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5 de setembro de 2007

GENTE

ENTRETENIMENTO
CIDADE
VIDA SAUDÁVEL
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

GENTE

Show da vida

Fazer projetos arquitetônicos aos 99 anos,
lançar livro aos 88 e administrar faculdade
aos 104 são algumas das peripécias de uma
turma que, apesar da passagem do tempo,
continua na ativa. Dez nonagenários cariocas por nascimento ou adoção (alguns um pouco
mais velhos, outros um pouco mais novos)
mostram por que idade não é documento

Sergio Garcia, Sofia Cerqueira e Patrick Moraes

 

Helio Gracie, mestre de jiu-jítsu, 93 anos

Fernando Lemos
"A doença entra pela boca. Nunca bebi
nem fumei e só como o que faz bem"

Sempre que um dos filhos aparece no rancho de Helio Gracie, em Itaipava, o encontro invariavelmente desemboca no tatame. O grande mestre do jiu-jítsu veste o quimono e vai à luta, apesar de seus 93 anos e de ter de encarar gente temida no universo das artes marciais: Rickson, Rorion, Rolker, Royler... Ele golpeia, treina posições no solo e passa ensinamentos à prole, como mostra a foto acima, em que se exercita com Royler, 41 anos. Helio é duro na queda. No sítio onde mora com a mulher, Vera, já percorreu cada pedaço da área de 300.000 metros quadrados, seja ao volante de seu carro, seja a pé. Colhe verduras na horta e depois, à beira do açude, é capaz de arremessar ração aos peixes dezenas de vezes. Só se lembra de ter ficado de cama uma vez na vida. "Foi quando caí do telhado, uns quinze anos atrás", recorda. Atribui o escudo imunológico à dieta para lá de saudável, à base de frutas, legumes e verduras, com apenas uma "refeição de panela" ao dia. "A doença entra pela boca. Nunca bebi nem fumei e só como o que faz bem", relata. "O paladar, às vezes, trai o sujeito." O corpo é o melhor outdoor de seu modo de vida. Dos 18 anos até há bem pouco tempo, ele pesava 63 quilos – ideal para seu 1,70 metro. "Agora estou com 60 quilos", conta. O bem-estar de que desfruta é outro motivo para a longevidade. "Aqui na serra não tenho vizinhos para me perturbar."

Helio mudou-se para o Rio ainda na infância. A família veio do Pará, onde ele nasceu e fez com o irmão Carlos seu noviciado no jiu-jítsu. Como era frágil, ficava mais observando os golpes do mano. Aos poucos, inventou movimentos e criou uma nova forma da luta, hoje difundida pelo mundo. Para conquistar respeito das outras modalidades, desafiava o pessoal da capoeira, do caratê e do kung fu. Mais do que respeito, ganhou fama de bom de briga e transformou o sobrenome da família numa grife. Sua academia, aberta em 1952 e há 22 anos instalada no Colégio Padre Antônio Vieira, no Humaitá, já contabiliza mais de 8 000 alunos. De vez em quando ele ainda vai lá. Não desce mais sozinho ao Rio. "Pode acontecer de furar o pneu do carro", justifica. "Estou ficando ajuizado.

 

Antonio Olinto, escritor, 88 anos

Fernando Lemos
"Viver é como andar de bicicleta:
se você pára, cai"

A velha máquina de escrever Remington do acadêmico Antonio Olinto não tem descanso. Ele escreve poesias diariamente e já tem prontas 200 páginas de um novo romance. Aos 88 anos e com 55 livros publicados, mantém-se em plena atividade. Às terças e quintas vai à Academia Brasileira de Letras, da qual é membro desde 1997. Três vezes por semana, bate ponto na Secretaria Municipal das Culturas, onde dirige 39 bibliotecas. Assina uma coluna semanal na Tribuna da Imprensa e faz uma publicação mensal, o Jornal das Letras, com o também imortal Arnaldo Niskier. Afirma que lê três livros por semana. "Minha energia vem da preocupação permanente em estudar e escrever", avalia. "Viver é como andar de bicicleta: se você pára, cai", diz esse mineiro nascido em Ubá, que chegou ao Rio com 18 anos. Miúdo – 1,62 metro de altura –, fala rápida e memória de elefante, Antonio Olinto não pára. Há duas semanas, lançou a reedição da trilogia Alma da África, dos anos 70. Em outubro, inaugura uma exposição com a sua coleção de peças africanas. Além de 16.000 livros, seu apartamento, em Copacabana, abriga 200 máscaras e esculturas que amealhou quando foi adido cultural na Nigéria. Para superar a morte, no ano passado, da segunda mulher, Zora Seljan, sua companheira por 52 anos, escreveu 800 versos dedicados a ela. Olinto não dispensa um torresminho e lê três páginas de dicionário por dia. "Quanto mais palavras a pessoa sabe, melhor pensa, escreve, ama."

