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REPORTAGEM DE CAPA
A nova cara da Justiça
Eles enfrentaram uma maratona de estudos e concursos
para ter o direito de fazer justiça
Sofia Cerqueira
André Valentim/Strana
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| O
promotor Rômulo (à
esq.), 25 anos, a defensora Gabriela, 29, e
os juízes Rosana, 27, e
Dario, 29: poder jovem no
Judiciário carioca |
A
audiência aconteceu na 14ª Vara Criminal. Rosana Albuquerque
França, sentada na cadeira principal, sobre um tablado, tinha
a seu lado um promotor. À frente, o réu, o advogado
de defesa e a testemunha, uma senhora que presenciara um crime.
A testemunha permanecia em silêncio, apesar das perguntas
de Rosana. Ela então advertiu: "Na qualidade de testemunha,
a senhora é obrigada a falar o que sabe, sem omitir nenhum
aspecto". Perplexidade da testemunha. "Mas ela é a juíza!
Jamais imaginaria, tem a idade das minhas netas", desculpou-se.
Rosana, 27 anos, é uma das mais novas magistradas do Tribunal
de Justiça do Rio. Ela pertence a uma turma que, assim que
deixa a faculdade, enfrenta nova maratona de estudos, destaca-se
em concursos disputadíssimos e está mudando a cara
da Justiça carioca. Entre 1.542 candidatos inscritos no concurso
de que Rosana participou, 54 foram aprovados. Deles, 38 tinham menos
de 30 anos. Na Justiça Federal há juízes com
25. O rejuvenescimento da Justiça não se restringe
aos juízes. No Ministério Público estadual,
dos 67 promotores em início de carreira, 53 têm entre
25 e 29 anos. Existem ainda procuradores da República com
27 anos e defensores públicos com apenas 23. Estabilidade
e bom salário um juiz estadual iniciante tem rendimento
bruto de 18.000 reais e um federal, 19.000 estão entre
os principais atrativos. De acordo com a OAB-RJ, dos cerca de 5.500
advogados despejados no mercado carioca por ano, pelo menos 75%
buscam um concurso público. "Sou um entusiasta de jovens
na carreira. Chegam sem vícios, com grande capacidade intelectual
e muita energia", diz o desembargador Sérgio Cavalieri Filho,
presidente do TJ-RJ.
André Valentim/Strana
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| Octavio,
da OAB: críticas à arrogância
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Depois
de ultrapassarem a difícil peneira dos concursos, esses jovens
desembarcam em uma realidade ainda mais complicada. Deparam com
uma Justiça atravancada e freqüentemente tida como morosa
e leniente. E enfrentam de causas simples a processos que podem
mexer com a população de uma cidade, envolvendo casos
de extrema violência e, em algumas situações,
quantias que chegam a bilhões de reais. "Além do conhecimento
teórico, a gente chega com vontade de mudar. Sonha em contribuir
para uma Justiça mais ágil e efetiva", diz Rosana,
que tem um ano de magistratura. Lotada na 2ª Região
(Niterói e São Gonçalo), ela já atuou
em varas cíveis e criminais e em juizados especiais. Pilhas
de processos não faltam. Segundo pesquisa do TJ-RJ, há
um juiz para cada 70.000 habitantes. Um em cada quinze habitantes
do estado deflagra uma ação penal, e um em cada dez,
uma ação cível. Os dados mostram ainda que,
em 2005, 97% dos processos que entraram no tribunal foram julgados.
Um grande avanço se comparado com a pesquisa do Ministério
da Justiça que revela que no Rio, em 2003, do total de processos
que deram entrada só 46% foram julgados. Naquela época,
o estado ocupou o 19º lugar no ranking do ministério
(veja outros dados da pesquisa no quadro).
