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7 de abril de 2004
REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Nós fomos jovens

Tutty Vasques

Se o que interessa na vida são os detalhes, como ensina Hamilton Vaz Pereira a seus alunos de teatro, a meia hang ten que ele vestia na tarde de nosso reencontro não saiu da gaveta por acaso. Tanto quanto os dois pezinhos que ditavam a moda surfe, o diretor é uma grife dos anos 70. Os cinqüentões de hoje em dia sabem o que foi o Asdrúbal Trouxe o Trombone aos olhos dos jovens de antigamente. Um colírio para os anos de chumbo.

Na época, Chico Buarque gritava lá pra fora que "a coisa aqui está preta", Gonzaguinha resmungava pelos cantos que "não dá pra ser feliz", Augusto Boal estava preso, José Celso Martinez Corrêa exilado e "nós alegres, loucos pra namorar, viajar o Brasil, conhecer gente, celebrar a vida no teatro", lembra Vaz Pereira. Os asdrúbals – Hamilton à frente de Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos, Perfeito Fortuna, Nina de Pádua e Fábio Junqueira – eram, para os padrões da época, "um bando de alienados". Falavam de sexo, drogas, escola, pai, mãe, amizade, camisinha... Zero de política, opressão, sofrimento ou qualquer outro tema do repertório politicamente correto de entonces.

Detonado pelo Pasquim, patrulhado por artistas de esquerda e idolatrado pelo público jovem que era ainda criança na época do golpe militar, o Asdrúbal está fazendo trinta anos. Ou seja, Regina Casé tinha 20 aninhos e a quarentona ditadura comemorava uma década de horror quando o grupo entrou em cena. Hamilton Vaz Pereira não estava nem aí para a efeméride da trupe quando se deu conta numa livraria de sua ausência nas prateleiras reservadas à dramaturgia. "Aquilo me incomodou, me senti mal." O remédio foi voltar aos anos 70 para resgatar e organizar em livros editados pela Objetiva os três espetáculos que, com o epíteto "criação coletiva", deram ao diretor status de autor.

Quando Hamilton abriu as pastas em que guardava os originais de Trate-me Leão; Aquela Coisa Toda e A Farra da Terra – "Deus do Céu", repete sempre que lembra daquele instante –, "encontrei cenas rabiscadas, algumas versões escritas a mão, outras batidas na Lettera 22, tudo riscado..." Com medo de estar mexendo no que o tempo levou, "quem sabe já era", o autor entregou-se "com muita preguiça e emoção" à montagem do quebra-cabeça de sua obra. Trate-me Leão, o primeiro livro da série, ficou em pé com a ajuda da memória dos amigos e, principalmente, de uma fita cassete do espetáculo gravado em áudio. No final, uma sensação bacana. "O texto resistiu ao tempo, o espetáculo é remontável pra caramba e está aí à disposição das futuras gerações."

Hamilton chegou aos 52 anos em estado de graça. Revirar o baú do Asdrúbal reforçou nele o orgulho de ter comandado essa turma de "garotas gostosas e garotos tesudos", que não teve medo de ser feliz quando era feio sorrir. "Para o teatro dos anos 60, éramos uma palhaçada." Por essas e outras é que acha engraçado quando volta e meia alguém de sua geração detona a juventude de agora. Diz que não cai nessa. "Só fico torcendo para que a garotada esteja sabendo que a vida é dura para quem é mole" – leu algo assim num pára-choque dia desses.

"Por força da madureza, da velhice, da idade adulta", Vaz Pereira tem andado "muitíssimo emocionado". Está adorando viver. Como no tempo em que largou o colégio e saiu de casa, não consegue juntar justificativas para sofrer com o estado de coisas a que chegamos. "Como ser infeliz vivendo numa cidade linda como o Rio de Janeiro, com tantos amigos legais, tanta vida por fazer, o Brasil por construir..." De uns dois anos pra cá, chamado regularmente a velórios de amigos, Hamilton deu para questionar: "Quanto tempo ainda tenho de vida?" Seja o que for, "é pouco, tá tão bom!"

Não se queixa de nada. Diz que o teatro pagou bem por seu trabalho, que alguns de seus velhos parceiros atingiram notoriedade mais que merecida na TV, que é o único culpado pela demora na publicação de seus textos, que não guarda ressentimentos de quem o patrulhou... "Como dizia João Saldanha, quem reclama já perdeu." Quando desanima, apanha da mulher. "É por isso que estou casado com Lena Brito há vinte anos, ela não tolera minha fraqueza."

A história de amor com os asdrúbals também entremeia tapas e beijos. "Já brigamos tantas vezes entre a gente que era pra um não querer ver o outro há muito tempo." Como diz no livro de Heloísa Buarque de Hollanda (Asdrúbal Trouxe o Trombone Memórias de uma Trupe Solitária de Comediantes que Abalou os Anos 70, com lançamento marcado para abril), "não há amor ou ódio que faça a gente perder nossa amizade".

A essa riqueza inestimável se soma outro patrimônio pessoal incalculável: a capacidade de delirar está inteiramente preservada no artista. Seu próximo espetáculo, A Leve O Próximo Nome da Terra (com Letícia Spiller, Floriano Peixoto, Paulinho Mosca e Lena Brito), transcorre num tempo em que "o homem vai estar tão diferente que não vai mais se chamar homem". A Terra, também não. Mais Asdrúbal, impossível.

         
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