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7 de janeiro de 2004
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REPORTAGEM DE CAPA

O homem de
10 milhões de dólares

Alexandre Accioly centra seus
investimentos em lazer para os cariocas

Cristina Grillo


André Nazareth/Strana
Accioly: lembranças da adolescência viram grande negócio

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A idéia lhe veio de estalo, quando sobrevoava o Pão de Açúcar em seu helicóptero, um moderníssimo Helibrás para seis passageiros, avaliado em 4 milhões de dólares. A intenção do vôo era apenas exibir uma das maravilhas cariocas a um grupo de amigos paulistas, mas imagens do fim da adolescência, quando se espremia nas longas filas para pegar o bondinho rumo ao Morro da Urca, lhe vieram à mente. Lembrou-se do dia em que subiu o morro para a festa de lançamento de Thriller, disco de Michael Jackson. "Foi naquele minuto que resolvi fazer de tudo para reabrir o Noites Cariocas", conta o empresário Alexandre Accioly, 41 anos. A reabertura, na sexta (9), da casa noturna criada por Nelson Motta, pólo de badalação da cidade nos anos 80, é apenas um dos investimentos que o empresário pretende fazer em 2004 na área que é seu novo xodó: o entretenimento.


Noites Cariocas ontem (acima) e hoje (abaixo): mais sofisticação

Além do Noites, Accioly está por trás do festival internacional de hip hop que acontece na sexta (9) e no sábado no Riocentro, com nomes do calibre de Snoop Dogg e Ja Rule (veja programação). Prepara, ainda, um megaevento para crianças que acontecerá em julho no Riocentro e vai abrir pelo menos mais dois restaurantes na cidade: sócio do Gero carioca, ele repete a parceria com a família Fasano na Forneria Rio de Janeiro (versão carioca da sanduicheria paulista Forneria San Paolo), a ser aberta no segundo semestre, em Ipanema, e comprou a parte do chef José Hugo Celidônio no restaurante Gourmet, que fecha em março para reformas e reabre três meses depois. Não é só. No dia 27 de janeiro, ele inaugura os novos estúdios de suas duas emissoras de rádio, Jovem Pan e Paradiso, no terraço do Shopping Rio Sul, com área para pequenos shows ao vivo e um café para refeições rápidas. Há poucas semanas teve mais uma idéia: resolveu que vai procurar terrenos para espalhar campos de minigolfe pela cidade, a exemplo do que costuma ver na International Drive, a rua principal de Orlando, cidade da Flórida onde brilha a DisneyWorld. E, fora do Rio, ele é um dos donos do Recifolia, Carnaval fora de época que acontece na capital de Pernambuco.

Pelas contas de Accioly, para implantar os projetos da área de entretenimento serão gastos mais de 30 milhões de reais. Nem tudo sai de seu bolso, claro. "Sem patrocínio nada se viabiliza. Gosto muito de entretenimento, mas sou empresário e não vou fazer tudo sozinho", diz. Accioly é bom de conversa. Conseguiu, por exemplo, que duas empresas concorrentes da área de telefonia patrocinassem eventos seus realizados quase simultaneamente. O Noites Cariocas, por exemplo, recebeu da Oi parte dos 8 milhões de reais investidos. Em troca, a nova casa noturna se chamará Oi Noites Cariocas. Já o projeto Rio de Verdade, série de shows na Marina da Glória em que o músico Rogê recebe convidados e que virou um dos mais badalados points de azaração do verão carioca, chega a sua terceira edição com o patrocínio da Claro. E com o nome mudado para Claro Rio de Verdade. Para bancar parte dos 4,2 milhões de reais do festival de hip hop, Accioly trouxe a Skol. Agora negocia o patrocínio para o Trip Trix, o tal festival infantil previsto para julho no Riocentro, com custo estimado em 20 milhões de reais. Um apoio importante o empresário já conseguiu: o do prefeito Cesar Maia. "O apoio institucional da prefeitura já está dado. Accioly acertou em cheio quando identificou que o Rio tem uma vocação inigualável para o entretenimento. A cidade vai ganhar muito e espero que ele também, porque pode estar abrindo um ciclo de investimentos em parques temáticos, em eventos e em novos espaços", observa o prefeito.


