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CRÔNICA
A
revolução do fumo
João
Emanuel Carneiro
Tenho
de admitir: de uns tempos pra cá me tornei um consumidor
fervoroso do cigarro. É que essa coisa de ficar em casa escrevendo
combina mesmo com fumar. Antes de escrever esta crônica, por
exemplo, não dá pra não acender um cigarrinho.
É entre uma baforadinha e outra que a inspiração
vem. Tem o cigarro depois da refeição, o cigarro depois
do café, o cigarro de quando você entra em casa, aquele
último cigarro antes de sair, o cigarro de varanda (varandas
foram feitas pra fumar), o cigarro da cerveja, o cigarro do engarrafamento,
um abençoado remédio numa situação dessas,
e por aí vai.
Mas
aí você repara no maço, o Ministério
da Saúde advertindo sobre os malefícios dessa praga
que é o fumo. Os jornais e as TVs te bombardeiam com matérias
sobre o câncer, a gestação interrompida, o risco
de ataque cardíaco que um inocente cigarrinho pode causar.
Você começa a achar que é um verdadeiro suicida.
E o pior é que é tudo verdade. Os cientistas não
erram.
Aí vai meu conselho às fábricas de cigarro:
contra-ataquem, surpreendam a todos criando os cigarros-remédio.
De alguma forma, os cientistas deste admirável mundo novo
em que vivemos teriam de bolar uma maneira de substituir a nicotina
e o alcatrão por substâncias curativas e benéficas
à saúde, mantendo, evidentemente, o mesmo gosto e
a sensação agradável que temos ao fumar os
antigos e saborosos veneninhos.
Cigarros
passariam a ser vendidos até nas farmácias. No maço,
estaria escrito: "O Ministério da Saúde recomenda
o consumo destes cigarros". Os cigarros-remédio teriam várias
modalidades: o cigarro antigripal, por exemplo, com doses extras
de vitamina C, o cigarro calmante logo após fumar,
garantiria um sono tranqüilo , o cigarro para cólicas,
o cigarro antibiótico, o cigarro antiinflamatório,
o cigarro regenerador do pulmão, este um sucesso absoluto
de vendas.
Já estou até vendo os comerciais dos novos cigarros-remédio.
Corredores da Maratona Olímpica fumam um cigarrinho pros
pulmões antes de correr. E quando chegam, exaustos, botando
o coração pela boca, rompendo o cordão da vitória,
lhes são imediatamente servidos cigarros que previnem infartos,
que eles fumam avidamente diante da multidão no estádio.
Para as crianças, o grande progresso seria a invenção
do cigarro de proteção bucal. No comercial desse cigarro,
veríamos um pai zeloso que adentra o quarto e pergunta ao
filho de 6 anos que está deitado na cama:
Esqueceu de fumar seu cigarrinho antes de dormir?
Ao que o garoto responde:
Ah, pai, deixa pra amanhã...
Mas o pai zeloso saca logo o maço do bolso e acende um cigarrinho
que passa pro filho.
Não, filhão, você vai fumar, sim. Até
porque esse novo cigarro de proteção bucal tem gosto
de chocolate!
O meninão se anima:
De chocolate, pai!?
Prova só como é gostoso!
É
melhor parar por aqui com esse delírio tabagista. Até
porque tá na hora de acender um cigarrinho.
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