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6 de junho de 2007

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O Paganini da Lagoa

Comparado ao lendário virtuose italiano,
o violonista gaúcho Yamandu Costa,
radicado no Rio, vive grande fase

Pedro Tinoco

Ricardo Fasanello/Strana
Yamandu, 27 anos: "Estou começando a entrar nesse mundo da música erudita"


Niccolò Paganini (1782-1840) foi um dos mais importantes violinistas do século XIX. Era também um boêmio inveterado, de aparência um tanto assustadora. Essas características, aliadas a um talento diabólico, alimentaram a lenda de que o músico italiano fizera um pacto com o capeta para tornar-se um virtuose. Yamandu Costa, 27 anos, fenomenal instrumentista gaúcho que também tem bons serviços prestados à boemia, foi chamado de "o Paganini do violão" por Kurt Masur, um dos maiores maestros da cena internacional. O célebre regente alemão e o prodígio das sete cordas já dividiram aplausos em concertos com a Orquestra Nacional da França, em Paris. Antes de nova apresentação com ele e a Orquestra Sinfônica Brasileira, marcada para este sábado (2) na Praia de Copacabana, Yamandu continuava tentando entender o elogio. "Paganini era um sujeito muito feio, vai ver foi por isso", despista. Modéstia.

O encontro começou a se desenhar no ano 2000. Em visita ao Rio, Tomoko Masur, mulher do maestro, foi ao Bar Semente, na Lapa. "Ela me viu lá dando uma daquelas canjas doidas", lembra Yamandu, que começava a se destacar na nova geração do choro. No ano seguinte, Kurt Masur esteve em São Paulo para reger a prestigiada sinfônica do estado, a Osesp, na qual seu discípulo Roberto Minczuk atuava como maestro assistente. "Minczuk me chamou para tocar na festa de aniversário da Tomoko", conta o violonista. Masur gravou em vídeo a performance e não demorou a entrar em contato com Yamandu, programando um concerto para 2007 na França. "Viu como é esse troço erudito?", diz Yamandu. "Tinha uma brecha em 2007 e ele me encaixou. Eu não sabia nem se ia estar vivo." A comparação com Paganini é um dos muitos afagos que Masur dirige, com entusiasmo, ao músico brasileiro. "Encontrá-lo foi espantoso", afirmou o maestro a Veja Rio. "Ele desenvolveu um enorme talento sem ter facilidades para isso. Foi o que o tornou forte, soando tão experiente, apesar de jovem."

Nascido em Passo Fundo, Yamandu debutou no palco aos 4 anos, cantando no grupo Os Fronteiriços, do pai, Algacir Costa, dedicado à música dos pampas. Aos 7, o violão tomou conta da vida do garoto. Sua fama de prodígio logo se espalhou. Sete anos atrás, mudou-se para o Rio – mora atualmente num apartamento de dois quartos na Lagoa – e estreou numa roda de choro vestido à gaúcha: de chapéu, lenço vermelho, poncho e bombachas. A perplexidade dos presentes só aumentou quando ele passou a tocar. Na roda, conheceu José Paulo Becker, outro jovem talento do violão, com quem viria a dividir apartamento. "A chegada do Yamandu foi como um furacão", descreve Becker. "Ele mudou a maneira de tocar de todo mundo. E também nos divertimos um bocado na noite da Lapa."

Em 2001, a coisa ficou séria. Yamandu ganhou um prêmio e, com ele, o direito de gravar um disco. Para produzi-lo, chamou o violonista Maurício Carrilho, uma das primeiras pessoas que conheceu no Rio. "Deixei claro que não dava para tocar de boteco em boteco e gravar um disco ao mesmo tempo", relata Carrilho. "O tempo que o Yamandu leva entre pensar e tocar o que pensou é o mais curto que já vi. Ele toca com a medula", define. Carrilho é o compositor de Suíte para Violão de Sete Cordas e Orquestra, peça que Yamandu executou como solista no consagrador concerto em Paris, sob a regência de Masur, no último dia 23 de março. "A platéia ficou emocionada", derrama-se o maestro. "Ele é um dos grandes talentos do violão no mundo." Uma semana mais tarde, no mesmo palco, o concerto foi bisado em evento da Anistia Internacional. Depois do recital, num coquetel repleto de figurões, o virtuose deu lugar ao garoto gozador. Apresentado ao estilista Pierre Cardin, não perdeu a oportunidade de elogiar as calças da grife.

Cheio de energia, Yamandu é capaz de emendar, como fez em abril, um fim de semana com a Orquestra Sinfônica Brasileira, no Teatro Municipal, com uma noitada de "canjas doidas" na segunda-feira seguinte, no Bar Semente, cenário da mudança de sua carreira. Mas os compromissos se avolumam. Desde o começo do ano, já tocou no Canadá, na Inglaterra, na França e na Austrália. Iniciou a semana passada no Uruguai, passou por Londrina e, após o concerto na Praia de Copacabana, segue para Belo Horizonte, Recife, Florianópolis e Porto Alegre. Acabou de lançar o sétimo CD, Yamandu+Dominguinhos, com o sanfoneiro pernambucano, e ainda encontra tempo para compor. "Fiz Bachbaridade, que mostrei no Municipal, e uma suíte para violões. É uma peça ingênua, estou começando a entrar nesse mundo da música erudita." Masur agradece.

 

"Seu concerto na França foi um triunfo. A platéia
ficou emocionada. Ele é um dos grandes talentos
do violão no mundo."
Kurt Masur, maestro

 

         
     

 

 
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