Bruno Veiga/Strana

"Accioly está empolgadíssimo com a área de entretenimento. Estamos nisso há dois anos e já trouxemos para cá grupos como o Coldplay e o The Calling."

Luis André Calainho, sócio do empresário no Oi Noites Cariocas e nas rádios Jovem Pan e Paradiso

A menina-dos-olhos do empresário, no momento, é o Noites Cariocas. "Não há carioca na minha faixa etária que não tenha tentado subir pela trilha para entrar sem pagar", relembra. Daí a idéia de criar uma versão um pouco diferente da casa noturna. "Não vai ser para teens, o espírito é outro. Um garotão de 18 anos pode até ir, mas a idéia é criar algo para pessoas como eu. Os quarentões não têm lugar para ir nesta cidade. Há os bons restaurantes, mas você sai de lá e vai para onde?" Para capturar esse público, ele aposta no que chama de "serviço premium". A capacidade da casa, que nos áureos tempos chegava a receber 4.000 pessoas por noite, foi reduzida para 1.800. "As filas para pegar o bondinho serão mínimas", garante Accioly. Um serviço de manobristas evitará o aborrecimento de procurar vaga. Os bares serão operados pelo Caroline Café e pelo 00, duas casas de sucesso na cidade. A produção musical será de Luís André Calainho, sócio na empreitada e durante dez anos diretor da Sony, com consultoria de Nelson Motta. A casa abre com show do grupo Cidade Negra e já estão agendadas, para janeiro, apresentações de Jorge Ben Jor, Paralamas do Sucesso, Skank, Ed Motta e Frejat, entre outros.


André Valentim/Strana
"Ele é muito irrequieto, está sempre checando tudo, inventando novidades. Accioly me dá muito trabalho, mas é um amigão: se eu precisar dele às 4 horas da manhã, ele vai estar pronto para me ajudar."
Abel Gomes (ao lado com a mulher, Sheila), cenógrafo do Oi Noites Cariocas, do festival de hip hop e do Trip Trix

No alto do morro, a cenografia, de Abel Gomes, lembra o Sky Bar projetado por Philippe Starck para o hotel Mondrian de Los Angeles. São gigantescos colchões com diâmetro variando de 3 a 5 metros espalhados pela área externa, muitas velas, cobertura transparente e, na área de shows, um teto móvel, que nas noites estreladas será aberto. "Ele é fogo, irrequieto, me dá um trabalho danado. Quer saber de todos os detalhes, dá palpite em tudo", conta Abel, amigo do empresário há vinte anos e responsável pela montagem, em 2002, da famosa festa de seus 40 anos, que levou 1.500 convidados à Ilha Fiscal. "Eu sou exigente e sou vaidoso. Quero tudo perfeito. Minha festa foi a melhor que este país já viu e era tudo boca-livre. Imagine o que farei agora que vou cobrar ingresso", diz Accioly. Os ingressos, por sinal, custarão 45 reais.



"Accioly tem todas as qualidades para ser um grande empreendedor na área de lazer. Eu já tive esse espírito, já animei muita gente a sair de casa. Fico feliz de ter mais alguém assim no Rio."

Ricardo Amaral, sócio de Accioly no Gourmet e nas incorporações da Agenco
Dilmar Cavalher/Strana

Foi necessário muito empenho para convencer Maria Ercília Leite de Castro, diretora-geral da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, a reabrir a casa noturna. "Era preciso cuidado, porque essa área é um patrimônio da cidade. O projeto dele me pareceu consistente", diz Ercília. O contrato inicial é de um ano, renovável por mais cinco. No primeiro momento, o Oi Noites Cariocas funciona apenas em janeiro, para reabrir em maio. "Vamos avaliar o que funcionou e se será preciso mudar alguma coisa", explica a diretora do Pão de Açúcar. Os planos, no entanto, podem ser mudados. "Já estamos pensando em reabrir em março, porque tem muito artista querendo se apresentar lá", conta o sócio Calainho.


