Publicidade
 




 
 
 


7 de maio de 2003
REPORTAGEM DE CAPA
ARTE
CONSUMO
BELEZA
CIDADE
DIVERSÃO
OPINIÃO DO LEITOR
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
   

ARTE

O Brasil de Debret

Gravuras do artista
inspiram livro e mostra

Isabel Butcher


Divulgação
O cotidiano brasileiro em aquarela de 1828: Passo do Rio de São Gonçalo faz parte da coleção comprada por Castro Maya

Veja também
Galeria de imagens

O ano de 1939 não foi dos mais propícios para um passeio pela Europa. Estourava a II Guerra Mundial quando um empresário e mecenas nascido na França, mas brasileiro de coração, desembarcou em Paris para tratar de arte. A missão de Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968) era trazer para o Brasil um conjunto de gravuras do artista Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Castro Maya não considerava a arte um negócio. Era paixão, um amor pelo qual fazia extravagâncias. Uma delas foi esta: encontrou-se com madame Mouriz, sobrinha-bisneta de Debret, e arrematou as 564 gravuras e aquarelas reunidas sob o título Voyage Pittoresque et Historique au Brésil (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil).


Divulgação
Tribo Guaiacuru em Busca de Novas Pastagens: Brasil selvagem registrado em aquarela

O primeiro volume das obras de Debret foi editado em 1834. O terceiro, e último, saiu em 1839. "Foi um fracasso editorial", conta Júlio Bandeira, historiador e curador do Museu Chácara do Céu e do Museu do Açude, outros belos legados de Castro Maya. O registro fiel de paisagens e personagens selvagens chocou a sociedade. "O brasileiro não queria se ver do jeito que Debret o retratou", conta Bandeira. O conjunto de gravuras, precioso documento de uma época, reencontra o público em duas frentes. Uma é o livro Castro Maya Colecionador de Debret, 264 páginas, da Editora Capivara, publicado com patrocínio da Bradesco Seguros. A obra, que chega às livrarias no dia 15, reúne todas as imagens desta que é a maior coleção conhecida do artista, além de textos de especialistas, como Júlio Bandeira, Vera Beatriz Cordeiro Siqueira, professora do Instituto de Arte da Uerj, Rafael Cardoso, professor do departamento de arte da PUC, e Pedro Corrêa do Lago, presidente da Biblioteca Nacional e editor do livro.

O lançamento da obra acontece na quinta-feira (8), na Chácara do Céu, em Santa Teresa, com coquetel para convidados. Lá, a partir do dia seguinte, o público poderá conferir a exposição que leva o nome do livro, com 149 trabalhos do artista francês. Para o carioca, as obras de Jean-Baptiste Debret têm valor inestimável, principalmente, pela importância documental. O artista francês ficou em solo brasileiro durante quinze anos – de 1816 a 1831. Daqui, acompanhou profundas mudanças na sociedade brasileira, da abertura dos portos à abdicação do trono por dom Pedro I e sua volta para Portugal.


Fotos divulgação
gação
Vida mansa: meio de transporte exportado para o Oriente Botica, de 1823: uma típica farmácia do século XIX

Debret captou personagens do Brasil e seus cenários em pinturas, aquarelas, desenhos e gravuras. A população escrava aparece em obras como Volta à Cidade de um Proprietário de Chácara, aquarela de 1822 que retrata um fidalgo viajando preguiçosamente deitado na rede. "Exportamos essa tecnologia para o Oriente. A circulação de informação e de produtos era muito grande entre as colônias portuguesas", ensina Julio Bandeira. Índios e paisagens aparecem em aquarelas como Tribo Guaiacuru em Busca de Novas Pastagens (1823) e Passo do Rio de São Gonçalo (1828). Em outra fase, surgiam as roupas francesas e os manufaturados ingleses. Era o início da formação de uma identidade nacional bem mais ao gosto da elite na época. Debret cumpriu no Brasil um exílio voluntário. Bonapartista, viu-se em perigo depois que o período napoleônico se encerrou na Europa. Com a morte do único filho, optou por respirar outros ares. Desembarcou com a Missão Francesa, excursão de pintores, escultores e arquitetos incumbidos de criar a Academia de Artes e Ofícios. Debret foi além. Fundou a própria academia e, produzindo incessantemente, formulou um rico acervo de documentação do país, especialmente do Rio de Janeiro. Acervo que, graças a Castro Maya, pode mais uma vez ser visitado em livro e exposição.

 

O acervo carioca do artista

Grande parte da obra de Jean-Baptiste Debret no país foi concentrada pelo colecionador Castro Maya, mas tem mais para ver. O Museu do Itamaraty, no Palácio do Itamaraty, e o Museu Histórico da Cidade, no Parque da Cidade, guardam, cada um, uma pintura do artista. Mais obras se encontram no Museu Nacional de Belas-Artes. Há quatro pinturas de Debret na Galeria do Século XIX em permanente exibição, doadas pelo diplomata José Ribeiro da Silva. "Foram produzidas durante a permanência do artista no Rio", conta a responsável pela coleção de pintura estrangeira Zuzana Paternostro. Uma quinta está na reserva técnica: Morte de Germânico é uma curiosa cópia feita por Debret de pintura do artista neoclássico Nicolas Poussin. Entre os trabalhos do Belas-Artes, o mais antigo é Retrato de D. João VI, de 1817. Há também Desembarque da Imperatriz no Brasil, O Imperador Dom Pedro I Jurando a Constituição do Império e A Aclamação de Dom Pedro I no Campo de Santana. As telas de Debret contam a história do Brasil.

 

         
     
 
 
VEJA on-line | Veja Rio | VEJA Noite Rio
copyright © 2002 . Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados