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CONSUMO
A
nobreza da cachaça
A
prima pobre dos destilados ficou chique
Livia
de Almeida
Fotos André Valentim/Strana
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Ganyvit
(SP): R$ 112,00 na
Garapa Doida |
Oliveira:
menos caipivodcas |
No
passado, eram tão raros os restaurantes a oferecer cachaça
que, conta a lenda, o compositor João do Vale, apreciador
de uma branquinha, quando visitava o Lamas, costumava pedir uma
caipirinha sem gelo, sem açúcar nem limão.
Hoje em dia, o compositor de Carcará não teria
dificuldade de encontrar a bebida nas melhores mesas da cidade.
De A a Z, ou melhor, do aristocrático Antiquarius ao moderninho
Z Contemporâneo, do chef Felipe Bronze, a cachaça
especialmente a artesanal, produzida em alambiques de cobre
ganhou destaque nas cartas de bebidas. E tem até seus ícones,
como a mineira Anísio Santiago (a antiga Havana), produzida
em limitada tiragem de 10.000 garrafas ao ano. No Z, uma dose custa
21 reais, bem mais que a do uísque 12 anos, 16 reais. "Antigamente,
cachaça era bebida para quem não tinha dinheiro. Isso
já era. Hoje ela é apreciada por um público
que gosta de beber bem e entende do assunto", afirma Fabiano Dias,
gerente de bar do recém-inaugurado Z e criador de drinques
com a bebida (veja quadro).
Napoleão Velloso, dono de A Garrafeira, no Leblon, reconhece
o fenômeno. "Está havendo um marcante acréscimo
no consumo da cachaça de alta qualidade." "A cachaça
ficou chique", resume Antonio Gillet, da Garapa Doida, no Leblon.
A loja comercializa, desde 1996, cinqüenta rótulos especiais
da bebida, entre elas algumas raridades como a Senador, uma mineira
envelhecida por dezoito anos em barril de garapa-amarela.
A
cachaça artesanal já não é exclusividade
das lojas especializadas. Chegou também às prateleiras
dos supermercados. Há um ano, o Zona Sul começou a
vender a Magnífica, produzida no Estado do Rio. Em novembro,
o supermercado passou a oferecer quarenta rótulos, entre
eles preciosidades como a Anísio Santiago e a fluminense
Rochinha, envelhecida por doze anos. E, a partir do dia 15, o supermercado
distribui aos clientes uma carta de cachaças, com informações
sobre as características das diversas marcas disponíveis,
em português e inglês. "Vai ser idêntica à
nossa carta de vinhos, informando a área de produção,
o tempo de envelhecimento e a melhor forma de consumir", diz Jayme
Xavier, diretor comercial do estabelecimento.
Para
elaborar a carta, o Zona Sul contou com a assessoria de alguns especialistas
no assunto, entre eles o empresário João Luiz de Farias,
dono da cachaça Magnífica, produzida na fazenda do
Anil, em Miguel Pereira. A história da disseminação
dessa marca pelos restaurantes e bares da cidade acompanha o crescente
interesse do carioca pela bebida artesanal. Em 2000, quando iniciou
a comercialização de suas garrafas com rótulo
branco e preto (cachaça envelhecida por dois anos em barris
de carvalho), João batia de porta em porta, para tentar vender
seu produto. "Era a maior dificuldade. Os botequins diziam que ela
era cara demais. E os restaurantes de categoria alegavam que seus
clientes preferiam outros destilados." Explica-se: uma garrafa de
Magnífica rótulo branco custa em torno de 12 reais,
o equivalente a cinco garrafas de Caninha da Roça. Ele vendia,
quando muito, trinta dúzias de garrafas por semana. João
Luiz não se deu por vencido. "Investi na fazenda o equivalente
a dez apartamentos. Não dava para desistir", recorda-se.
"Ele é incansável", afirma Antonio Gillet, da Garapa
Doida.
Fotos Cláudia Martins/Strana
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João
Luiz, da Magnífica: trabalho
de formiguinha para
divulgar sua marca |
O
esforço compensou. Hoje, a Magnífica é encontrada
em 220 pontos-de-venda espalhados pela cidade. Em ambientes tão
diversos quanto o despojado Bar do Mineiro, em Santa Teresa, e o
sofisticado Eça. As vendas semanais passaram de 500 dúzias
de garrafas e não param de crescer. A meta até o fim
do ano é chegar a 1 000 dúzias por semana. Dos tempos
heróicos, João Luiz guardou histórias como
a do demorado processo de aproximação com o Antiquarius.
