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REPORTAGEM
DE CAPA
Corretor
implacável
Com
uma agressiva estratégia de vendas,
Rubem Vasconcelos conquista o mercado
de imóveis e gera polęmica
Fabio
Brisolla
André Nazareth/Strana
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"Ao
comparar a conjuntura do país e o desempenho de vendas
da Patrimóvel parece que não estamos no Brasil."
RUBEM
VASCONCELOS
Dono
da Patrimóvel
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Os
salões do Copacabana Palace estão prontos para o coquetel.
No primeiro ambiente, enfeitado com lindíssimas recepcionistas
e onde garçons circulam com bandejas cheias de taças
de vinho e copos de uísque, uma iluminada maquete brilha
no meio do salão. Pouco mais adiante estão os corretores,
mais de 200, sentados e concentrados. Na terceira sala ficam as
mesas para as negociações com os clientes. O último
ambiente é reservado para as escrituras. A festa marca o
lançamento do Macaé Palace Hotel, empreendimento que
será construído no norte fluminense. Corretores de
terno, identificados com crachás, circulam ansiosos e desejam
boa sorte uns aos outros. A todo momento, uma voz grave, gritando
ordens e incentivos, é ouvida no sistema de som. A voz é
de Rubem Vasconcelos, 53 anos, dono da Patrimóvel. É
ele o responsável pelo coquetel, uma agressiva estratégia
de vendas batizada de panela de pressão, que impressionou
construtores pela capacidade de atrair compradores. Testada e aprovada,
principalmente em empreendimentos na Barra da Tijuca, a panela
de pressão ajudou a transformar Rubem no maior corretor
de lançamentos imobiliários da cidade.
Para
Rubem, as festas de lançamento de imóveis são
"represamentos da demanda". A coisa funciona assim. Quando há
um lançamento em vista, os 500 corretores da Patrimóvel
passam horas ao telefone, convidando o maior número de compradores
potenciais para o coquetel. Não são revelados valores
nem detalhes do projeto. Números precisos só mesmo
para quem comparecer à festa. O resultado é espantoso.
No Copacabana Palace, dezenas de clientes e corretores disputavam
o direito de escolher cada unidade. "Eu concentro todos os clientes
num mesmo ambiente para que um veja o outro comprando, como na bolsa
de valores. Aquele sujeito que estava na dúvida se entusiasma
e acaba levando", explica Rubem. Com voz de locutor de rádio
AM e lábia de camelô (ele fala sem parar), o empresário
comanda a festa. Microfone na mão, organiza a fila de clientes,
grita e gesticula o tempo todo. Sempre com um sorriso no rosto.
No fim do coquetel, 112 das 140 unidades do Macaé Palace
Hotel estavam vendidas. Em uma noite.
Recentemente,
Rubem alcançou o resultado mais expressivo da história
da Patrimóvel com o lançamento do Le Parc, empreendimento
das construtoras RJZ e Cyrella na Barra da Tijuca. O cronograma
previa a venda inicial de um lote com 228 unidades. Foram vendidos
500 apartamentos. Nos dez primeiros meses de 2003, o faturamento
mensal da Patrimóvel girou em torno de 60 milhões
de reais. Com a ajuda do Le Parc, lançado em novembro, a
Patrimóvel alcançou um total de 260 milhões
de reais em apenas dois meses. Muitos fatores contribuíram
para o sucesso do Le Parc. O empreendimento está localizado
em um ponto valorizado na Avenida das Américas, próximo
do BarraShopping. O projeto foi bem elaborado e recebeu elogios
de todo o mercado. Um grande estande foi erguido no local da obra
com três apartamentos decorados para seduzir os clientes.
Apesar disso, o bom resultado da Patrimóvel gerou polêmicas.
Dilmar Cavalher/Strana
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André Nazareth/Strana
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| O
Le Parc (abaixo) tornou-se um marco na atuação
da equipe da Patrimóvel na Barra da Tijuca. Em dois meses,
a equipe de Rubem Vasconcelos vendeu quase 500 apartamentos.
A estratégia de vendas gerou polêmica e desagradou
a outros clientes da empresa |
Divulgação
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A
principal reclamação das demais construtoras é
quanto ao preço de lançamento das unidades. Um apartamento
de dois quartos no Le Parc chegou a ser vendido por 250.000 reais
em novembro. Quatro meses depois, um imóvel equivalente,
no mesmo empreendimento, está sendo comercializado por 340.000
reais. Pela influência decisiva que tem na fixação
dos preços, Rubem foi criticado por não conter o ímpeto
de Rogério Jonas Zylbersztajn, dono da RJZ. De acordo com
os críticos, a estratégia avassaladora de vendas prejudicou
os lançamentos de outros clientes da Patrimóvel. Outra
questão que chamou a atenção do mercado foi
a premiação dos corretores oferecida nas vendas do
Le Parc. "Nos períodos de pré-lançamento costumamos
dar o dobro de comissão aos corretores", explica Rubem. A
comissão praticada, de 0,9%, sobe para 1,8%. O bônus
é pago pelo construtor, e todos os clientes da Patrimóvel
costumam seguir tal procedimento. A novidade criticada foi o sorteio
de carros zero-quilômetro entre os corretores. De acordo com
um funcionário da Patrimóvel, a corretora prometeu
sortear dezoito Palio caso a equipe vendesse 360 unidades do Le
Parc até 10 de janeiro. Cada um dos gerentes e diretores,
por sua vez, ganharia um Audi A3. Os corretores cumpriram o objetivo
com sobras. "Os dezoito Palio foram sorteados, mas a premiação
do Audi A3 acabou cancelada. Cada gerente recebeu 10.000 reais",
conta o funcionário.
Dilmar Cavalher/Strana
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Cláudia Martins/Strana
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"Vamos
investir 1 milhão de dólares em 2004 e seremos
concorrentes diretos da Patrimóvel."
PAULO
CEZAR XIMENES
Dono
da Ximenes Consultoria Imobiliária
"Uma
empresa concorrente vende hoje o equivalente ao faturamento
de uma equipe da Patrimóvel. E nós temos 26
equipes."
RUBEM
VASCONCELOS
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"Estou
processando o Rubem por ter lançado empreendimentos
em Macaé."
PLINIO
SERPA PINTO
Dono
da Patrimóvel Niterói
"Não
estou impedido de atuar em Macaé, o que não
posso é usar a marca Patrimóvel."
RUBEM
VASCONCELOS
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Os
incorporadores são diplomáticos ao comentar o episódio
Le Parc. "O Rubem sempre foi muito fiel e sempre nos colocou em
primeiro lugar. Sabemos que no coração dele a Gafisa
é muito especial", diz Francisco Eduardo Pedroso, diretor
da construtora. No caso do Blue One, empreendimento lançado
pouco antes do Le Parc na Barra da Tijuca, a Gafisa, que namorava
a Patrimóvel, optou por um triângulo amoroso. Contratou
a corretora Novamarca para dividir as vendas com a Patrimóvel.
"Não é uma insatisfação. De forma nenhuma
posso dizer que o Rubem não me atende, mas a gente tem de
estar sempre buscando alternativas", comenta Pedroso. Outra construtora,
a Comasa, também tomou caminho alternativo. Decidiu trocar
de corretora durante a comercialização do edifício
The One, lançado em novembro na Península da Barra.
No lugar da Patrimóvel entrou a Basimóvel. Sobre o
assunto, o sócio da Comasa Marcus Bejgel foi seco. "Prefiro
não falar porque não trabalhamos mais com a Patrimóvel",
resumiu.
Na
rotina de Rubem não há espaço para comemorações.
O êxito em um empreendimento implica a obrigação
de repetir o feito com outros clientes. Quando começou a
organizar os coquetéis, a panela de pressão
era responsável pela venda de 20% das unidades. Com o desempenho
surpreendente em alguns lançamentos, o nível de exigência
subiu. "O construtor hoje já quer vender 50% no coquetel,
parece que sou mágico. É pressão por todos
os lados", desabafa. Rubem desencadeia uma operação
de guerra a cada lançamento. Na engrenagem da Patrimóvel,
tudo parece funcionar sob pressão. A empresa tem quatro diretorias
para atender aos lançamentos da Zona Sul e da Barra. Cada
diretor conta com cinco gerentes e cada gerente tem vinte corretores.
Nos lançamentos, cada equipe de vinte corretores é
obrigada a trazer de dez a vinte reservas. "Eles têm de ralar,
o bicho aqui pega forte. Todo mundo fica morto no final, mas feliz",
diz Rubem.
Por
estar no epicentro da disputa do mercado imobiliário, Rubem
mantém uma postura agressiva em relação à
concorrência. Costuma dizer que cada diretoria da Patrimóvel
equivale a uma das corretoras que disputam o segundo lugar. "Procuro
ter sempre exclusividade. Digo (aos construtores) que a Patrimóvel
já possui quatro empresas, portanto não é necessária
uma quinta", argumenta. Para ele, os empresários da construção
civil se preocupam desnecessariamente com o domínio da Patrimóvel.
"Quando faço coquetéis simultâneos, acham que
não dou conta. Mas estou dando conta de tudo. Isso eles têm
de entender", diz. Apesar disso, os construtores vêem falhas
no mecanismo da Patrimóvel: o esforço dos corretores
estaria muito concentrado nos coquetéis, período em
que há as premiações. "Após o lançamento,
falta um pouco mais de determinação", avalia Sérgio
Goldberg, dono da Agenco. Rogério Chor, da CHL, reclama das
premiações. "Acho que não é preciso,
mas já virou regra", comenta. No caso das construções
de luxo na Zona Sul, com poucos apartamentos e venda segura, Rogério
não costuma oferecer bonificações. Mas segue
a regra em outros casos, como no lançamento do edifício
Botafogo Easy Way, na Rua da Passagem, com 96 unidades. Ali, a comissão
dobrada já está confirmada. "Acho que não seria
necessário, mas na dúvida é melhor dar", diz
Rogério Chor, sem conter a risada.
