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CRÔNICA
Leia & emagreça
Manoel Carlos
Leo Martins
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Uma pesquisa encomendada pela rede de livrarias
Borders, da Inglaterra, revela que ler queima uma média de
35 calorias a cada meia hora. E mais: que livros de suspense, de poder
e de sexo, assim como histórias apimentadas sobre celebridades,
podem elevar essa taxa e até mesmo dobrá-la. Para que
tenham uma idéia mais precisa do que representa esse número,
basta lembrar que exercícios que exigem grande energia e empenho,
como o jump way, por exemplo, consomem aproximadamente 600 calorias
a cada sessão de 45 minutos. Convenhamos que é uma grande
notícia para aqueles que levam vida sedentária, sempre
a reboque de um livro, mesmo quando estão num meio de transporte
público. No mesmo dia em que li essa notícia numa revista
feminina, fiquei admirando uma jovem que não tirava os olhos
de um livro, numa curta viagem de metrô. Estava a tal ponto
absorvida que parecia nem ouvir um bebê que, no colo da mãe,
berrava ao seu lado, assim como não se dar conta de um pisão
que um brutamontes deu em seus delicados pés. Nada. A leitura
a hipnotizava! E eu fiquei ali, acompanhando suas reações.
Confesso que estava em brasa, querendo saber que livro era aquele.
Como estava encapado, comecei a fazer exercícios de contorcionismo,
tentando ler o nome da obra, impresso na abertura de cada página.
Em vão. Apesar de estar com a visão renovada pela dupla
cirurgia de catarata que fiz há dois meses, nem assim consegui
ler as letras miúdas. Cheguei a pensar em alguns lances de
falsa esperteza, como cumprimentá-la, supondo-a minha conhecida
do Leblon, e com isso entabular um papo que abriria caminho para perguntar
o que ela estava lendo com tanto interesse; ou, quem sabe, em esbarrar
fortemente em suas mãos, fazendo o livro cair no chão
e aí então me desculpar e... Ah, bobagem. Eu acabaria
ficando ainda mais ridículo do que já estava. Após
várias contorções, senti o olhar crítico
e raivoso de uma senhora sentada a pequena distância, que, vendo
que eu me espichava, cheio de ansiedade, sobre o colo da leitora,
devia estar achando que a minha intenção era tirar uma
casquinha da moça, através do seu decote. Vejam, por
aí, ao que eu estava me expondo, por curiosidade.
Quando o carro em que estávamos
parou na Estação Botafogo, a jovem se ergueu e desceu
rapidamente, sem me dar tempo de tentar nenhum outro lance. Frustração.
Depois, no correr do dia, a imagem da moça lendo no metrô
não saiu da minha cabeça. Mais tarde, numa mesa do
Café Severino, eu e alguns amigos fizemos várias conjecturas:
seria um romance ou um livro de contos? Ou quem sabe uma biografia
apimentada, dessas que, dando crédito à pesquisa da
Borders, são capazes de provocar, nas calorias, um incêndio
de grandes proporções.
Depois de jogar muita conversa
fora, fui para casa e contei toda essa história à
minha mulher. Bety nem esperou pelas minhas considerações.
Verdade ou mentira, vale
tentar me disse ela. Amanhã mesmo passo numa
livraria e compro as obras completas do Nelson Rodrigues. É
boa literatura e tem os ingredientes necessários a uma farta
queima de calorias!
e-mail: almaviva@uninet.com.br
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