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CRÔNICA
Idade mágica
Manoel Carlos Ah,
não pensem vocês que – para uma pessoa – fazer 15 anos é a
mesma coisa que fazer 14 ou 16. Não é. Quinze anos é mais.
É o verdadeiro começo da escalada que nos levará à
idade adulta, quando deixamos de lado os cacoetes infantis. No menino é
o começo da voz grossa. Na menina é a idade em que os adultos começam
a levá-la mais a sério. Eu não saberia explicar por que isso
acontece. No meu tempo, a importância das idades era medida pela proibição
ou não de entrar no cinema: existiam os filmes livres, os indicados para
maiores de 10 anos, depois para maiores de 14 e finalmente só para quem
tivesse no mínimo 18, que era a meta dourada de todos os jovens. Eu e meus
amigos sonhávamos com os 18 principalmente para ter entrada liberada em
todos os filmes. Quer dizer, não exclusivamente por causa disso, já
que 18 era também a idade mágica que nos permitia freqüentar
certas ruas, certas casas e certas mulheres. Ainda no meu tempo, os 15 anos permitiam
dar a primeira espiada no universo dos Homens, com H maiúsculo, como se
dizia, já que era a partir dessa idade que deixávamos a calça
curta, que descia apenas até os joelhos, e passávamos a usar a comprida.
Calça-curta, assim mesmo, com traço de união, era quase uma
afronta. Tanto que no Aurélio aparecem duas definições
para essa expressão: a de marido dominado pela mulher e a de homem frouxo
e covarde. Por aí se vê como era e ainda é importante chegar
aos 15. E ultrapassá-los. No vocabulário romântico, os 15
anos da mulher marcavam a fase menina-moça. Machado de Assis, Castro Alves
e Casimiro de Abreu, por exemplo, fizeram poemas especialmente dedicados a essa
quadra da vida. Aqui mesmo já citei os versos de Machado que traduzem bem
essa idade no sexo feminino:
Leo
Martins  |
"Está
naquela idade, inquieta e duvidosa,
que não é dia claro e é já o alvorecer.
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
um pouco de menina e um pouco de mulher".
Ah, quantas meninas de 15 anos eu amei sem me declarar. Era uma época em
que encontrávamos os motivos mais incríveis para nos apaixonarmos.
Lembro-me de que namorei uma só porque ela se chamava Nancy. Verdade. Estávamos
numa festa de garotada e ouvi quando alguém a chamou pelo nome. Pronto.
Foi o suficiente para eu me aproximar e forçar um namoro que não
durou mais do que três meses, se tanto. Nancy, de Zequinha de Abreu,
era uma canção interpretada por Francisco Alves, o Rei da Voz, e
que começava com os versos: "Ouça
esta canção, que eu
mesmo fiz, pensando em ti.
É uma veneração,
Nancy". Era uma febre, tocando o dia
inteiro no rádio. E nós, garotos, víamos como um troféu
namorar uma menina que tivesse esse nome. Tempos de inocência e de devaneios,
como eram chamados os sonhos. Quinze anos era tudo e mais alguma coisa.
E foi por esse conjunto de atrativos e contradições que dei 15 anos
à personagem Giselle, de Páginas da Vida.
Escrevi estas linhas sobre os 15 anos de uma pessoa, menino ou menina, pensando
nos 15 anos desta Vejinha, que nos visita, todos os domingos, nesta abençoada
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Quando ela completar 30 vou escrever, com toda a certeza, sobre as mulheres de
30 anos, inspiradoras de tantos artistas. Parabéns à revista e a
seus leitores. E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br
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