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COMPORTAMENTO
Cidade dos cabelos brancos Na capital da terceira idade,
Copacabana é alvo de estudo da OMS Telma Alvarenga
Dilmar Cavalher/Strana
 | | O
casal Vasconcelos na
aula de dança da Uerj:
redescoberta | A
Flórida é aqui. Ou quase. O Rio ainda não assumiu a vocação
de destino turístico de idosos nacionais e estrangeiros como o estado americano.
Mas já é a capital da terceira idade, figurando como a metrópole
brasileira com a maior concentração de moradores com mais de 60
anos. Segundo dados de 2004 do IBGE, eles compõem 13,8% da população
da região metropolitana. O Rio é também o lugar onde a turma
de cabelos brancos está mais satisfeita com sua saúde, de acordo
com uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (veja
quadro). Copacabana, o bairro carioca que mais abriga idosos, apresenta
índices próximos dos de países mais envelhecidos, como o
Japão: 27,5% dos habitantes são da terceira idade. A proporção
de velhinhos na cidade chama a atenção de estudiosos internacionais
e leva à criação de espaços voltados para esse grupo
que não pára de crescer. São universidades, academias de
ginástica, áreas reservadas para atividades ao ar livre e programas
culturais e até uma delegacia e uma secretaria municipal. A Organização
Mundial de Saúde escolheu Copacabana como laboratório para um estudo
que busca soluções para melhorar a qualidade de vida dos idosos
nas grandes cidades. "Ipanema e Leblon têm as vitrines mais chiques, mas
não a mesma alegria", atesta a geriatra Mariana Jacob, de 73 anos, que
nasceu na Romênia e mora no bairro desde que chegou ao Brasil, em 1974.
Pouco depois, abriu um consultório ali, no endereço que mantém
até hoje. Os tempos mudaram, o bairro foi ficando mais populoso, frenético
e violento, mas Mariana continua encantada. "É bonito e rico em tudo. Quase
todas as ruas têm farmácia, açougue, supermercado, livraria",
lista a geriatra. Não
faltam na cidade exemplos de profissionais que já passaram dos 70 anos
e seguem ativos e criativos. O arquiteto Oscar Niemeyer, de 98 anos, é
requisitadíssimo. Outros nomes se destacam no rol de celebridades longevas
e atuantes, como a atriz Bibi Ferreira, 83 anos, o ator Sérgio Brito e
a crítica de teatro Bárbara Heliodora, ambos com 82. A lista ajuda
a quebrar preconceitos contra a turma. "A memória recente, a exatidão,
a rapidez, a flexibilidade são mais difíceis para os idosos", diz
Teresa Creusa Negreiros, que ministra duas disciplinas sobre a terceira idade
no curso de psicologia da PUC. "Mas eles têm mais poder de síntese,
tolerância, prudência e maior capacidade de analisar, de relativizar.
As empresas não deveriam dispensá-los como se fossem descartáveis",
pondera.
André Nazareth/Strana
 | | Ginástica
na Praia de
Copacabana: na maioria,
idosos | A
hora de deixar o trabalho é crítica. "É um marco angustiante",
diz a psicóloga. "Nossa sociedade é a do negócio, da negação
do ócio." A PUC montou grupos de reflexão para ajudar seus funcionários
a encarar a aposentadoria. Juntos, acabam descobrindo novas possibilidades de
realização. Muitos aproveitam a aposentadoria para voltar a estudar.
A cada semestre, 14.000 pessoas disputam 3.000 vagas da Universidade Aberta da
Terceira Idade, da Uerj. A maioria (80%) é selecionada por sorteio. Criada
em 1993, a UnATI oferece quase 130 cursos gratuitos aos maiores de 60 anos, de
dança de salão a informática, história da arte e idiomas.
Tem gente que está ali desde a primeira turma, como Odelita Vasconcelos,
de 76 anos. Quando se matriculou, há treze anos, ela sofria de forte depressão.
"Em três meses, larguei os remédios indicados para dormir. Vir para
cá foi a melhor terapia", conta. A
UnATI também transformou a vida de seu marido, Arnaldo Vasconcelos, 78
anos, parceiro na turma de dança de salão. "Virei outra pessoa,
me sinto mais jovem", afirma o tenente reformado da Marinha e técnico em
eletricidade aposentado. A cidade abriga outras universidades da terceira idade
e também academias de ginástica com programas especiais e assistência
médica para idosos. É o caso da Saúde Master, na Barra, e
da Vitacor, em Ipanema, onde os alunos só se exercitam usando monitor de
freqüência cardíaca. "Todos os nossos professores são
pós-graduados em reabilitação cardíaca", diz a fisioterapeuta
Aline Ramalho, dona da Saúde Master. A Vitacor recebe alunos com problemas
de saúde como cardiopatias, diabetes, mal de Parkinson. Amy Ferber, de
77 anos, ingressou na academia há cinco meses com arritmia cardíaca
e depressão. "Não queria nem sair do quarto", conta. Até
suspendeu as aulas de piano que ministrava. Agora, não só retornou
ao teclado como tirou do armário telas e pincéis e costuma circular
pela cidade atrás de paisagens inspiradoras. "Às vezes, pego um
ônibus e vou até a Rocinha", conta.