 

Lily Marinho, socialite, 86 anos

Fernando Lemos
"O segredo da longevidade é valorizar
as coisas boas e dar importância na
medida certa às desagradáveis"

A história de amor com o empresário Roberto Marinho rende um belo romance. Mas não põe um ponto final na trajetória da socialite Lily Marinho, 86 anos e viúva há quatro. "A receita para conviver com a dor", diz ela, "é estar ativa." Bem-humorada, impecável – recebe a visita de um cabeleireiro dia sim, dia não – e de traquejo social ímpar, Lily voltou a dar recepções no casarão que era do falecido marido, no Cosme Velho, onde vive cercada por dezenove empregados, 37 flamingos e incontáveis obras de arte. "A educação severa de meu pai, um militar inglês, me ajudou a enfrentar os golpes da vida", diz ela, nascida na Alemanha e criada na França (seu nome de solteira era Lily Monique Lamb). Lily perdeu o único filho, Horácio, num acidente, em 1966. Depois adotou João Baptista, que lhe deu quatro netos. "O segredo da longevidade é valorizar as coisas boas e dar importância na medida certa às desagradáveis." Um ano após a morte de Roberto Marinho, lançou a autobiografia Roberto & Lily e foi a 24 estados para divulgá-la. A socialite, já viúva do empresário Horácio de Carvalho, subiu ao altar pela segunda vez aos 70 anos. "Quis mostrar que a vida surpreende em qualquer idade." Em outubro, vai a Paris como embaixadora da Boa Vontade da Unesco. Faz exercícios diários, lê sete jornais, adora biografias, dorme de doze a catorze horas por dia e come de tudo. "As pessoas imaginam que só gosto de caviar", comenta. "Adoro dobradinha, feijoada e acarajé."

 

José Fonseca Passos,
desembargador, 88 anos

 
Selmy Yassuda
"Enquanto puder, não abandonarei
o campo de batalha"

Depois de mais de quarenta anos no Judiciário, o desembargador José Joaquim da Fonseca Passos resolveu driblar a aposentadoria que se aproximava. Em 1997, aos 78 anos, recebeu de bom grado dois convites. O primeiro era para coordenar o curso de aperfeiçoamento para juízes da Escola da Magistratura do Rio. O outro, para dar forma ao Museu da Justiça, criado nove anos antes, mas até então sem expressão, e dirigi-lo. "Enquanto puder, não abandonarei o campo de batalha", diz ele, que se deu bem nas duas funções. Fonseca Passos lidera o grupo de dezoito desembargadores – a maioria deles já retirados – que se dedica a lapidar os novos magistrados fluminenses. Em sala, a turma debate sentenças e recebe a orientação dos experientes juízes. Na outra ponta de atuação, o Museu da Justiça tornou-se a paixão do desembargador, que passa as tardes de segunda e quarta cuidando da sua administração. Orgulha-se, em especial, de duas peças do acervo da casa: a máquina de escrever em que foi datilografado o Código Penal de 1940 e os manuscritos do jurista Ruy Barbosa. "A memória jurídica no Rio era zero", lembra. Uma hemorragia sofrida no ano passado o afastou das funções por mais de seis meses. Mas a demissão nem sequer passou pela sua cabeça. "Eu me sinto gratificado", afirma. "Ajudamos aqueles que entram agora no magistério e, no outro extremo, exaltamos quem já passou aqui."

 

Bernardina Pinheiro, professora, 85 anos

 
Renato Velasco
"Sou socrática em relação à vida.
Sei que nada sei. Falta muita
coisa ainda para eu aprender"

