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PERFIL
O Paganini da Lagoa
Comparado ao lendário
virtuose italiano,
o violonista gaúcho Yamandu Costa,
radicado no Rio, vive grande fase
Pedro Tinoco
Ricardo Fasanello/Strana
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| Yamandu, 27 anos: "Estou começando
a entrar nesse mundo da música
erudita" |
Niccolò Paganini (1782-1840) foi um dos mais importantes
violinistas do século XIX. Era também um boêmio
inveterado, de aparência um tanto assustadora. Essas características,
aliadas a um talento diabólico, alimentaram a lenda de que
o músico italiano fizera um pacto com o capeta para tornar-se
um virtuose. Yamandu Costa, 27 anos, fenomenal instrumentista gaúcho
que também tem bons serviços prestados à boemia,
foi chamado de "o Paganini do violão" por Kurt Masur, um
dos maiores maestros da cena internacional. O célebre regente
alemão e o prodígio das sete cordas já dividiram
aplausos em concertos com a Orquestra Nacional da França,
em Paris. Antes de nova apresentação com ele e a Orquestra
Sinfônica Brasileira, marcada para este sábado (2)
na Praia de Copacabana, Yamandu continuava tentando entender o elogio.
"Paganini era um sujeito muito feio, vai ver foi por isso", despista.
Modéstia.
O encontro começou a se
desenhar no ano 2000. Em visita ao Rio, Tomoko Masur, mulher do
maestro, foi ao Bar Semente, na Lapa. "Ela me viu lá dando
uma daquelas canjas doidas", lembra Yamandu, que começava
a se destacar na nova geração do choro. No ano seguinte,
Kurt Masur esteve em São Paulo para reger a prestigiada sinfônica
do estado, a Osesp, na qual seu discípulo Roberto Minczuk
atuava como maestro assistente. "Minczuk me chamou para tocar na
festa de aniversário da Tomoko", conta o violonista. Masur
gravou em vídeo a performance e não demorou a entrar
em contato com Yamandu, programando um concerto para 2007 na França.
"Viu como é esse troço erudito?", diz Yamandu. "Tinha
uma brecha em 2007 e ele me encaixou. Eu não sabia nem se
ia estar vivo." A comparação com Paganini é
um dos muitos afagos que Masur dirige, com entusiasmo, ao músico
brasileiro. "Encontrá-lo foi espantoso", afirmou o maestro
a Veja Rio. "Ele desenvolveu um enorme talento sem ter facilidades
para isso. Foi o que o tornou forte, soando tão experiente,
apesar de jovem."
Nascido em Passo Fundo, Yamandu
debutou no palco aos 4 anos, cantando no grupo Os Fronteiriços,
do pai, Algacir Costa, dedicado à música dos pampas.
Aos 7, o violão tomou conta da vida do garoto. Sua fama de
prodígio logo se espalhou. Sete anos atrás, mudou-se
para o Rio mora atualmente num apartamento de dois quartos
na Lagoa e estreou numa roda de choro vestido à gaúcha:
de chapéu, lenço vermelho, poncho e bombachas. A perplexidade
dos presentes só aumentou quando ele passou a tocar. Na roda,
conheceu José Paulo Becker, outro jovem talento do violão,
com quem viria a dividir apartamento. "A chegada do Yamandu foi
como um furacão", descreve Becker. "Ele mudou a maneira de
tocar de todo mundo. E também nos divertimos um bocado na
noite da Lapa."
Em 2001, a coisa ficou séria.
Yamandu ganhou um prêmio e, com ele, o direito de gravar um
disco. Para produzi-lo, chamou o violonista Maurício Carrilho,
uma das primeiras pessoas que conheceu no Rio. "Deixei claro que
não dava para tocar de boteco em boteco e gravar um disco
ao mesmo tempo", relata Carrilho. "O tempo que o Yamandu leva entre
pensar e tocar o que pensou é o mais curto que já
vi. Ele toca com a medula", define. Carrilho é o compositor
de Suíte para Violão de Sete Cordas e Orquestra,
peça que Yamandu executou como solista no consagrador concerto
em Paris, sob a regência de Masur, no último dia 23
de março. "A platéia ficou emocionada", derrama-se
o maestro. "Ele é um dos grandes talentos do violão
no mundo." Uma semana mais tarde, no mesmo palco, o concerto foi
bisado em evento da Anistia Internacional. Depois do recital, num
coquetel repleto de figurões, o virtuose deu lugar ao garoto
gozador. Apresentado ao estilista Pierre Cardin, não perdeu
a oportunidade de elogiar as calças da grife.
Cheio de energia, Yamandu é
capaz de emendar, como fez em abril, um fim de semana com a Orquestra
Sinfônica Brasileira, no Teatro Municipal, com uma noitada
de "canjas doidas" na segunda-feira seguinte, no Bar Semente, cenário
da mudança de sua carreira. Mas os compromissos se avolumam.
Desde o começo do ano, já tocou no Canadá,
na Inglaterra, na França e na Austrália. Iniciou a
semana passada no Uruguai, passou por Londrina e, após o
concerto na Praia de Copacabana, segue para Belo Horizonte, Recife,
Florianópolis e Porto Alegre. Acabou de lançar o sétimo
CD, Yamandu+Dominguinhos, com o sanfoneiro pernambucano,
e ainda encontra tempo para compor. "Fiz Bachbaridade, que
mostrei no Municipal, e uma suíte para violões. É
uma peça ingênua, estou começando a entrar nesse
mundo da música erudita." Masur agradece.
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"Seu
concerto na França foi um triunfo. A platéia
ficou emocionada. Ele é um dos grandes talentos
do violão no mundo."
Kurt Masur, maestro
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