Dilmar Cavalher/Strana

"No início eu estava bastante cético sobre a reabertura do Noites, mas, quando conheci o Accioly, gostei dele. Vou trazer novidades para a casa. Se fosse para cuidar do dia-a-dia, eu não topava."

Nelson Motta, consultor do Oi Noites Cariocas

Ao mesmo tempo, Accioly dedica-se ao Trip Trix, festival com cinco dias de duração. O evento espalhará por uma área de 50.000 metros quadrados, no Riocentro, uma cidade infantil, brinquedos — do tradicional e singelo carrossel aos mais avançados simuladores —, área para shows, apresentações de teatro e palestras, e uma cidade do desenho animado, com 2.000 metros quadrados. Ali, Maurício de Sousa e sua equipe mostrarão às crianças como se faz uma história em quadrinhos. O empresário arrendou o Riocentro no mês de julho pelos próximos cinco anos — menos em 2007, ano do Pan-Americano — e vai gastar 20 milhões de reais na brincadeira. "O Trip Trix é uma maluquice que não tem fim, cada dia ele inventa mais uma história. Eu juntei um pouco de tudo o que já vi na Disney e mais um pouco dos musicais da Broadway e bolei esse projeto para o Alexandre", diz Abel Gomes, que cuida do Trip Trix ao lado da mulher, Sheila, e do filho, Flávio.

A fábrica de projetos de Accioly não pára. Há quinze dias, voltou de uma temporada em Nova York com Ricardo Amaral. Lá, visitaram restaurantes para decidir o que fazer no Gourmet. Ele sonha ainda trazer para o Rio os badalados restaurantes paulistas Kosushi, de comida japonesa, e Rubayat, uma casa de carnes. "Eles ainda não sabem do meu interesse, mas qualquer dia o telefone deles toca e do outro lado vai estar o Accioly com uma proposta", diz. Ricardo Amaral é um dos 42 sócios que o empresário tem em suas dezesseis empresas — há outros nomes de peso, como Luciano Huck, João Paulo Diniz e Sergio Goldberg, dono da construtora Agenco. Com Goldberg, Accioly virou incorporador imobiliário. E, como tudo na vida de Accioly, os planos não são modestos. É parceiro da Agenco na construção da futura Vila do Pan-Americano, uma área de 420.000 metros quadrados na Barra da Tijuca onde serão construídos 25 prédios, com um total de 2.000 apartamentos (de quarto e sala a sala e quatro quartos). De início, os imóveis hospedarão os atletas. Depois do Pan, serão postos à venda.


O boneco Trip Trix (à esq.) e um dos cenários de Abel Gomes: custo de 20 milhões

Rei da noite carioca desde os anos 70, Ricardo Amaral vê em Accioly alguém com força para assumir o posto. "Ele tem disposição para ser um animateur, alguém que incentiva as pessoas a sair de casa. A vida toda eu tive essa capacidade, mas já cumpri meu ciclo. Agora eu vou ser o animateur do animateur", brinca Amaral. Nem é preciso fazer força para animar Accioly. "Eu podia ficar parado, curtindo a vida, mas gosto de inventar histórias. Agora tenho a melhor vida do mundo: moro no Rio, passo os fins de semana em Angra e ainda arrumei um trabalho para conciliar lazer e negócios."


André Valentim/Strana
Arthur Cavaliere/Strana
Gero carioca: o primeiro restaurante de Accioly Novidade no Gourmet: bar sofisticado no 2º andar

         
     
 
 
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