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CRÔNICA
Nós fomos jovens
Tutty
Vasques
Se
o que interessa na vida são os detalhes, como ensina Hamilton
Vaz Pereira a seus alunos de teatro, a meia hang ten que ele vestia
na tarde de nosso reencontro não saiu da gaveta por acaso.
Tanto quanto os dois pezinhos que ditavam a moda surfe, o diretor
é uma grife dos anos 70. Os cinqüentões de hoje
em dia sabem o que foi o Asdrúbal Trouxe o Trombone aos olhos
dos jovens de antigamente. Um colírio para os anos de chumbo.
Na
época, Chico Buarque gritava lá pra fora que "a coisa
aqui está preta", Gonzaguinha resmungava pelos cantos que
"não dá pra ser feliz", Augusto Boal estava preso,
José Celso Martinez Corrêa exilado e "nós alegres,
loucos pra namorar, viajar o Brasil, conhecer gente, celebrar a
vida no teatro", lembra Vaz Pereira. Os asdrúbals
Hamilton à frente de Regina Casé, Luiz Fernando
Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos, Perfeito
Fortuna, Nina de Pádua e Fábio Junqueira eram,
para os padrões da época, "um bando de alienados".
Falavam de sexo, drogas, escola, pai, mãe, amizade, camisinha...
Zero de política, opressão, sofrimento ou qualquer
outro tema do repertório politicamente correto de entonces.
Detonado
pelo Pasquim, patrulhado por artistas de esquerda e idolatrado
pelo público jovem que era ainda criança na época
do golpe militar, o Asdrúbal está fazendo trinta anos.
Ou seja, Regina Casé tinha 20 aninhos e a quarentona ditadura
comemorava uma década de horror quando o grupo entrou em
cena. Hamilton Vaz Pereira não estava nem aí para
a efeméride da trupe quando se deu conta numa livraria de
sua ausência nas prateleiras reservadas à dramaturgia.
"Aquilo me incomodou, me senti mal." O remédio foi voltar
aos anos 70 para resgatar e organizar em livros editados pela Objetiva
os três espetáculos que, com o epíteto "criação
coletiva", deram ao diretor status de autor.
Quando
Hamilton abriu as pastas em que guardava os originais de Trate-me
Leão; Aquela Coisa Toda e A Farra da Terra
"Deus do Céu", repete sempre que lembra daquele instante
, "encontrei cenas rabiscadas, algumas versões escritas
a mão, outras batidas na Lettera 22, tudo riscado..." Com
medo de estar mexendo no que o tempo levou, "quem sabe já
era", o autor entregou-se "com muita preguiça e emoção"
à montagem do quebra-cabeça de sua obra. Trate-me
Leão, o primeiro livro da série, ficou em pé
com a ajuda da memória dos amigos e, principalmente, de uma
fita cassete do espetáculo gravado em áudio. No final,
uma sensação bacana. "O texto resistiu ao tempo, o
espetáculo é remontável pra caramba e está
aí à disposição das futuras gerações."
Hamilton
chegou aos 52 anos em estado de graça. Revirar o baú
do Asdrúbal reforçou nele o orgulho de ter comandado
essa turma de "garotas gostosas e garotos tesudos", que não
teve medo de ser feliz quando era feio sorrir. "Para o teatro dos
anos 60, éramos uma palhaçada." Por essas e outras
é que acha engraçado quando volta e meia alguém
de sua geração detona a juventude de agora. Diz que
não cai nessa. "Só fico torcendo para que a garotada
esteja sabendo que a vida é dura para quem é mole"
leu algo assim num pára-choque dia desses.
"Por
força da madureza, da velhice, da idade adulta", Vaz Pereira
tem andado "muitíssimo emocionado". Está adorando
viver. Como no tempo em que largou o colégio e saiu de casa,
não consegue juntar justificativas para sofrer com o estado
de coisas a que chegamos. "Como ser infeliz vivendo numa cidade
linda como o Rio de Janeiro, com tantos amigos legais, tanta vida
por fazer, o Brasil por construir..." De uns dois anos pra cá,
chamado regularmente a velórios de amigos, Hamilton deu para
questionar: "Quanto tempo ainda tenho de vida?" Seja o que for,
"é pouco, tá tão bom!"
Não
se queixa de nada. Diz que o teatro pagou bem por seu trabalho,
que alguns de seus velhos parceiros atingiram notoriedade mais que
merecida na TV, que é o único culpado pela demora
na publicação de seus textos, que não guarda
ressentimentos de quem o patrulhou... "Como dizia João Saldanha,
quem reclama já perdeu." Quando desanima, apanha da mulher.
"É por isso que estou casado com Lena Brito há vinte
anos, ela não tolera minha fraqueza."
A
história de amor com os asdrúbals também
entremeia tapas e beijos. "Já brigamos tantas vezes entre
a gente que era pra um não querer ver o outro há muito
tempo." Como diz no livro de Heloísa Buarque de Hollanda
(Asdrúbal Trouxe o Trombone Memórias
de uma Trupe Solitária de Comediantes que Abalou os Anos
70, com lançamento marcado para abril), "não há
amor ou ódio que faça a gente perder nossa amizade".
A
essa riqueza inestimável se soma outro patrimônio pessoal
incalculável: a capacidade de delirar está inteiramente
preservada no artista. Seu próximo espetáculo, A
Leve O Próximo Nome da Terra (com Letícia
Spiller, Floriano Peixoto, Paulinho Mosca e Lena Brito), transcorre
num tempo em que "o homem vai estar tão diferente que não
vai mais se chamar homem". A Terra, também não. Mais
Asdrúbal, impossível.
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