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CRÔNICA
Sorria,
você está em dezembro! Tutty
Vasques Nunca,
jamais, em tempo algum a safra de lugar-comum desta época do ano dará
cria a outra produção tão sucinta: "Quando menos se espera,
chega o Natal" é pérola da escassez de notícias que Zuenir
Ventura contou ter lido um dia acho que 68 nem havia começado
no alto da primeira página do principal jornal de Friburgo. Como não
há testemunhas conhecidas, amigos desconfiam que o velho mestre possa ter
inventado toda essa história, inclusive a manchete, para atender à
encomenda de um editor às voltas com o fechamento de um especial de fim
de ano. Verdade ou mentira, não importa, o tal título virou blague
de redação, case bem-humorado da falta de assunto típica
da temporada de festas que se inicia. O estilo nonsense creditado ao coleguinha
da imprensa serrana não deixa de ser boa alternativa ao pior dos clichês
de ocasião: "Este ano voou, né não?".
Não que falte
o que dizer. Difícil é fugir dos chavões que ano após
ano repetimos sempre que, como agora, os táxis passam a rodar 24 horas
em regime de bandeira 2. Pronto, já se pode desejar tudo de bom na esquina.
"Pô, cara, muita paz no coração, saúde, trabalho..."
Este dezembro vai ser exatamente igual àquele que passou. Fecho de mais
um ano que voou voou mesmo , como, aliás, voam todos, em particular
estes últimos em que não aconteceu nada do que, imaginava-se, aconteceria.
Como diz o outro, "nunca na história deste país" o tempo voou tão
rápido, a despeito dos atrasos nos aeroportos. Mude de assunto. Rápido!
Convém
manter o papo mais trivial possível de pesada já basta a
comida no cardápio dos reencontros de dezembro. Viu o preço
do bacalhau neste ano? Os meninos passaram de ano? Vão mudar de escola?
Já fez suas compras de Natal? Neste ano decidi não dar presente
a ninguém, rapaz! E a festa na firma, hein!? Vai viajar no réveillon?
Será que vai chover? Que calor, né não? Se alguém
na mesa de amigos ocultos ao lado erra o alvo e o acerta um caroço de azeitona
no quengo, sorria, por favor, você está em dezembro! A época
lhe cobra esse espírito meio bobalhão, que, em tempos de intolerância
máxima, fica até engraçado. Relaxe, vai! Acene de volta para
dizer que tudo bem, finja que achou engraçado servir de alvo involuntário
na guerra de couvert do restaurante. Não
acho ruim esse tipo de tolice natalina quando a observo nos outros. Não
gosto de participar e, como já conheço o script do mês, procuro
sempre um papel secundário para exercê-lo com discrição
na reta final da virada. Evito, por exemplo, cenários de grandes shoppings
para não me aborrecer com o tumulto de praxe lá dentro. Neste ano,
aliás, já basta a chateação de olhar por fora o velho
Shopping da Gávea, que a rigor nem shopping era, agora maquiado de megaempreendimento
comercial tipo Barra World Planet Tower, sei lá! Parece maquete de Miami!
Aquele G Á V E A monumental vazado em luz fria sobre o calçadão
da Marquês de São Vicente, sei não, viu! Preciso de pelo menos
um mês para dizer se gostei. Ou não! Mas
quem haverá de prestar atenção em detalhes cenotécnicos
menores se já a partir deste sábado se inaugura a peregrinação
à Árvore da Lagoa que há onze anos redesenha a paisagem e
o calendário de festas da cidade. O espetáculo de luzes é
belíssimo, a magnitude do troço impressiona e a natureza, modesta,
se faz de escada numa boa. Com a chegada de gente dos quatro cantos do planeta
para ver a coisa de perto, os engarrafamentos foram definitivamente incorporados
ao presépio urbano que todas as noites, até o réveillon,
ali se monta. Dificilmente os Reis Magos conseguiriam chegar, mesmo que de limusines
e batedores, para dar uma espiada no curralzinho montado sobre o espelho-d'água
da Lagoa. O
Natal na Lagoa, com tudo tão imensamente belo e irritante reunido à
sua volta, talvez seja a mais completa tradução de um certo sentimento
predominante neste finzinho de 2006. A gente já não sabe mais exatamente
se ama ou se odeia esses dias de festas que virão por aí. Tanto
vinho, tanta comida, quanto riso, oh, quanta alegria, e tantas lembranças,
saudades, cartas e fotografias, gente que foi embora... Ou não!
Há
de ter gente chegando, sempre tem. Aproveite para praticar em dezembro o que só
nesse mês nos é permitido: o direito de gostar dos outros explicitamente,
de grátis, a ponto de desejar sinceramente o melhor dos mundos a
gente que você às vezes mal conhece. Abrace muito! E não esqueça
de levar as crianças para dar uma volta de carro de madrugada na Lagoa.
A árvore fica linda no alvorecer. No
mais, mantenha-se tranqüilo: vai passar! Janeiro é uma delícia!
E-mails para o cronista:
tutty@nominimo.com.br |