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SEGURANÇA PÚBLICA
Diários de guerra
Quem são os policiais do
Bope, a tropa de
elite da PM que enfrenta uma guerra sem
fim contra o tráfico nas favelas cariocas
Fabio Brisolla
Ricardo Fasanello/Strana
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| Tropa do Grupo de Resgate e Retomada
(GRR), divisão do Bope: coletes à prova
de bala, fuzis Colt e pistolas 9 milímetros |
Manhã
no Morro de São Carlos, no Estácio. A equipe do Bope,
o Batalhão de Operações Especiais da Polícia
Militar, desembarca com a missão de capturar Gilson Ramos
da Silva, o "Aritana", chefe do tráfico local e um dos bandidos
mais procurados pela polícia carioca. Doze horas depois,
já ao entardecer, Aritana aparece no visor do atirador de
elite da tropa. O sniper, como é chamado, estava em um ponto
estratégico da favela, para dar cobertura aos colegas de
equipe, quando identificou o traficante. Aritana carregava um fuzil
AK 47 e se preparava para atacar os policiais que subiam o morro.
O traficante atirou. No instante seguinte, foi morto com um certeiro
tiro de fuzil no peito, disparado a 90 metros de distância
pelo sniper. O episódio, ocorrido em março de 2006,
foi relatado a Veja Rio pelo próprio atirador (veja
foto abaixo), que mantém sua identidade em sigilo por
questão de segurança. Pela natureza de seu trabalho,
os policiais do Bope evitam aparecer. Eles são os protagonistas
da interminável e terrível guerra contra os traficantes
na cidade. De um mês para cá, os cenários das
batalhas têm sido a Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, e as
favelas do Complexo do Alemão um combate que, até
terça-feira passada (29), apresentava como saldo dezessete
mortos e mais de cinqüenta feridos por balas perdidas e estilhaços
de granada.
André Nazareth/Strana
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| O atirador de elite do Bope que acertou
o traficante Aritana com um disparo a 90 metros de distância:
"Apertar um gatilho e tirar a vida de alguém é
muito difícil. Não é fácil matar
uma pessoa" |
"Não é fácil tomar a decisão de apertar
um gatilho e tirar a vida de alguém", diz o sniper. "Você
não sente pela morte de um traficante, mas por saber que
ele tem uma família." O dilema, porém, não
chega a tirar o sono do atirador. Quem veste o uniforme preto da
tropa é treinado para viver na linha de fogo. Sem hesitar.
O Bope é a elite da Polícia Militar, com policiais
habilitados para resolver situações críticas
em zonas urbanas. São 380 homens selecionados com base em
dois cursos de admissão. O mais curto, com dois meses de
duração, é voltado para ações
táticas em casos de resgate de reféns e foi criado
após o dramático seqüestro do ônibus 174,
em junho de 2000. Na ocasião, a ação do Bope
resultou na morte de uma passageira, atingida por um disparo errado
de um policial. "Depois do 174, tivemos 39 ocorrências com
reféns no Rio. Em todas fomos bem-sucedidos", afirma o capitão
Gilmar Tramontini, de 30 anos, responsável pelo Grupo de
Resgate e Retomada (GRR) do Bope. Nos Jogos Pan-Americanos, quarenta
policiais do GRR trabalharão em conjunto com outros quarenta
agentes federais na Unidade Contra Terrorismo.
O
outro cartão de acesso ao Bope é bem mais difícil
de ser obtido. Em cada dez alunos, apenas dois concluem o curso
de operações especiais, voltado para as ações
dentro das favelas. O treinamento dura de três a cinco meses
e 90% dos desistentes saem nos dez primeiros dias, no período
batizado de "Semana do Inferno". "Você desmitifica a experiência
de tomar um soco na cara", explica o tenente-coronel Alberto Pinheiro
Neto, atual comandante do Bope. "E isso é preciso para testar
sua agressividade e seu autocontrole." O tal inferno começa
em uma área de treinamento próxima à Represa
de Ribeirão das Lages, no município de Barra do Piraí,
a 124 quilômetros do Rio. O aluno alterna uma seqüência
de exercícios físicos e aulas de luta. Todos os dias,
os candidatos correm 15 quilômetros vestidos com o uniforme
completo, carregando mochila e fuzil. Em boa parte das atividades
do curso, sempre realizado no inverno, o aluno é obrigado
a cair na água gelada da represa. Mesmo encharcado e com
frio, ele tem de continuar os exercícios. Algumas vezes,
o pretendente à vaga no Bope chega a ficar três horas
dentro da água. Não são raros os casos de hipotermia
diminuição excessiva da temperatura normal
do corpo , e por isso os treinos têm acompanhamento
de médico. "Se o cara passa mal, é atendido na hora,
mas assim que os sintomas desaparecem ele volta para a água",
conta um ex-aluno. Após um dia inteiro de exercícios
puxados, começam as aulas teóricas em sala de aula.