Apesar
de criticado, o poder de vendas do principal corretor da cidade
é reverenciado. "O Rubem é o Pelé do mercado
imobiliário, um artista. Tem o dom de comandar uma equipe",
elogia Rogério Chor. Sérgio Goldberg também
aplaude. Com a equipe de vendas de Rubem, a Agenco fez o lançamento
mais bem-sucedido de sua história, o Sheraton Four Points,
no município de Macaé, em maio passado. "Em uma noite
vendemos quase todas as 250 unidades", lembra Sérgio. Ali
também a conquista da Patrimóvel veio acompanhada
de polêmica. E a discussão foi parar na Justiça.
"Tenho uma ação contra o Rubem relacionada aos assuntos
de Macaé", diz Plínio Serpa Pinto, 57 anos, dono da
Patrimóvel em Niterói. Os construtores definem como
nitroglicerina pura a briga entre Rubem e Plínio. Os dois
já foram sócios e amigos. Rubem começou sua
carreira na Júlio Bogoricin de Niterói ao lado de
Plínio. Anos depois, tornou-se sócio da empresa em
Belo Horizonte. Na época, Plínio era vice-presidente
de marketing da JB. Em 1992, convidou Plínio para ser seu
sócio na compra da Patrimóvel, corretora que pertencia
à Agenco.
Dez
anos depois, a sociedade entre Rubem e Plínio foi desfeita
e a inimizade, firmada. Até então, Rubem administrava
as vendas no Rio e Plínio comandava os negócios em
Niterói. Como o faturamento carioca era maior, Rubem considerava
injusta a divisão dos lucros. "Houve um descontentamento
porque o Plínio não trabalhava. Nunca deu uma gota
de suor pela Patrimóvel Rio", critica Rubem. "O Rubem é
um belo profissional, mas com um pouco de falta de memória",
diz Plínio. Os dois resolveram encerrar a sociedade. Rubem
ficou com a Patrimóvel no Rio e Plínio conquistou
o direito de explorar sozinho a marca na área de Niterói
a Campos, incluindo Macaé. Com o aquecimento do mercado naquela
região, Rubem envolveu-se com dois lançamentos por
lá, o Sheraton Four Points e, mais recentemente, o Macaé
Palace. Para isso, usou outra empresa, a Rubem Vasconcelos Imóveis.
Plínio foi à Justiça. "Se foi feita uma divisão,
é inadmissível que ele opere com outra empresa, utilizando
funcionários, instalações e talonários
da Patrimóvel", protesta. Rubem reage: "Isso é despeito.
Não estou impedido de atuar no Estado do Rio, o que não
posso é usar a marca Patrimóvel".
Para
esquentar a guerra do mercado imobiliário, um novo personagem
anuncia sua chegada. Paulo Cezar Ximenes, 39 anos, dono da Ximenes
Consultoria Imobiliária, corretora especializada em imóveis
de alto luxo na Zona Sul, alugou um escritório de 150 metros
quadrados no Centro do Rio e está fechando a negociação
da sede na Barra, em uma área de 500 metros quadrados, e
de uma loja em Ipanema. O objetivo é invadir a Barra da Tijuca.
"O Rubem é um cara muito competente e inteligente, mas o
sol nasceu para todos", diz. Ximenes é ambicioso, mas Rubem
não pretende ser apeado da liderança. Em recente reunião
com 400 corretores, fez um discurso inflamado. "Todas as vezes que
a gente se determinou, que a gente quis, que a gente atacou... Nós
vencemos!!" O exército de corretores respondeu com aplausos
entusiasmados. Rubem está pronto para a batalha.
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Clientes
de peso
Fotos André Valentim/Strana
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Sérgio
Goldberg (na foto),
Agenco. Investiu na construção do Sheraton Four
Points, em Macaé. As 250 unidades foram vendidas na
mesma noite. "Foi o resultado mais expressivo da história
da Agenco."
Rogério
Chor,
CHL. Parceiro de Rubem em prédios de luxo na Zona Sul
do Rio. Um dos melhores resultados foi a venda de 35 unidades
do apart-hotel Ipanema Pax, na Barão da Torre, em menos
de uma hora. "O Rubem é um artista."
Francisco
Eduardo Pedroso (na foto),
Gafisa. Empresa que vendeu a Patrimóvel para Rubem
Vasconcelos. Quase todos os lançamentos da Gafisa são
exclusivos de Rubem Vasconcelos. No caso do Blue One, na Barra,
resolveu dividir as vendas com a corretora Novamarca. "O Rubem
sempre colocou a Gafisa em primeiro lugar."
Marcus
Bejgel,
Comasa. A parceria com Rubem no empreendimento The One, lançado
em novembro passado na Península da Barra, foi rompida.
No lugar da Patrimóvel entrou a Basimóvel.
Rogério
Jonas Zylbersztajn
(na foto), RJZ.
Fatura alto com a parceria em grandes empreendimentos na Barra.
É o responsável pelo fenômeno Le Parc.
"Nas reuniões, o Rubem tem mania de pedir 50 reais
para dar sorte na venda do empreendimento. Já gastei
mais de um mil reais com ele nessa história."
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