"Foram mais de seis meses de conversa, até que o Oliveira,
o chefe dos barmen, experimentou e aprovou. Mas ainda achava que
o cliente do Antiquarius ia querer drinques com vodca", lembra João.
"Eu nunca tinha tomado a Magnífica", justifica-se Antonio
José de Oliveira. "Ela tem um perfume maravilhoso, diferente
do das outras. Aumentou a venda de caipirinhas. Há dias em
que elas saem mais do que as caipivodcas." "A Magnífica é
um sucesso. É uma das doze marcas que destacamos na nossa
carta", diz Renata Quinderé, da Academia da Cachaça.
Deise Novakoski, sommelier do Eça e do Carême, é
outra fã das cachaças artesanais, em geral, e da Magnífica,
em especial. "Ela é produzida com muito cuidado e vem mantendo
as mesmas características com uma apresentação
moderna", analisa.
Deise
dá algumas dicas para aproveitar melhor uma boa pinga. As
brancas em geral se prestam bem para drinques como a caipirinha.
As amarelas, envelhecidas, são ideais para ser consumidas
puras, especialmente após a refeição, como
digestivo. Catarina Gillet, da Garapa Doida, no Leblon, concorda.
"Uma Anísio Santiago, por exemplo, é para ser bebida
com vagar, acompanhada de um bom charuto." Deise e Catarina também
não vêem problema em servir a cachaça envelhecida
gelada ou mesmo on the rocks. "As pessoas ainda não
descobriram todo o potencial da cachaça", diz Deise. Ela
costumava, em aulas sobre destilados, fazer uma degustação
às cegas da Senador. "Alguns diziam conhaque, outros, armagnac.
Ninguém acertava", lembra. A cachaça anda um luxo
só.
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Endereços
A Garrafeira, Rua Dias Ferreira, 259, loja A,
2512-3336
Garapa
Doida, Rua Carlos Goes, 234, loja F,
2274-8186
Supermercado
Zona Sul, Rua Dias Ferreira, 320,
2512-2999. |
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Deu
a louca na caipirinha
Divulgação
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| Drinques
do Canela Fina: com ervas |
A
caipirinha costuma fazer parte da lista de qualquer estrangeiro
que chega aqui ávido por experimentar especialidades
tupiniquins. O drinque feito com limão, açúcar
e cachaça foi reconhecido, por decreto, como produto
brasileiro. Mas qual não é a surpresa dos gringos
ao perceber os mil sabores que a caipirinha ganhou? A receita
original deu lugar às mais variadas criações.
O cliente pode não só escolher a marca da cachaça
(e, às vezes, até prescindir dela, nas caipivodcas
e outras variações), mas também as combinações
de frutas, ervas e especiarias. No cardápio do Z Contemporâneo,
em Ipanema, melancia com capim-limão virou o drinque
da casa. Caipirinha de uva, morango ou maracujá não
chega a ser novidade. Mas que tal misturar as frutas? Kiwi
com lichia ou morango, framboesa e amora. "O importante é
que o gosto case bem e o visual fique interessante", diz Fabiano
Dias, responsável pelos coquetéis do Z Contemporâneo
e do Saturnino. O Zazá Bistrô procurou frutas
menos comuns, como a jaca e a carambola. No Canela Fina, a
caipirinha é mais pedida que o chope. O dono e barman
Samy Al Jamal resolveu pôr tempero no copo. Suco de
tomate, pimenta-rosa e erva-doce formam uma caipivodca. Abacaxi,
leite de coco e alecrim, um caipisaquê. Não pára
por aí: uva com manjericão, morango com canela
e caldo de cana com tomilho são outras das exóticas
caipialgumacoisa que o restaurante propõe. "As
ervas e os temperos têm a função de ressaltar
o sabor da fruta e perfumar a bebida. Pode assustar, mas acaba
agradando", explica Samy.
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Coquetéis
Caiprinha
de melancia com capim limão
4 pedaços de melancia
4 cabos de capim limão
2 a 4 colheres de chá de açúcar
60ml de cachaça
Amasse
bem os cabinhos do capim limão com socador. Coloque
açúcar a gosto. Amasse bem a melancia e junte
ao capim limão. Acrescente a cachaça, gelo e
coe antes de beber. (Receita de Fabiano Dias, do restaurante
Z Contemporâneo)
Coquetel Magnífico
1 dose (60 ml) de cachaça Magnífica
Meia colher de sopa de absinto
2 doses de suco de abacaxi
Bater
bem batido no shaker. Colocar em copo longo com cubos de gelo
e decoração de abacaxi e cereja. Para decorar,
derramar Curaçao Blue nas bordas do copo (receita de
Antonio Oliveira, barman do Antiquarius).
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