Muitas vezes as instruções se estendem madrugada adentro.
Tasso Marcelo/AE
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| Caveirão em ação,
no último dia 23: blindado arrasta veículo
usado como barricada na Grota |
O inferno tem trilha sonora. Enquanto
fazem os exercícios, os alunos entoam versos tradicionais
da tropa: "Homem de preto, qual é sua missão? Entrar
pela favela e deixar corpo no chão. Homem de preto, o que
é que você faz? Eu faço coisas que assustam
o satanás!". No período de treinamento, o candidato
dorme duas horas por noite, com comida racionada. As falhas são
punidas com rigor. A refeição-padrão é
arroz, feijão, carne e massa. Tudo misturado, formando uma
pasta. "Se demorar para pegar a comida, ela é jogada no chão.
E aí, se quiser comer, tem de ser aquela mesmo", relata outro
aluno. Passado o inferno, os sobreviventes enfrentam treinamentos
específicos, como cursos de tiro, mergulho e intervenção
tática. Na fase final, há o teste de luta, no qual
o aluno enfrenta até cinco adversários ao mesmo tempo.
"Convidamos lutadores profissionais de vale-tudo e jiu-jítsu
para enfrentar os candidatos", diz o comandante Pinheiro Neto. Segundo
um ex-participante, alguns alunos saem desfigurados do confronto.
Fraturas no nariz são corriqueiras.
André Nazareth/Strana
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| O tenente Nascimento, um dos policiais
treinados para operações em favelas: "Quando
somos chamados, sabemos que tudo já foi tentado.
Se a gente não resolver, ninguém mais vai conseguir" |
Ao fim do curso de Operações
Especiais, os sobreviventes recebem o esperado troféu: uma
pequena caveira de metal dourado, com uma faca cravada no crânio,
o símbolo do Bope. São admitidos com um salário
inicial de 1 200 reais. No portão de entrada da sede da corporação,
no alto de Laranjeiras, há uma grande placa com a imagem
da caveira e um aviso: "Seja bem-vindo, visitante. Mas não
faça movimentos bruscos!". No amplo salão de entrada,
com vista panorâmica da Zona Sul, outra enorme caveira acaba
de ser pintada na parede, sobre um fundo preto. "Ficou bonito, não?",
pergunta um policial. Para os moradores das favelas, a chegada do
veículo blindado com a tal caveira pintada o famoso
Caveirão é sinônimo de pânico.
Faz cinco anos que o blindado, à prova de tiros de fuzil
AK 47, vem sendo usado em incursões nos morros da cidade.
Por onde passa, o Caveirão
é bombardeado por granadas e tiros de fuzil. Para o morador,
sua aparição significa o início de uma guerra.
Não faltam relatos sobre supostos atos de violência
do Bope contra a população civil. Do alto-falante
que equipa o blindado, dizem os moradores, saem frases ameaçadoras.
Na varanda de casa, na favela da Grota, de onde vê quando
o veículo se aproxima, dona Marisa (nome fictício)
pergunta à neta de 2 anos: "O que o Caveirão diz quando
chega?". "Sai da frente, f.d.p.", responde a menina, com olhar assustado.
Veja Rio esteve na Vila Cruzeiro e na Grota, no Complexo
do Alemão, e conversou com moradores sobre a guerra das últimas
semanas. Eles dizem que os policiais estariam atirando nos transformadores
da Light durante as incursões, o que deixaria as favelas
às escuras. De acordo com o comando do Bope, os tiros são
disparados pelos traficantes. Na guerra de versões, os policiais
afirmam que a violência do tráfico é minimizada
pelos moradores por medo de represálias. "Todo mundo diz
que eles estão mais bem armados e têm mais munição
do que a polícia. E o tiro em inocentes é sempre o
nosso? Seria muita falta de sorte, não?", questiona o soldado
Luiz Cláudio Carvalho Ros, de 33 anos, que acaba de ser promovido
por bravura.
