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7 de janeiro de 2004
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CRÔNICA

A revolução do fumo

João Emanuel Carneiro

Tenho de admitir: de uns tempos pra cá me tornei um consumidor fervoroso do cigarro. É que essa coisa de ficar em casa escrevendo combina mesmo com fumar. Antes de escrever esta crônica, por exemplo, não dá pra não acender um cigarrinho. É entre uma baforadinha e outra que a inspiração vem. Tem o cigarro depois da refeição, o cigarro depois do café, o cigarro de quando você entra em casa, aquele último cigarro antes de sair, o cigarro de varanda (varandas foram feitas pra fumar), o cigarro da cerveja, o cigarro do engarrafamento, um abençoado remédio numa situação dessas, e por aí vai.

Mas aí você repara no maço, o Ministério da Saúde advertindo sobre os malefícios dessa praga que é o fumo. Os jornais e as TVs te bombardeiam com matérias sobre o câncer, a gestação interrompida, o risco de ataque cardíaco que um inocente cigarrinho pode causar. Você começa a achar que é um verdadeiro suicida. E o pior é que é tudo verdade. Os cientistas não erram.

Aí vai meu conselho às fábricas de cigarro: contra-ataquem, surpreendam a todos criando os cigarros-remédio. De alguma forma, os cientistas deste admirável mundo novo em que vivemos teriam de bolar uma maneira de substituir a nicotina e o alcatrão por substâncias curativas e benéficas à saúde, mantendo, evidentemente, o mesmo gosto e a sensação agradável que temos ao fumar os antigos e saborosos veneninhos.

Cigarros passariam a ser vendidos até nas farmácias. No maço, estaria escrito: "O Ministério da Saúde recomenda o consumo destes cigarros". Os cigarros-remédio teriam várias modalidades: o cigarro antigripal, por exemplo, com doses extras de vitamina C, o cigarro calmante — logo após fumar, garantiria um sono tranqüilo —, o cigarro para cólicas, o cigarro antibiótico, o cigarro antiinflamatório, o cigarro regenerador do pulmão, este um sucesso absoluto de vendas.

Já estou até vendo os comerciais dos novos cigarros-remédio. Corredores da Maratona Olímpica fumam um cigarrinho pros pulmões antes de correr. E quando chegam, exaustos, botando o coração pela boca, rompendo o cordão da vitória, lhes são imediatamente servidos cigarros que previnem infartos, que eles fumam avidamente diante da multidão no estádio.

Para as crianças, o grande progresso seria a invenção do cigarro de proteção bucal. No comercial desse cigarro, veríamos um pai zeloso que adentra o quarto e pergunta ao filho de 6 anos que está deitado na cama:

— Esqueceu de fumar seu cigarrinho antes de dormir?

Ao que o garoto responde:

— Ah, pai, deixa pra amanhã...

Mas o pai zeloso saca logo o maço do bolso e acende um cigarrinho que passa pro filho.

— Não, filhão, você vai fumar, sim. Até porque esse novo cigarro de proteção bucal tem gosto de chocolate!

O meninão se anima:

— De chocolate, pai!?

— Prova só como é gostoso!

É melhor parar por aqui com esse delírio tabagista. Até porque tá na hora de acender um cigarrinho.

         
     
 
 
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