Professora emérita de letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bernardina Pinheiro não gosta de comemorar aniversário. Antes que alguém suspeite se tratar de banzo por seus 85 anos, ela se justifica. "Nasci dia 31 de janeiro. Nunca fui de festejar porque minhas amigas estavam sempre de férias", explica a viúva, que foi casada com o jornalista Caio Pinheiro e teve cinco filhos. A ebulição cultural que marcou o ano de seu nascimento, 1922, acompanhou-a ao longo da vida. Livros se esparramam pelos três quartos de seu apartamento, em Ipanema. Ela é um caso raro, pois atribui sua longevidade bem desfrutada justamente a um vício. "Não posso ir a uma livraria. É um perigo", confessa. "Literatura é fonte de vida." Depois da aposentadoria, em 1995, Bernardina pôde dedicar-se à missão – ou melhor, desafio – de traduzir o volumoso e complexo Ulisses, do irlandês James Joyce. Foram sete anos de trabalho no livro, debruçada sobre o computador, entre cursos particulares que ela ministrava sobre o autor. A professora já pensa em novas tarefas. Agora, quer traduzir Viagens de Gulliver, do também irlandês Jonathan Swift. "Sou socrática em relação à vida: sei que nada sei", diz. "Falta muita coisa ainda para eu aprender."

 

Sylvio Vianna Freire, professor, 104 anos

 
Selmy Yassuda
"Não posso deixar o corpo
e o cérebro parados"

Três vezes por semana, Sylvio Vianna Freire, 104 anos, ruma com seu motorista para a sede da Sociedade Propagadora de Belas Artes, órgão responsável pela administração do Liceu de Artes e Ofícios e da Faculdade Béthencourt da Silva. Lá, reúne-se com funcionários, sugere novos cursos e dita cartas reivindicatórias. "Gosto de ficar a par de tudo", diz ele, presidente da entidade há 62 anos. Formado em direito e contabilidade, Sylvio encantou-se pelo ensino. Não dá mais aulas de história da civilização ou economia política como outrora, mas mantém pulso firme à frente das instituições, que reúnem mais de 1 000 alunos. Na tarefa da dupla gestão, o professor conta com a ajuda em tempo integral das duas filhas: uma é vice-presidente do Liceu e a outra dirige a faculdade. Sylvio tem mais três filhos, dez netos e onze bisnetos. O diploma de advogado foi usado pouco tempo atrás. Aos 98 anos, esteve na 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio como representante da SPBA – e ganhou a causa. Ele caminha meia hora diariamente, de preferência nos jardins do Palácio do Catete. Antes de voltar para casa, costuma passar pelo Clube da Boa Leitura, no Flamengo, onde pega livros gravados em fita cassete, uma vez que a vista cansada dificulta a leitura. "Não posso deixar o corpo e o cérebro parados."

 

João Havelange, presidente de honra da Fifa, 91 anos

 
Fernando Lemos
"Quero estar na Copa de 2010. Será a primeira competição esportiva em escala mundial disputada na África"

Todos os dias, João Havelange cumpre um ritual de oito décadas, iniciado bem antes de sua participação como atleta nas Olimpíadas de Berlim, em 1936. Às 6h30, ele mergulha na piscina do Country Clube, em Ipanema, e alterna braçadas na água durante uma hora, perfazendo a distância de 1 500 metros. O hábito explica sua forma altiva e também a disposição que tem para fazer planos. Sua próxima meta é assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. "É a primeira competição esportiva em escala mundial disputada na África", explica. "Quero estar lá. Será minha última missão na Fifa." Aos 91 anos, Havelange é o presidente de honra da Federação Internacional de Futebol, à frente da qual reinou por um quarto de século, e um ativo conselheiro de seu sucessor, o suíço Joseph Blatter.

A natação é uma das poucas rotinas adquiridas por alguém que calcula ter acumulado 27 000 horas de vôo pelos quatro cantos do mundo – um total de mais de três anos dentro de avião –, fruto das visitas constantes aos 186 países-membros da Fifa. Atualmente, ele mora com a mulher, Ana Maria, num apart com vista para o mar de Ipanema, onde costuma receber a visita da filha, três netos e três bisnetos. "Hoje, não posso mais manter o ritmo", lamenta. Será? No dia 14, embarca para mais um giro pela Europa e, em 2008, pretende ir a Pequim para ver as Olimpíadas. "Parar é morrer", diz.

