e tinha plena consciência do que me levou a dar entrada no setor de queimados do Hospital do Andaraí com a mão toda estorricada. Soltei o primeiro e último morteiro na vida, achei que poderia me permitir tal experiência aos 8 anos e, enfim, me dei mal! Se eu fechar os olhos agora, vejo claramente o bisturi recortando as bolhas na palma da mão direita. Aquilo foi pior que uma derrota.

Perdi boa parte da festa, mas, no dia seguinte, o curativo avantajado dava-me status de herói de guerra no Ponto Cem-Réis, fronteira da Tijuca com o Andaraí, onde o bonde dava a volta e ouvíamos os jogos em ondas de rádio captadas num sistema de alto-falantes instalado nos postes da esquina do botequim de meu pai. Lembro que eu usava cabelo príncipe Danilo, era muito magro e orelhudo – meu apelido era "Avião" –, queria ser lixeiro, adorava uma camisa de manga comprida de listras azul e vermelha. Estava com ela na foto que o Jornal dos Sports publicou, eu entregando uma caneta de ouro a Zagallo, homenagem da turma do Café e Bar Uruguai a um dos heróis que acabavam de trazer a Jules Rimet de volta ao Brasil. Lembro dos flashes, do olhar orgulhoso de meu pai, de cada rosto eufórico na multidão, lembro também da professora Dona Marina, do sanduíche de goiabada com manteiga na hora do recreio... Depois disso, fiz 9, 10 anos, mas desse tempo – não eram anos de Copa – não me recordo de quase nada. Acho que fui dispensado em casa do corte príncipe Danilo e, graças a Deus, passei para uma escola onde a "calça curta" não era obrigatória.

Não precisa o Brasil vencer para a Copa ficar na memória. A de 90, por exemplo, foi tecnicamente a pior de todas e, no entanto, para mim, inesquecível. De novo solteiro, voltei da Disney com minha filha, parti para a cobertura da Copa da Itália, emendei com férias em Portugal e, na volta, fiz várias viagens com políticos em campanha para uma série de reportagens sobre as eleições do fim do ano. Lembro-me de um porre que o ex-governador Hélio Garcia me deu em Minas Gerais, lembro de uma moça onipresente que me encontrava em toda parte do mundo, lembro do ferro de passar roupa più piccolo que comprei em Turim, lembro das bobagens que o técnico Sebastião Lazaroni dizia em público e, mais reservadamente, eu e o Nelsinho Motta trocávamos à beira do gramado.

Todo mundo sabe o que estava fazendo quando todos se perguntavam o que diabos aconteceu com Ronaldinho na final da Copa da França. Eu e meu vizinho à época preferido, o poeta Armando Freitas Filho, colecionávamos versões estapafúrdias, competíamos para ver quem inventava a mais inverossímil, aquilo pra gente era um esporte. Morávamos na Urca, eu estava de novo casado, com mais filhos, cachorro, lembro que roubaram meu carro novinho no Pepê. Lembra do Collor subindo a rampa pela primeira vez?

Lembrei vagamente dos anos Cláudio Coutinho (os 70 que não existiram) e muito da grande decepção de 1966, na Inglaterra. Lembrei do tédio que foi torcer pela seleção do tetra nos Estados Unidos em 1994, do tanto que na época falávamos mal da dupla Parreira/Zagallo e de quanto amávamos o futebol-arte da seleção do Telê na década de 80. O trânsito de repente desembaraçou-se na esquina da Pacheco Leão e eu cruzei a frente do Jardim Botânico a 60 quilômetros por hora com uma terrível aflição: nos cinco minutos que restavam para chegar em casa não consegui – e ainda hoje não consigo – lembrar em que circunstâncias me encontrava quando Zico perdeu aquele pênalti contra a França na Copa do México, em 1986. Se alguém que estava comigo lembrar...

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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