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CRÔNICA
"Mesa para um, por favor!" Tutty
Vasques
Que
me desculpem os gourmets, mas comida nem sempre é fundamental. Certas horas
na vida, especialmente à noite, o melhor restaurante é aquele em
que qualquer tímido come sozinho e se sente em casa. O manobreiro o cumprimenta
pelo nome, a hostess dá-lhe beijinhos de velha amiga, o garçom sabe
de sua predileção por jantar no balcão, o barman tira o chope
na pressão em taça, o chef aceita pedidos fora do cardápio,
o rapaz do caixa comenta contigo o jogo na TV, a comida é boa, mas nada
espetacular que justifique a atenção de júris como o desta
edição especial. Tenho ao menos quatro lugares do gênero para
sugerir caso Veja Rio crie em seu concurso de gastronomia de 2006 a categoria
"O melhor lugar para comer sozinho". Nada
a ver com bar de solitários! É uma questão prática
no dia-a-dia corrido de quem mora sozinho e transformou a cozinha de casa em uma
espécie de área de lazer que só funciona nos fins de semana.
Um prato de comida na volta do trabalho ou na saída da análise nem
sempre é pretexto de programa social ou compromisso profissional. Comer
fora pode ser apenas uma necessidade pessoal que dispensa companhias tanto quanto
abastecer o carro ou levar o cachorro pra fazer xixi. O problema é que
ninguém se sente esquisito entrando sozinho num posto de gasolina, mas
em restaurantes é diferente. Eu, então, acanhado da raça
puro-sangue-tijucano, quase sempre acho que as mesas em volta tentam adivinhar
por que estou desacompanhado. "Vai ver, brigou com a namorada." Ou então:
"Ele não deve ser daqui, pode estar no Rio a trabalho". Noite dessas li
na testa de uma moça da mesa em frente: "Esse cara é gay!". Fazer
o quê?! Normalmente, quando me flagro estranho no ninho, só desgrudo
os olhos da comida para chamar o garçom e pedir a conta. Sorte
minha que no caminho do cafofo existem dois restaurantes que freqüento com
a mesma sem-cerimônia que me permito à mesa de mamãe. Um deles
é o Tanakinha, que cismou agora de se chamar Sushi Gávea. O nome
não importa. É o menor lugar em que eu gosto de estar no mundo.
Parece um elevador grande com serviço de bordo nipo-nordestino. De vez
em quando a porta da cabine se abre e entra alguém para jantar. Seis passageiros
mais a tripulação (Deusimar, Antônio, Adayl e Marcelo) lotam
o lugar, que, no entanto, nunca está cheio. Não há segredos
que se possam contar lá dentro. Logo o outro lado do balcão fica
sabendo, por exemplo, que eu tenho horror a atum pálido. Resultado: só
me servem o peixe quando sua carne está quase grená. O combinado
lá é, mais que um misto de sushi e sashimi, uma combinação
que você faz com o sushiman. Essa
intimidade com o povo da casa é também o que me leva com freqüência
quase de arroz-de-festa ao Guimas, lugar que vi ainda botequim, antes de virar
o bistrô que freqüento há mais de vinte anos. É lá
que costumo comer no balcão quando estou só, o que me resolve de
cara aquele grave problema do que fazer com os olhos quando não se tem
alguém à frente para conversar. Enquanto espero a comida, observo
o balé do barman Zequinha ou da hostess Mel. Gosto tanto da gentileza com
que todos me tratam lá que nem ligo quando arrisco errado na escolha do
prato. Ninguém vai ao Guimas exatamente porque a comida é uma delícia.
A comida é direita. Pro Baixo Gávea é um luxo!
O melhor lugar para
comer sozinho não tem preço. Não pode evidentemente ser muito
caro, às vezes sai quase de graça. Gasto 8 reais quando almoço
na Nutre São, lojinha de produtos naturais que serve refeições
na galeria do prédio onde funciona o consultório do meu psicanalista
(Rua Jardim Botânico em frente à ABBR). O lugar tem uma curiosa combinação
de mesas com pés de máquinas de costura onde pessoas estranhas entre
si vão dividindo os assentos. O divertido do almoço está
lá no fundo, atrás do balcão, o senhor negro de bigode que
serve a freguesia em pequenos recipientes em que consegue acomodar cinco, seis
variedades de comida natureba. É praticamente um número de circo.
Seu Wilson é um figuraço. Trata a todos pelo diminutivo. A mim,
que não conhece pelo nome, apela para o superlativo: "Tudo bem, queridão!".
A norma, entretanto, é o apelativo carinhoso: "Arrozinho, saladinha, feijãozinho,
franguim, aipinzin e zé finit". Acha a maior graça nas coisas que
diz. Wilsinho, como o chamam as freguesas, diverte-se o tempo todo. De vez em
quando preciso me conter para não aplaudi-lo. Devia ganhar couvert artístico.
Freud provavelmente
explica a fome que me dá passar cinqüenta minutos no divã.
Quando não saio da sessão direto para o Nutre São (o nome,
reconheço, é de perder o apetite) é sinal de que estou tão
bem, mas tão bem, de cabeça que resolvi gastar dinheiro no Quadrifoglio,
uma quadra adiante do consultório. Quantas e quantas vezes almocei lá
às terças-feiras sempre na mesma mesa, no mesmo salão vazio,
com o mesmo garçom me perguntando se seria "o mesmo de sempre": couvert
+ salada de queijo de cabra quente + limonada suíça + café
expresso = 45 reais. Me encanta, no caso, a economia de palavras. O melhor lugar
para comer sozinho pode ser aquele onde você não precisa dizer nada
para ser bem atendido. Meu analista acha que isso é carência. E eu
ainda nem contei a ele que noite dessas sonhei que estava comendo sozinho no Porcão.
Imagina o pesadelo! E-mails
para o cronista:
tutty@nominimo.com.br |