Ricardo Fasanello/Strana
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| O capitão Tramontini (no centro)
comanda o treino da unidade contra o terrorismo que vai
atuar nos Jogos Pan-Americanos: "Precisamos estar
prontos para ações de retomada em barcas,
ônibus e no metrô" |
Ros entrou na linha de fogo para tentar
salvar um colega de equipe no segundo dia da operação
na Vila Cruzeiro. Eram 9 horas quando a equipe chegou à entrada
da favela. O tiroteio começou e o soldado Wilson Santana
Lopes, de 28 anos, decidiu atravessar a rua para se abrigar na outra
esquina. Foi atingido. Ros pegou o ônibus de transporte da
tropa, que não é blindado, e cruzou a rua, sob fogo
cerrado. Conseguiu resgatar o companheiro, mas já era tarde.
"Toda vez que me deito para dormir, a cena volta", revela. Ros continuou
na favela por mais doze horas após resgatar o corpo de Lopes.
"É muito difícil manter o controle emocional quando
um colega é baleado", reconhece o sargento Daniel da Silva
Rocca, da equipe do soldado Lopes. "Só que somos treinados
para enfrentar esse tipo de situação", explica. "Nosso
ímpeto aumentou muito depois da morte e em minutos tomamos
a Vila Cruzeiro. Matar um policial do Bope não é um
bom negócio", diz o comandante Pinheiro Neto. O tenente Jaguaribe
do Nascimento Ferreira, de 27 anos, define a rotina dos homens de
preto: "O Rio não está em guerra. Mas, quando chegamos
a uma favela, é vida ou morte".
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OS HOMENS DE PRETO
Ricardo Fasanello/Strana
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Para ingressar: é preciso ser policial militar
há pelo menos dois anos. Antes de ser admitido no curso
de treinamento, o candidato passa por teste de condicionamento
físico que precisa ser excelente para a aprovação
, avaliação médica e psicológica.
O treinamento:
há dois tipos de curso, voltados para cada uma das
divisões do batalhão.
Curso de ações táticas: dura dois meses
e é direcionado ao resgate de reféns. Os policiais
dessa divisão estão escalados para a unidade
contra terrorismo nos Jogos Pan-Americanos.
Curso de operações especiais: de
três a cinco meses, prepara o policial para intervenções
em áreas de conflito, como situações
críticas semelhantes às enfrentadas nas favelas
do Complexo do Alemão.
Horário de
serviço: turno de 24 horas seguido por 72
horas de folga.
Salário:
os soldados ganham 1 200 reais e os tenentes, 2 500 reais
(valores líquidos).
O trabalho:
há, no mínimo, uma operação por
dia em alguma favela da cidade.
Equipamentos:
nas operações em favelas, cada policial usa
colete à prova de balas, fuzil Fal com oito carregadores
de trinta cartuchos, uma pistola .40 e uma faca. Neste mês,
o batalhão deve receber seis modelos do fuzil-metralhadora
belga FN Minimi, que tem capacidade para dar até 1
000 tiros por minuto. As armas ficarão com a unidade
contra o terrorismo durante o Pan e depois serão utilizadas
nas operações em favelas.
A música:
os versos cantados pelos policiais do Bope durante
os exercícios físicos estão em várias
versões na internet, em sites como o YouTube. Um dos
trechos da letra
Cachorro latindo
Criança chorando
Vagabundo vazando
É o Bope chegando
Tropa de elite, osso duro de roer
Pega um, pega geral, também
vai pegar você
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O batalhão nas telas
de cinema
Divulgação
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| Cena de Tropa de Elite:
a violência vista pelos policiais |
Até o fim do ano, o Bope
deve chegar às telas de cinema. Depois de dirigir em
2002 o documentário Ônibus 174, sobre
a malsucedida operação de resgate de reféns
feita pela corporação em 2001, o cineasta José
Padilha fez agora um filme de ficção. Com um
custo de produção estimado em 10,5 milhões
de reais, Tropa de Elite tem como protagonista o ator
Wagner Moura, no papel de um oficial do Bope. Para cuidar
dos efeitos especiais, como tiros e explosões, Padilha
chamou o especialista Phil Nelson, coordenador de dublês
do filme Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott.
"O filme aborda o problema da violência urbana do ponto
de vista dos policiais", explica o diretor.
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