Publicidade
 
 


 
 



5 de outubro de 2005

RESTAURANTES
BARES
COMIDINHAS
CRÔNICA
  

CRÔNICA

"Mesa para um, por favor!"

Tutty Vasques


Que me desculpem os gourmets, mas comida nem sempre é fundamental. Certas horas na vida, especialmente à noite, o melhor restaurante é aquele em que qualquer tímido come sozinho e se sente em casa. O manobreiro o cumprimenta pelo nome, a hostess dá-lhe beijinhos de velha amiga, o garçom sabe de sua predileção por jantar no balcão, o barman tira o chope na pressão em taça, o chef aceita pedidos fora do cardápio, o rapaz do caixa comenta contigo o jogo na TV, a comida é boa, mas nada espetacular que justifique a atenção de júris como o desta edição especial. Tenho ao menos quatro lugares do gênero para sugerir caso Veja Rio crie em seu concurso de gastronomia de 2006 a categoria "O melhor lugar para comer sozinho".

Nada a ver com bar de solitários! É uma questão prática no dia-a-dia corrido de quem mora sozinho e transformou a cozinha de casa em uma espécie de área de lazer que só funciona nos fins de semana. Um prato de comida na volta do trabalho ou na saída da análise nem sempre é pretexto de programa social ou compromisso profissional. Comer fora pode ser apenas uma necessidade pessoal que dispensa companhias tanto quanto abastecer o carro ou levar o cachorro pra fazer xixi. O problema é que ninguém se sente esquisito entrando sozinho num posto de gasolina, mas em restaurantes é diferente. Eu, então, acanhado da raça puro-sangue-tijucano, quase sempre acho que as mesas em volta tentam adivinhar por que estou desacompanhado. "Vai ver, brigou com a namorada." Ou então: "Ele não deve ser daqui, pode estar no Rio a trabalho". Noite dessas li na testa de uma moça da mesa em frente: "Esse cara é gay!". Fazer o quê?! Normalmente, quando me flagro estranho no ninho, só desgrudo os olhos da comida para chamar o garçom e pedir a conta.

Sorte minha que no caminho do cafofo existem dois restaurantes que freqüento com a mesma sem-cerimônia que me permito à mesa de mamãe. Um deles é o Tanakinha, que cismou agora de se chamar Sushi Gávea. O nome não importa. É o menor lugar em que eu gosto de estar no mundo. Parece um elevador grande com serviço de bordo nipo-nordestino. De vez em quando a porta da cabine se abre e entra alguém para jantar. Seis passageiros mais a tripulação (Deusimar, Antônio, Adayl e Marcelo) lotam o lugar, que, no entanto, nunca está cheio. Não há segredos que se possam contar lá dentro. Logo o outro lado do balcão fica sabendo, por exemplo, que eu tenho horror a atum pálido. Resultado: só me servem o peixe quando sua carne está quase grená. O combinado lá é, mais que um misto de sushi e sashimi, uma combinação que você faz com o sushiman.

Essa intimidade com o povo da casa é também o que me leva com freqüência quase de arroz-de-festa ao Guimas, lugar que vi ainda botequim, antes de virar o bistrô que freqüento há mais de vinte anos. É lá que costumo comer no balcão quando estou só, o que me resolve de cara aquele grave problema do que fazer com os olhos quando não se tem alguém à frente para conversar. Enquanto espero a comida, observo o balé do barman Zequinha ou da hostess Mel. Gosto tanto da gentileza com que todos me tratam lá que nem ligo quando arrisco errado na escolha do prato. Ninguém vai ao Guimas exatamente porque a comida é uma delícia. A comida é direita. Pro Baixo Gávea é um luxo!

O melhor lugar para comer sozinho não tem preço. Não pode evidentemente ser muito caro, às vezes sai quase de graça. Gasto 8 reais quando almoço na Nutre São, lojinha de produtos naturais que serve refeições na galeria do prédio onde funciona o consultório do meu psicanalista (Rua Jardim Botânico em frente à ABBR). O lugar tem uma curiosa combinação de mesas com pés de máquinas de costura onde pessoas estranhas entre si vão dividindo os assentos. O divertido do almoço está lá no fundo, atrás do balcão, o senhor negro de bigode que serve a freguesia em pequenos recipientes em que consegue acomodar cinco, seis variedades de comida natureba. É praticamente um número de circo. Seu Wilson é um figuraço. Trata a todos pelo diminutivo. A mim, que não conhece pelo nome, apela para o superlativo: "Tudo bem, queridão!". A norma, entretanto, é o apelativo carinhoso: "Arrozinho, saladinha, feijãozinho, franguim, aipinzin e zé finit". Acha a maior graça nas coisas que diz. Wilsinho, como o chamam as freguesas, diverte-se o tempo todo. De vez em quando preciso me conter para não aplaudi-lo. Devia ganhar couvert artístico.

Freud provavelmente explica a fome que me dá passar cinqüenta minutos no divã. Quando não saio da sessão direto para o Nutre São (o nome, reconheço, é de perder o apetite) é sinal de que estou tão bem, mas tão bem, de cabeça que resolvi gastar dinheiro no Quadrifoglio, uma quadra adiante do consultório. Quantas e quantas vezes almocei lá às terças-feiras sempre na mesma mesa, no mesmo salão vazio, com o mesmo garçom me perguntando se seria "o mesmo de sempre": couvert + salada de queijo de cabra quente + limonada suíça + café expresso = 45 reais. Me encanta, no caso, a economia de palavras. O melhor lugar para comer sozinho pode ser aquele onde você não precisa dizer nada para ser bem atendido. Meu analista acha que isso é carência. E eu ainda nem contei a ele que noite dessas sonhei que estava comendo sozinho no Porcão. Imagina o pesadelo!

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados