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6 de dezembro de 2006

REPORTAGEM DE CAPA

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REPORTAGEM DE CAPA

Novidades nos paraísos
de consumo

A inauguração do Shopping Leblon
incentiva mudanças em outros grandes centros comerciais da cidade

Cristina Grillo e Carlso Henrique Braz

 
O Shopping Leblon (ao lado, no destaque) terá 190 lojas em quatro andares e um prédio de oito andares para escritórios. Construído sobre uma rocha, traz para o Rio lojas como Armani Exchange, Ferragamo, Miéle, e restaurantes como Payard e Ráscal. Na Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional ao lado do shopping, foi investido 1,1 milhão de reais em obras de recuperação de fachadas e em cursos profissionalizantes para seus moradores.

Tarde de sexta-feira no Rio Sul. O empresário Alberto Chreem, um dos sócios da Casa Alberto Gentleman, resolve checar a informação que recebeu. Entra em uma sala e encontra cinco vendedores de uma de suas lojas negociando a transferência para a loja da grife Ferragamo, a primeira na cidade, a ser inaugurada no Shopping Leblon, que abre na quarta-feira (6). "Acho falta de ética. Eles convidaram todos os vendedores da loja do Fashion Mall, de uma vez só, às vésperas do Natal. Perguntei se não tinham emprego para mim também", reclama Alberto, que ameaça entrar na Justiça contra o que alega ser concorrência desleal. "Não tenho conhecimento disso. Recebi alguns currículos, mas não entrevistei ninguém da Casa Alberto em nenhuma das duas vezes que fui ao Rio para fazer seleção", contesta Ziza Menezes, supervisora das lojas Ferragamo. "É o desespero deles para abrir a loja", rebate Alberto. A confusão mostra como andam acirrados os ânimos no comércio carioca, às vésperas da abertura do novo shopping. O início das obras no alto da Pedra do Baiano, enorme rocha encravada entre as avenidas Afrânio de Melo Franco e Borges de Medeiros, em abril de 2003, mexeu com o mercado de shopping centers carioca. Entre construção, obras de expansão e reformas, estima-se que até o fim de 2007 os principais shoppings da cidade gastarão quase 650 milhões de reais – o equivalente ao valor liberado pelo BNDES neste ano para a recuperação da indústria naval.

 
André Nazareth/Strana
Construído há 25 anos, o Rio Sul faz obras para se adaptar ao novo conceito de shopping: terá fachada envidraçada e aberturas para a entrada de luz natural. Investe também em lazer e entretenimento, com novos cinemas e academia de ginástica ampliada.

Tanta agitação tem motivos bem sólidos. Em 2006, os 315 shopping centers do país devem faturar 44 bilhões de reais, gastos por um batalhão de 203 milhões de consumidores que circulam a cada mês por seus corredores em busca de produtos, opções de lazer e serviços. De acordo com dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), os 31 shoppings cariocas ficam com cerca de 10% dessa bolada – respeitáveis 4 bilhões de reais. A abertura do Shopping Leblon, um investimento de 300 milhões de reais espalhado em 110 000 metros quadrados de área construída, com 190 lojas, quatro modernos cinemas, restaurantes, um teatro e um centro cultural (veja quadro) que devem receber, por mês, em torno de 600 000 consumidores, acirra ainda mais a concorrência. Por isso, todos estão se mexendo.

 
O NorteShopping vai criar uma grande área a céu aberto, cercada por restaurantes (abaixo). Ao lado do shopping, será construído um condomínio com oito prédios (acima) e área de lazer semelhante à de grandes condomínios da Barra da Tijuca.

O Rio Sul, um dos mais antigos da cidade, vai gastar 66 milhões de reais até o fim de 2007 para mudar seu perfil. No início dos anos 80, quando ele foi construído, shoppings eram caixas fechadas, sem entrada de luz natural e com poucos lugares onde descansar. Bancos nas áreas comuns eram artigo raro. Assim, o pobre consumidor rodaria sem parar pelos corredores, sem ter noção da passagem do tempo lá fora, comprando sem parar. Vinte e cinco anos depois, o conceito mudou completamente. Shoppings novos, como o Leblon, têm grandes áreas envidraçadas para a entrada de luz natural e mobiliário confortável, montado como pequenas salas de estar – ou lounges, como todos preferem chamar –, para que o consumidor descanse. "Vamos abrir duas grandes clarabóias, no alto das escadas rolantes, e uma área livre no vão das escadas fixas, para que de um andar se vejam os outros. Assim temos mais luz natural e damos uma arejada no ambiente", explica Sergio Pessoa, superintendente do Rio Sul. A fachada, hoje um paredão de cimento, sem janelas, será coberta por uma espécie de bolha de vidro e, no último piso, será criada uma grande área de eventos. Mas a maior transformação está programada para o segundo semestre de 2007. O posto de gasolina ao lado foi comprado e dará lugar a mais 3.000 metros quadrados de shopping. Além de novas lojas, a expansão abrigará a academia A!Body Tech, que hoje funciona no 4º piso do shopping. No novo espaço, a academia terá um 2º andar ao ar livre, com piscina e área para outras atividades. Onde hoje funciona a academia surgirão seis novas salas de cinema de última geração, semelhantes às do Shopping Leblon: o complexo Kinoplex, com salas em formato stadium e sistema de som digital THX, desenvolvido pelo cineasta George Lucas.

