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CRÔNICA
Onde você estava em 2002? Tutty
Vasques Ainda
que nos últimos quatro anos você tenha mudado de penteado, de emprego,
de estado civil, de carro, de endereço, de hábitos, de padrão
de vida, de idéia, de estilo, de rumo, de profissão, de opinião,
de candidato e o escambau, aposto que lembra direitinho quem era você em
2002. Ano de Copa a gente guarda para sempre em detalhes impressionantes, e não
só dos jogos da seleção: a memória afetiva que cada
um tem de si parece mais clara e organizada quando o período que se quer
lembrar coincide com o calendário do Mundial. Muito
cuidado, portanto, com o que anda aprontando em 2006 e, especialmente, no que
vai aprontar entre 9 de junho e 9 de julho próximos: tudo o que acontecer
nesse período poderá ser lembrado em minúcias daqui a quatro,
oito, doze, dezesseis, vinte anos brasileiro tem esse costume bobo de,
a cada Copa, recordar o que fazia nas anteriores. Quem tem mais de 45 anos sabe
precisar cada passo seu no dia em que o Brasil foi tricampeão no México,
em 1970. Lembro de mim, aos 16 anos, em pé sobre o pára-choque traseiro
do Fusca do meu pai subindo o viaduto que sai da Praia de Botafogo para cair na
Rua Pinheiro Machado, os carros ficando pequenininhos lá embaixo, o asfalto
de repente passando mais rápido sob meus pés... Tremenda irresponsabilidade
do velho! Histórias
assim começaram a me ocorrer num desses engarrafamentos transbotafoguenses
de rotina mais especificamente aquele que na semana passada celebrizou
uma cratera monumental no Humaitá , de maneira que tive tempo suficiente
para recapitular quem eu era em cada Copa do Mundo que vivenciei. Experimente
fazer o mesmo, o método é rápido, eficaz e divertido. Em
42 minutos, de uma ponta a outra da São Clemente, passou o filme da minha
existência rumo ao hexa. Em
1958, aos 4 anos, eu achava que toda aquela animação no quintal
lá de casa era por causa de meu aniversário, celebrado em festa
junina das grandes no dia da final na Suécia. O bicampeonato no Chile transcorreu
nas mesmas circunstâncias, mas, em 1962, eu já sabia até quem
era Pelé e tinha plena consciência do que me levou a dar entrada
no setor de queimados do Hospital do Andaraí com a mão toda estorricada.
Soltei o primeiro e último morteiro na vida, achei que poderia me permitir
tal experiência aos 8 anos e, enfim, me dei mal! Se eu fechar os olhos agora,
vejo claramente o bisturi recortando as bolhas na palma da mão direita.
Aquilo foi pior que uma derrota. Perdi
boa parte da festa, mas, no dia seguinte, o curativo avantajado dava-me status
de herói de guerra no Ponto Cem-Réis, fronteira da Tijuca com o
Andaraí, onde o bonde dava a volta e ouvíamos os jogos em ondas
de rádio captadas num sistema de alto-falantes instalado nos postes da
esquina do botequim de meu pai. Lembro que eu usava cabelo príncipe Danilo,
era muito magro e orelhudo meu apelido era "Avião" , queria
ser lixeiro, adorava uma camisa de manga comprida de listras azul e vermelha.
Estava com ela na foto que o Jornal dos Sports publicou, eu entregando
uma caneta de ouro a Zagallo, homenagem da turma do Café e Bar Uruguai
a um dos heróis que acabavam de trazer a Jules Rimet de volta ao Brasil.
Lembro dos flashes, do olhar orgulhoso de meu pai, de cada rosto eufórico
na multidão, lembro também da professora Dona Marina, do sanduíche
de goiabada com manteiga na hora do recreio... Depois disso, fiz 9, 10 anos, mas
desse tempo não eram anos de Copa não me recordo de
quase nada. Acho que fui dispensado em casa do corte príncipe Danilo e,
graças a Deus, passei para uma escola onde a "calça curta" não
era obrigatória. Não
precisa o Brasil vencer para a Copa ficar na memória. A de 90, por exemplo,
foi tecnicamente a pior de todas e, no entanto, para mim, inesquecível.
De novo solteiro, voltei da Disney com minha filha, parti para a cobertura da
Copa da Itália, emendei com férias em Portugal e, na volta, fiz
várias viagens com políticos em campanha para uma série de
reportagens sobre as eleições do fim do ano. Lembro-me de um porre
que o ex-governador Hélio Garcia me deu em Minas Gerais, lembro de uma
moça onipresente que me encontrava em toda parte do mundo, lembro do ferro
de passar roupa più piccolo que comprei em Turim, lembro das bobagens
que o técnico Sebastião Lazaroni dizia em público e, mais
reservadamente, eu e o Nelsinho Motta trocávamos à beira do gramado.
Todo
mundo sabe o que estava fazendo quando todos se perguntavam o que diabos aconteceu
com Ronaldinho na final da Copa da França. Eu e meu vizinho à época
preferido, o poeta Armando Freitas Filho, colecionávamos versões
estapafúrdias, competíamos para ver quem inventava a mais inverossímil,
aquilo pra gente era um esporte. Morávamos na Urca, eu estava de novo casado,
com mais filhos, cachorro, lembro que roubaram meu carro novinho no Pepê.
Lembra do Collor subindo a rampa pela primeira vez? Lembrei
vagamente dos anos Cláudio Coutinho (os 70 que não existiram) e
muito da grande decepção de 1966, na Inglaterra. Lembrei do tédio
que foi torcer pela seleção do tetra nos Estados Unidos em 1994,
do tanto que na época falávamos mal da dupla Parreira/Zagallo e
de quanto amávamos o futebol-arte da seleção do Telê
na década de 80. O trânsito de repente desembaraçou-se na
esquina da Pacheco Leão e eu cruzei a frente do Jardim Botânico a
60 quilômetros por hora com uma terrível aflição: nos
cinco minutos que restavam para chegar em casa não consegui e ainda
hoje não consigo lembrar em que circunstâncias me encontrava
quando Zico perdeu aquele pênalti contra a França na Copa do México,
em 1986. Se alguém que estava comigo lembrar... E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br |