"O jovem tem tendência a inovar, a fugir do ranço do
serviço público", afirma Dario Ribeiro Machado Júnior,
29 anos, juiz substituto da 5ª Vara Federal no Rio. Mas reconhece
que existem entraves. "Há leis obsoletas, que possibilitam
inúmeros recursos e atrasam excessivamente um processo",
diz. Entre cerca de 1.500 candidatos, Dario foi um dos trinta aprovados
no concurso para a magistratura federal em 2002. Com quatro anos
de experiência, já bateu o martelo na distribuição
de royalties de petróleo, determinou que o governo federal
fizesse concurso para a contratação de médicos
para o Hospital Geral de Bonsucesso e obrigou a União a comprar
uma válvula e a acelerar a operação de um paciente
com a vida em risco, internado no Hospital Universitário
Clementino Fraga Filho (Fundão). Para fazer cumprir as sentenças,
já se viu obrigado a fixar multas e ameaçar uma das
partes de prisão.
André Valentim/Strana
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| Patrícia,
procuradora da República: casos envolvendo 5 bilhões
de reais |
André Valentim/Strana
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| Juíza
Rosana: dois anos
só estudando até passar
no concurso |
Mas
jovens com menos de 30 anos têm maturidade para tanto poder?
A discussão é interminável. "Se, por um lado,
têm preparo técnico e carga teórica, por outro,
falta experiência", diz o desembargador Paul Erik Dyrlund,
presidente das comissões organizadora e examinadora dos concursos
para a magistratura federal da 2ª Região (Rio e Espírito
Santo). "Já posso até ter verificado casos de inexperiência,
mas nunca tive problemas de corrupção entre jovens
magistrados", afirma Sérgio Cavalieri. O procurador-geral
de Justiça do Rio, Marfan Martins Vieira, é outro
defensor da causa. "Os jovens chegam aqui com cabelo na venta, cheios
de garra", avalia. O presidente da OAB-RJ, Octavio Augusto Brandão
Gomes, vê com ressalvas a questão. Para ele, deveria
ser fixada a idade mínima de 30 anos para certos cargos.
"Chegam à OAB várias reclamações contra
juízes novatos. Sabemos que alguns, por imaturidade ou inexperiência,
se fecham nos gabinetes ou adotam postura autoritária e arrogante",
diz Octavio. Hoje, para prestar concurso para magistratura ou promotoria,
é preciso ser bacharel em direito e ter exercido três
anos de atividade jurídica após a colação
de grau. As regras têm mudado ao longo dos anos. "Quando fiz
concurso, era exigida a idade mínima de 25 anos para o magistrado",
lembra Marco Aurélio Bellizze, empossado em 1990, com 25
anos cravados, então o mais novo juiz do Rio. Em 2000, quando
já tinha caído a exigência, a carioca Luciana
de Oliveira Leal, com apenas 21 anos, virou a mais jovem juíza
do país. "Não é a idade que distingue um bom
juiz. É sensibilidade e equilíbrio", diz Bellizze,
promovido em 2004 a desembargador, com 40 anos. Até então
ninguém no estado alcançara o cargo tão novo.
Felipe Varanda/Strana
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| Cepad,
no Centro do Rio: salas lotadas no
curso preparatório para concursos na
área jurídica |
Antes
de defender, acusar ou condenar em nome da lei, quem passa num concurso
faz curso preparatório. Dependendo da instituição,
dura de um a quatro meses. A estabilidade na Justiça é
alcançada após dois anos. "Os novos magistrados são
supervisionados por desembargadores aposentados e juízes",
afirma o desembargador Paulo Roberto Leite Ventura, diretor-geral
da Escola de Magistratura do Estado do Rio (Emerj), um dos mais
conceituados cursos preparatórios da carreira no país.
"Cobra-se conduta irrepreensível. Já vi uma pessoa
não obter a vitaliciedade por problema comportamental", conta.
Os principiantes ficam em varas do interior ou como substitutos
na capital. O grau de responsabilidade, porém, não
é proporcional à pouca idade ou tarimba. Jovens juízes,
promotores e defensores assumem qualquer caso que tramite na vara.
O promotor Rômulo Santos Silva, 25 anos, um dos mais novos
dos 57 aprovados entre os 3 100 candidatos do penúltimo concurso
do Ministério Público Estadual, enfrentou uma prova
de fogo já na primeira semana. Designado para o Tribunal
do Júri de São Gonçalo, interrogou um policial
arrolado como testemunha do assassinato de seis pessoas de uma família.
