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6 de dezembro de 2006

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CRÔNICA

Sorria, você está em dezembro!

Tutty Vasques

Nunca, jamais, em tempo algum a safra de lugar-comum desta época do ano dará cria a outra produção tão sucinta: "Quando menos se espera, chega o Natal" é pérola da escassez de notícias que Zuenir Ventura contou ter lido um dia – acho que 68 nem havia começado – no alto da primeira página do principal jornal de Friburgo. Como não há testemunhas conhecidas, amigos desconfiam que o velho mestre possa ter inventado toda essa história, inclusive a manchete, para atender à encomenda de um editor às voltas com o fechamento de um especial de fim de ano. Verdade ou mentira, não importa, o tal título virou blague de redação, case bem-humorado da falta de assunto típica da temporada de festas que se inicia. O estilo nonsense creditado ao coleguinha da imprensa serrana não deixa de ser boa alternativa ao pior dos clichês de ocasião: "Este ano voou, né não?".

Não que falte o que dizer. Difícil é fugir dos chavões que ano após ano repetimos sempre que, como agora, os táxis passam a rodar 24 horas em regime de bandeira 2. Pronto, já se pode desejar tudo de bom na esquina. "Pô, cara, muita paz no coração, saúde, trabalho..." Este dezembro vai ser exatamente igual àquele que passou. Fecho de mais um ano que voou – voou mesmo –, como, aliás, voam todos, em particular estes últimos em que não aconteceu nada do que, imaginava-se, aconteceria. Como diz o outro, "nunca na história deste país" o tempo voou tão rápido, a despeito dos atrasos nos aeroportos. Mude de assunto. Rápido!

Convém manter o papo mais trivial possível – de pesada já basta a comida – no cardápio dos reencontros de dezembro. Viu o preço do bacalhau neste ano? Os meninos passaram de ano? Vão mudar de escola? Já fez suas compras de Natal? Neste ano decidi não dar presente a ninguém, rapaz! E a festa na firma, hein!? Vai viajar no réveillon? Será que vai chover? Que calor, né não? Se alguém na mesa de amigos ocultos ao lado erra o alvo e o acerta um caroço de azeitona no quengo, sorria, por favor, você está em dezembro! A época lhe cobra esse espírito meio bobalhão, que, em tempos de intolerância máxima, fica até engraçado. Relaxe, vai! Acene de volta para dizer que tudo bem, finja que achou engraçado servir de alvo involuntário na guerra de couvert do restaurante.

Não acho ruim esse tipo de tolice natalina quando a observo nos outros. Não gosto de participar e, como já conheço o script do mês, procuro sempre um papel secundário para exercê-lo com discrição na reta final da virada. Evito, por exemplo, cenários de grandes shoppings para não me aborrecer com o tumulto de praxe lá dentro. Neste ano, aliás, já basta a chateação de olhar por fora o velho Shopping da Gávea, que a rigor nem shopping era, agora maquiado de megaempreendimento comercial tipo Barra World Planet Tower, sei lá! Parece maquete de Miami! Aquele G Á V E A monumental vazado em luz fria sobre o calçadão da Marquês de São Vicente, sei não, viu! Preciso de pelo menos um mês para dizer se gostei. Ou não!

Mas quem haverá de prestar atenção em detalhes cenotécnicos menores se já a partir deste sábado se inaugura a peregrinação à Árvore da Lagoa que há onze anos redesenha a paisagem e o calendário de festas da cidade. O espetáculo de luzes é belíssimo, a magnitude do troço impressiona e a natureza, modesta, se faz de escada numa boa. Com a chegada de gente dos quatro cantos do planeta para ver a coisa de perto, os engarrafamentos foram definitivamente incorporados ao presépio urbano que todas as noites, até o réveillon, ali se monta. Dificilmente os Reis Magos conseguiriam chegar, mesmo que de limusines e batedores, para dar uma espiada no curralzinho montado sobre o espelho-d'água da Lagoa.

O Natal na Lagoa, com tudo tão imensamente belo e irritante reunido à sua volta, talvez seja a mais completa tradução de um certo sentimento predominante neste finzinho de 2006. A gente já não sabe mais exatamente se ama ou se odeia esses dias de festas que virão por aí. Tanto vinho, tanta comida, quanto riso, oh, quanta alegria, e tantas lembranças, saudades, cartas e fotografias, gente que foi embora... Ou não!

Há de ter gente chegando, sempre tem. Aproveite para praticar em dezembro o que só nesse mês nos é permitido: o direito de gostar dos outros explicitamente, de grátis, a ponto de desejar sinceramente o melhor dos mundos a gente que você às vezes mal conhece. Abrace muito! E não esqueça de levar as crianças para dar uma volta de carro de madrugada na Lagoa. A árvore fica linda no alvorecer.

No mais, mantenha-se tranqüilo: vai passar! Janeiro é uma delícia!

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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