Bruno Veiga/Strana
 | | Harmonia
e Amy: benefícios
da prática esportiva
| Energia
também não falta a Harmonia Amorim, de 71 anos, aluna da Vitacor
há um mês. Depois da aposentadoria, em 1992, ela já passou
por três cursos de teatro, trabalhou como figurante na Globo, fez curso
de modelo para a maturidade e, há três anos, integra um coral. E
aproveita os programas culturais que pode fazer de graça, como ir ao Theatro
Municipal. Nos espetáculos produzidos pela casa são reservados 120
convites gratuitos para idosos. Harmonia também adora pedalar à
beira-mar. Vai de Copacabana ao Leblon. "O Rio é relaxante", comenta. Que
o diga a turma de idosos que têm aulas de ginástica, de graça,
nas areias do Posto 4. Sem falar nos rega-bofes. "Fazemos uma festa por mês,
para comemorar os aniversários, e viagens nos fins de semana. Já
fomos a Conservatória, a Paraty", diz a professora Selma Brito. "Essa convivência
é tão importante para eles quanto os exercícios."
A
boa acolhida e as virtudes geográficas raras numa metrópole ajudam
a explicar por que o Rio concentra tanta gente da terceira idade. Em contrapartida,
os idosos sofrem com problemas como buraco nas calçadas, escassez de equipamentos
urbanos adequados (rampas em calçadas e edifícios) e o desrespeito.
Um exemplo é o descumprimento da lei da gratuidade em transportes coletivos
para passageiros com mais de 65 anos. "Uma das principais queixas é contra
as empresas de ônibus", diz José Januário, titular da Delegacia
do Idoso, na Central do Brasil. "Os motoristas passam pelo ponto e fingem que
não os vêem. Pior, às vezes até os expulsam dos ônibus.
Já prendi uns quatro por isso", conta. A delegacia trabalha de um jeito
meio mambembe, com apenas um veículo e dois computadores em funcionamento.
Está longe de poder concentrar todos os inquéritos de crimes contra
idosos. Fisicamente mais frágeis, eles são as vítimas preferenciais
de assaltantes e golpistas. "Se conseguíssemos reduzir expressivamente
a violência, o Rio poderia atrair idosos de outros estados, como ocorre
na Flórida", opina Sérgio Besserman, presidente do Instituto Municipal
de Urbanismo Pereira Passos. Os que já estão por aqui, pelo visto,
não querem sair.
Radiografia
dos idosos
A expectativa de vida no estado do Rio é de 76,7 anos. Em 1980,
era de 64,2
78% do total de idosos no estado está na região metropolitana.
Em São Paulo, são apenas 45%
Os cinco bairros com a maior proporção de idosos ficam na Zona Sul:
Copacabana, Flamengo, Ipanema, Leme e Leblon
O índice de idosos em Copacabana (27,5%) é próximo
do de países mais envelhecidos do mundo, como o Japão
Na cidade, as mulheres estão em maioria no grupo da terceira idade (60%)
A população de idosos no Brasil vai saltar de 7% para 14%
em 2025, de acordo com a OMS Fontes:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) e Instituto Municipal Pereira Passos (IPP) |
Para
passar dos 80, 90... Para
aumentar a chance de passar dos 80 anos com boa saúde, é importante
começar cedo a se prevenir contra doenças como arteriosclerose,
artrose e osteoporose. Veja seis cuidados indispensáveis para ter uma velhice
saudável, segundo a geriatra Mariana Jacob
Fazer check-up anualmente a partir dos 35 anos e alimentar-se de frutas,
legumes, verduras e proteínas, reduzindo doce e gordura
Fazer atividade física, com supervisão médica. Para os obesos
e os que sofrem de artrose, os exercícios na água são os
mais indicados
Vacinar-se contra pneumonia (a partir dos 50 anos) e hepatite A e B
Usar filtro solar FPS 50, que deve ser aplicado no rosto e no corpo meia hora
antes de sair, e evitar o sol entre 10h e 16h
Sob orientação médica, após a menopausa a mulher deve
repor o cálcio, para prevenir a osteoporose
Fazer cursos para se atualizar e se socializar. Estudar línguas é
um ótimo exercício para a memória |
Boa
saúde e dinheiro no bolso
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Néri:
idosos com alta renda |
O
Rio é o estado brasileiro onde os idosos estão mais satisfeitos
com a saúde. Divulgada há dois meses, a pesquisa Saúde da
Terceira Idade: a Fonte da Juventude, da Fundação Getulio Vargas,
mostra que 49,8% dos fluminenses que já passaram dos 65 anos dizem gozar
de boa ou muito boa saúde. São Paulo ficou em segundo lugar, com
47,37%. A média nacional é de 40,8%. O estudo, que tomou como base
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, foi coordenado
por Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais do Instituto
Brasileiro de Economia da FGV. Segundo
ele, uma das explicações para a boa colocação do Rio
no ranking da saúde da terceira idade é o poder aquisitivo. Os idosos
fluminenses apresentam a segunda maior renda do país. "Um fator importante
é que o Rio, como foi capital federal, tem muito funcionário público
aposentado e o nível de escolaridade da população é
alto", diz Néri. "Os idosos trazem em seus contracheques um pouco da imagem
do passado glorioso do Rio." Néri defende que a cidade assuma de vez sua
vocação de Flórida brasileira. "Deveriam ser criadas políticas
públicas e privadas para incentivar o turismo e atrair idosos de outros
estados", diz. "Do ponto de vista econômico, o retorno seria muito bom.
É um grupo com poder de compra grande." | |