 

Leônidas Côrtes, médico, 100 anos

 
Fernando Lemos
"O médico é um profissional diferente dos outros. A medicina deve ser sacerdotal"

O passo miúdo, pé ante pé, percorre os corredores da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Desde 1927, o médico Leônidas Côrtes vai ao hospital toda manhã, inclusive nos fins de semana. Antes de chegar a sua sala, ele checa o livro dos plantonistas. De vez em quando, dá uma passada no centro cirúrgico. Aos 100 anos, o diretor clínico da casa é testemunha dos grandes acontecimentos e metamorfoses do século XX. "O progresso da medicina é formidável", conta, com seu filete de voz. Ressalta ter visto as duas guerras mundiais e a Revolução de 30. Na hora de citar um presidente da República, abre o escaninho da memória e destaca dois deles: Washington Luís e Getúlio Vargas, dos longínquos anos 20 e 30. Cirurgião especializado em endocrinologia, ele operou até os 80 anos. "Abusei do direito de trabalhar", reconhece o doutor, cuja vocação para o ofício vem de tempos remotos. "O médico é um profissional diferente dos outros. A medicina deve ser sacerdotal." Viúvo e sem filhos, ele mora em Copacabana com duas empregadas. Sua dieta consiste só em se privar de excessos. "Como explicar minha longevidade? Não sei por que Deus me conservou até os 100 anos."

 

Maria Celina Flexa Ribeiro, decoradora,
91 anos

 
Fernando Lemos
"A idade no papel não existe, é mera referência. Importa o que a pessoa sente, e eu me sinto bem"

É difícil conseguir uma brecha na agenda da decoradora Maria Celina Flexa Ribeiro. Com 91 anos, ela dispensa bengala e óculos e não pára quieta. "Estou sempre ocupada", gaba-se. Diariamente, reúne-se com o contador que cuida de seus imóveis. Faz exercícios três dias por semana. Almoça fora de segunda a sexta com amigas. Recebe em casa para jantares semanais, pelo menos duas vezes. E é assídua do Teatro Municipal. Fechou o escritório de decoração há vinte anos, mas está sempre pronta para dar dicas aos amigos. Ela decorou o Hotel Nacional de Brasília e a casa do ex-presidente Juscelino Kubitschek no Rio. "A idade no papel não existe, é mera referência", ressalta. "O que importa é o que a pessoa sente, e eu me sinto bem." Filha de um empresário, ela foi criada entre Rio e Paris. Casou-se aos 17 anos, quando ainda se chamava Maria Celina Simon, num enlace que durou doze anos. "Eu me separei e fui trabalhar, numa época em que essas coisas eram raras entre mulheres da sociedade", lembra. Depois se casou com o industrial Eugênio Lage. Viúva, trocou alianças pela terceira vez, aos 70 anos, com o empresário Carlos Flexa Ribeiro. Tem três filhos, onze netos, doze bisnetos e disposição de quem quer continuar curtindo a vida por muito tempo.

 

Oscar Niemeyer, arquiteto, 99 anos

 
Fernando Lemos
"Detesto essa conversa de centenário,
que recuso e contesto. Costumo dizer
que tenho 60 anos, que ainda faço
tudo o que fazia na época"

As luzes acesas na cobertura do Edifício Ypiranga, de frente para o mar de Copacabana, dão pista de que Oscar Niemeyer está debruçado sobre a prancheta até tarde. Perto de completar 100 anos, em 15 de dezembro, o mais consagrado arquiteto brasileiro vai diariamente ao escritório e se nega a dar importância à idade. "Detesto essa conversa de centenário, que recuso e contesto", afirma. "Costumo dizer que tenho 60 anos, que ainda faço tudo o que fazia na época." Embora caminhe com dificuldade devido a uma cirurgia no quadril, a disposição para criar é a de sempre. O arquiteto de Brasília, que deu leveza ao concreto armado, concluiu na semana passada mais um monumental projeto para a capital da República. É uma praça destinada a espetáculos populares, com capacidade para 40 000 pessoas e uma cobertura de concreto com 120 metros de vão. "A arquitetura é coisa muito pessoal, daí elaborar sozinho a parte criativa", explica. O desenvolvimento, ele delega a outros escritórios. Niemeyer ainda projeta um novo centro administrativo para o governo de Minas, um museu no Chile, um centro aquático na Alemanha, um teatro na Itália e um museu na Espanha. Recusa-se a tirar férias. Quando não está projetando, bate longos papos sobre política com amigos ou tem aulas de cosmologia e filosofia – montou um grupo de estudo no escritório há cinco anos. "Detesto a figura do especialista, preocupado apenas com os assuntos de sua profissão e sem condições de enfrentar este mundo injusto", diz. Niemeyer mora em Ipanema e gosta de ler principalmente histórias policiais e coletâneas de cartas. Foi casado por 76 anos com Annita, que morreu em 2004. No ano passado, casou-se com Vera Lúcia Cabreira, 61 anos, sua secretária há trinta. Sempre que lhe perguntam sobre o futuro, recorre a uma mesma frase: "A vida é uma mulher do lado, e seja o que Deus quiser".

         
     

 

 
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