 

O BarraShopping se prepara para mudar sua fachada em 2007. Neste ano, investiu em obras internas, com a troca do sistema de ar-condicionado e dos telhados, que ganharam abertura para a entrada de luz natural.

O investimento em atividades de lazer e entretenimento é uma tendência forte nos shoppings. De acordo com a Abrasce, 84% deles têm salas de cinema – em média, quatro por shopping – e 21% já têm academias de ginástica. O NorteShopping, em Del Castilho, investe 110 milhões de reais para ampliar sua área de lojas de 65 000 metros quadrados para cerca de 100 000 metros quadrados – pouco mais que o BarraShopping, até agora o maior do Rio. "Só a nossa expansão, de 35 000 metros quadrados, é maior do que todo o Shopping Tijuca", comemora Hugo Matheson Drumond, diretor-superintendente da Egec, administradora do NorteShopping. Terá pista de boliche, rinque de patinação, novos restaurantes e bares, como Outback e Devassa, Kinoplex com dez salas de cinema e uma academia A!Body Tech, a primeira da Zona Norte e a maior da rede, com 7.000 metros quadrados. "Estamos investindo 20 milhões de reais nessa academia, mais do que investimos na da Barra (16 milhões de reais). Teremos esteiras com TV de plasma e tudo o mais que há nas academias da Zona Sul", diz o empresário Alexandre Accioly, um dos sócios da rede.

 

O Shopping Tijuca abre em março de 2007 novo piso no subsolo, com lojas e academia de ginástica. Suas três salas de cinema serão substituídas por seis modernas salas Kinoplex em formato stadium e com capacidade para 1 500 pessoas.

A expansão do shopping funciona como uma espécie de ímã para o desenvolvimento de seu entorno. A construtora Klabin Segall vai lançar um condomínio com oito prédios de apartamentos de dois e três quartos e estrutura semelhante à dos grandes condomínios da Barra: piscinas, pista de caminhada, quadras de futebol e futevôlei, playground e até cinema, boate e spa, espalhados numa área de 35 000 metros quadrados. "Quem comprar um apartamento aqui não vai precisar sair de casa para se divertir", diz Sergio Segall, diretor da construtora.

 
André Nazareth/Strana

Quase em frente ao Shopping Leblon, o Rio Design trocou as lojas de decoração por endereços de moda e restaurantes. Investiu em serviços diferenciados, como consultoria de estilo para os clientes. É o único que permite a entrada de animais.

O Shopping Tijuca também cresceu – mas para baixo. Investiu 50 milhões de reais em obras que incluem a construção de um novo pavimento no subsolo, onde haverá lojas como Zara e a onipresente A!Body Tech. No 6º piso, as atuais três salas de cinema, com 550 lugares, serão substituídas pelo também onipresente Kinoplex – serão seis salas, para 1 500 pessoas. E as obras atingem também a área externa: em parceria com a prefeitura, o shopping está trocando postes de iluminação pública da área, placas de sinalização, revestimento das calçadas e construindo uma ponte para pedestres sobre o Rio Maracanã, em frente a sua entrada. "Deixaremos de ser um shopping de vizinhança para virar um shopping regional", diz Luiz Paulo de Aquino Sá, gerente de operações da Awal, administradora do empreendimento. Cinemas também são a aposta do Shopping Center da Gávea, que está gastando 20 milhões de reais em sua primeira grande reforma e acaba de inaugurar uma nova fachada. Em março de 2007 serão abertas cinco salas Estação Vivo, primeira parceria do Grupo Estação sem o Unibanco.

Se há agitação nos shoppings de toda a cidade, no trecho do Leblon onde já funciona o Rio Design e onde será aberto o Shopping Leblon há uma ebulição. O apart-hotel que funciona na esquina das avenidas Afrânio de Melo Franco e Ataulfo de Paiva está gradualmente sendo transformado em prédio de escritórios; na outra esquina, onde havia um posto de gasolina, será construído outro prédio de escritórios que terá, no térreo, uma megaloja da rede Brasif, aquela que durante anos ocupou os free shops dos aeroportos brasileiros. O Rio Design Leblon, que fica quase em frente ao novo shopping, já está pronto para enfrentar a concorrência. Há dois anos apostou numa bem-sucedida mudança de perfil: deixou de ser um shopping de decoração e se transformou num charmoso conjunto de lojas com ênfase em vestuário. "Estamos fortalecendo essas características. Não posso querer ser mega, somos um shopping de bairro que aposta em alguns diferenciais", explica Mariana de Carvalho, diretora de marketing do grupo Ancar, administrador do shopping. Entre os diferenciais está, por exemplo, o fato de permitir a entrada de animais. É rotineiro ver cachorros passeando com seus donos pelos corredores. E, na semana de abertura do concorrente mais próximo, o Rio Design lança um serviço de entrega de compras em casa, o bike express, e um serviço de consultoria de imagem. "O cliente preenche um questionário e, a partir da resposta, fazemos sugestões sobre como ele deve se vestir", explica Mariana. A disputa pelo consumidor está mesmo animada nos shoppings cariocas.

 

A força dos templos de consumo cariocas

Número de shoppings: 31*

Total de área construída: 1 674 135 m2

Freqüentadores (por mês): 19,5 milhões**

Faturamento estimado (em 2006): 4 bilhões de reais

Empregos gerados: 44 000

Salas de cinema: 120

Gasto médio em compras por pessoa: 71 reais

Gasto médio em alimentação por pessoa: 12 reais

O maior: o Complexo BarrasShopping, que inclui o New York City Center, com 90 000 m2 de área bruta locável (ABL, a área efetivamente ocupada por lojas). Quando suas obras de expansão estiverem prontas, o NorteShopping terá 95 000 m2 de ABL

O menor: o Rio Plaza Shopping, com 6 953 m2 de ABL

* Com a abertura do Shopping Leblon, na quarta (6)

** Conta-se cada vez que a pessoa entra no shopping. Assim, um freqüentador habitual é incluído no cálculo várias vezes



Pesos-pesados da moda

 
Renato Ferreira/Divulgação

Miéle: primeira loja no Rio

Armani Exchange, Miéle by Carlos Miéle, Forum Tufi Duek, Ferragamo... A lista de novidades para os consumidores cariocas, entre as 190 lojas do Shopping Leblon, é grande e de peso. O estilista Carlos Miéle, sucesso em Nova York com a grife que leva seu nome, abre no Rio a primeira Miéle by Carlos Miéle. "É minha segunda linha, como Armani tem a Emporio e Dolce&Gabbana tem a D&G", diz Miéle. Em estilo, a segunda linha difere pouco da linha principal. A diferença está nos preços. Há vestidos luxuosos, mas menos elaborados. "Por isso é mais barato. Um longo Carlos Miéle (a primeira linha) custa em torno de 3 000 dólares. Os da Miéle custarão cerca de 1 000 dólares", explica. A Armani Exchange, linha mais jovem do italiano Giorgio Armani, é outra grife que faz sua estréia na cidade, assim como a tradicional marca italiana Ferragamo, que traz suas linhas de vestuário e acessórios, femininos e masculinos. Acessórios de luxo não faltam no shopping. A empresária Sílvia Chreen gastou 2 milhões de reais para montar a Avec, multimarcas que vende peças de Moschino, Stella McCartney, Corto Moltedo e Marc Jacobs. E Tufi Duek abre a Forum Tufi Duek, a primeira no país, onde o estilista venderá criações mais luxuosas. Mas nem só de moda viverá o novo shopping. A Livraria da Travessa abre lá sua maior loja, com 1 500 metros quadrados, estoque de 150 000 volumes e um charmoso restaurante – tudo nos moldes do badalado Travessão de Ipanema, mas com mais espaço. E, na praça de alimentação, com vista para a Lagoa, serão abertas filiais dos restaurantes paulistas Ráscal e Payard. Alimento para o corpo e o espírito é o que não vai faltar.

 
André Nazareth/Strana

Avec: grifes como Stella McCartney

Armani Exchange: linha jovem

 

     
   

 

 
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