"No início, tanta violência choca", diz. Hoje, no interior
do estado, as responsabilidades não diminuíram. Com
a insígnia do Ministério Público na lapela
ele já foi confundido com estagiário ,
Rômulo prepara a tese de acusação de um processo
que envolve 44 réus. Ossos de um ofício que tem suas
regalias. Como nas principais carreiras do Judiciário, os
promotores (salário inicial de 13.000 reais bruto) têm
sessenta dias de férias ao ano. Para chegar lá, Rômulo
foi da faculdade para um curso preparatório e passou dois
anos estudando até dez horas diárias.
André Valentim/Strana
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| Promotor
Rômulo: choque com casos de violência após
a posse |
Maratona
de estudo que a procuradora da República Patrícia
Nunes, 28 anos, conhece bem. "Não saía, comia estudando
e dormia quatro horas por noite." Ela está entre os dezessete
dos 67 procuradores do Ministério Público Federal
no estado que têm menos de 30 anos. Patrícia tomou
posse em 2003 e já é coordenadora criminal da Procuradoria
da República no Rio. Pelas suas mãos passam casos
envolvendo mais de 5 bilhões de reais. Como os promotores
estaduais, os procuradores oferecem denúncia à Justiça
e acompanham processos. O que difere é a natureza do crime.
A Justiça Federal julga, entre outras, causas que envolvem
a União, autarquias, empresas públicas e crimes contra
o sistema financeiro. Patrícia já enfrentou casos
envolvendo lavagem de dinheiro, remessa ilegal para o exterior e
tráfico internacional de drogas. O salário inicial
de um procurador é de 18.000 reais bruto. "Sempre quis trabalhar
voltada para questões públicas. Aqui me realizo",
diz.
André Valentim/Strana
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| Ana
Paula e Leandro:
os mais
jovens aprovados
no último
concurso da
Defensoria |
Ana
Paula Teixeira Ferreira e Leandro dos Santos Guerra, os dois com
23 anos, experimentam o gostinho da primeira vitória. São
os mais jovens aprovados no último concurso da Defensoria
Pública. Foram 8.392 candidatos para 74 vagas. Mais da metade
preenchida por candidatos com menos de 30 anos. "Um dos motivos
da enorme procura é o fato de exigir apenas dois anos de
prática forense", diz Laura Júlia Fontenelle, subcoordenadora
do concurso da Defensoria. Vale, inclusive, o estágio no
escritório-modelo de faculdade, e a colação
de grau só precisa ser comprovada na posse. "Só espero
que a greve não atrapalhe a colação de grau",
afirma Leandro, que está concluindo o último período
de direito na Uerj. E emenda: "A estabilidade conta. Um advogado
tem a chance de ganhar muito, mas no início, muitas vezes,
é 'boy de luxo' ". O salário inicial de um defensor
é de 6.000 reais. "É a chance de mudar de status na
pirâmide social do dia para a noite", diz Ana Paula, moradora
da Penha, seis irmãos, filha de enfermeiros. "Um dia você
não tem dinheiro para comprar livros, no outro pode ter um
carro", compara. Ela pensa, no futuro, em fazer outro concurso.
André Valentim/Strana
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| Defensora
Gabriela: destaque
em uma das mais concorridas carreiras
da
Justiça |
A
Defensoria Pública é, para muitos, uma instituição
de passagem. Mas para quem já está há alguns
anos na carreira, como Gabriela Cavendish, 29 anos, empossada em
2002, a profissão tem grandes apelos. "Você tem a oportunidade
de ajudar as pessoas nas mais variadas causas", comenta ela. A função
de um defensor é prestar assistência jurídica
gratuita. Gabriela já passou pela Vara Criminal de Bangu,
pelo Núcleo de São João de Meriti e pela 2ª
Vara Cível de Madureira. O volume de trabalho é enorme;
levam-se processos para casa, mas o horário é flexível.
Como em várias carreiras, não se bate ponto, e o servidor
organiza seu horário. "Estudei muito para chegar aqui. Teve
época em que nem atendia o telefone para não me desconcentrar",
lembra. Ela fez três concursos até ser aprovada na
Defensoria. Testar conhecimentos e nervos em provas faz parte da
rotina dos aspirantes. "Nenhuma outra área tem um leque de
opções tão amplo. Há instituições
com dois concursos por ano", diz o presidente da OAB-RJ.
Felipe Varanda/Strana
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| Fábio
Cesar, juiz federal: aprovado com apenas 24 anos em dois concursos
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André Valentim/Strana
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| Dario,
juiz federal: decisões sobre royalties
de petróleo e hospitais |
Nas
provas, é preciso demonstrar conhecimento amplo do direito.
A primeira fase do concurso para juiz federal, por exemplo, tem
100 questões. São cinco horas de prova três
minutos para cada questão. Depois, vêm as provas discursivas
e a temida argüição oral. Um processo que se
estende por um ano. Em quase todos os concursos, as perguntas são
formuladas no dia da prova e os candidatos são identificados
por números. "O concurso do Ministério Público
é imune a fraudes", frisa o procurador-geral Marfan, rebatendo
a polêmica em torno do último concurso da instituição.
Dos 3.500 candidatos, só quinze foram aprovados, cinco deles
com algum grau de parentesco com promotores. Concursos sempre envolvem
tensão. "O candidato, além do conhecimento, tem de
saber reagir em situação de pressão", avalia
o juiz Fábio Cesar dos Santos Oliveira, 26 anos. Ele fez
concurso para a magistratura federal na 4ª (sul do país)
e na 2ª Região (Rio e Espírito Santo). Passou
nos dois, aos 24 anos. Excelente aluno, saiu da faculdade e não
freqüentou um cursinho preparatório. É exceção.
No Rio existem em torno de trinta escolas voltadas para esses concursos.
"Para passar é preciso ter método de estudo, força
de vontade e orientação adequada", prega Zilma Incerti,
coordenadora do curso Cepad, no Centro, um dos mais tradicionais.
O Tribunal de Justiça, o Ministério Público
e a Defensoria também oferecem preparatórios. Só
a escola de magistratura, que funciona no Fórum, tem 800
alunos. Entre os candidatos, uma frase já virou lema: "Não
se estuda para passar, mas até passar". Elaine Seixas, de
33 anos, sabe o que é isso. Depois de fazer publicidade,
decidiu estudar direito de olho nos concursos. Formou-se há
cinco anos, saiu do banco onde trabalhava e, desde então,
faz concursos. No Rio, em São Paulo, Minas, Brasília
e Bahia. "Disciplina é a palavra-chave", diz a jovem juíza
Rosana. Pode até faltar um pouco de experiência, mas
quem passa num concurso desses chega muito bem preparado. Justiça
seja feita.
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O
país tem, em média, um processo a cada 10,2
habitantes. No Rio há um processo a cada 11,3 habitantes
Há
13 660 juízes em atividade no país. Desses,
73% atuam na Justiça comum. No Rio, a Justiça
estadual tem 805 juízes
Fonte:
Ministério da Justiça/Diagnóstico do
Poder Judiciário
O
custo de um processo na Justiça estadual do Rio é
de R$ 3 737,00, mais barato apenas que no Amapá, Amazonas
e
Pará. A média nacional é de R$ 1 848,00
Fonte:
Ministério da Justiça/Diagnóstico do
Poder Judiciário
Em
2003, cada juiz da primeira instância
da Justiça comum do Rio julgou 987 processos
uma média de 2,7 por dia. A média nacional é
de 1 207 processos por juiz a cada ano
Fonte:
Ministério da Justiça/Diagnóstico do
Poder Judiciário
Os
juízes federais brasileiros estão entre os mais
bem pagos do mundo. De acordo com dados do Banco Mundial,
os de primeira instância só ficam abaixo dos
juízes canadenses, e os de segunda instância,
de canadenses e colombianos
Fonte:
Ministério da Justiça/Diagnóstico do
Poder Judiciário
No
Rio, a Justiça estadual gasta R$ 84,90 por habitante.
A média nacional é R$ 60,73 (despesa da Justiça
estadual pelo número de habitantes do estado)
Fonte:
Supremo Tribunal Federal/Seminário "A Justiça
em Números"
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