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PERFIL
Eles são bons de briga Carisma de Tico transforma Detonautas
em sucesso no Rio Cristina Grillo e Gustav Autran
Fotos
André Nazareth/Strana
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vocalista Tico Santa Cruz e
suas tatuagens: ar de bad boy e
firmeza para controlar hordas de
adolescentes inquietos |
No
sábado à noite, uma multidão de garotos com idade média
em torno dos 16 anos se acotovela na pista para assistir à estréia
da banda Detonautas no Canecão. Uma bela modelo, de shortinho e top, atravessa
o palco com uma placa que anuncia o início da apresentação.
É saudada com xingamentos. A cena se repete pouco depois. Tico Santa Cruz,
o moço tatuado e cheio de piercings das fotos ao lado, não gosta.
"Do que é mesmo que vocês estão chamando a moça? Eu
não ouvi direito", pergunta. Silêncio constrangido na platéia.
"Ela vai voltar aqui para eu entender o que vocês estão gritando,
tá bom?" Em vez do palavrão que começa com p, a moça
é recebida aos gritos de "gostosa". "Ah, agora eu ouvi. Achei que vocês
estavam gritando outra coisa", saúda Tico. Não foi a primeira vez
que o líder dos Detonautas controlou com mão firme seu público.
Em maio, a banda tocava para um público estimado em 30.000 pessoas em um
festival no terreno onde aconteceu o Rock in Rio, quando, de repente, estourou
uma briga. "As pessoas estão aqui para se divertir. Se vocês querem
brigar, tá na hora de irem para casa", disse Tico com voz firme. Conseguiu
acalmar os ânimos. Nos
shows, ele costuma dar uma chamada na garotada que dirige depois de beber e mostra
imagens de vítimas do trânsito antes de apresentar o hit O Dia
que Não Terminou. Com personalidade forte e liderança que o
fazem controlar turbas de adolescentes inquietos, Tico, 26 anos, é o motor
que levou um grupo de seis rapazes com experiência musical próxima
de zero a se transformar nos queridinhos da meninada carioca. "No início
era o caos, né?", conta, lembrando os idos de 1997, quando conheceu o agora
baixista Tchello em uma sala de bate-papo na internet. Tchello trabalhava em uma
pousada na Bahia. Tico perambulava pelos chats. Como qualquer garoto saindo da
adolescência, queriam montar uma banda. Nenhum dos dois sabia tocar instrumento
algum, mas isso era um detalhe irrelevante. Tchello veio para o Rio, arrumaram
baterista e guitarrista e partiram para o estúdio. "Era nossa primeira
vez. O Tchello plugou o baixo no amplificador da guitarra. Imagina o que aconteceu
quando começamos a tocar... Uma barulheira danada. Um amigo que acompanhava
o ensaio me chamou num canto e disse 'Aí, bicho, isso não vai dar
em nada'.". Erro de avaliação. O primeiro CD, Detonautas Roque
Clube, lançado em 2002, vendeu 85.000 cópias. O segundo, o recém-lançado
Roque Marciano, 35.000 até agora.  | | A
banda (a partir da esq.): Renato, Neto, Tico, Fabio, Tchello e Cléston
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Daquela
noite sobraram os dois fundadores. Os ensaios que enlouqueciam os técnicos
de som dos estúdios continuaram. Um dia apareceu Renato, tecladista que
queria ser guitarrista queria tanto que já tinha até comprado
o instrumento, apesar de não saber tocar. Depois veio Netinho, violonista
clássico que durante o dia trabalhava de terno e gravata como gerente de
vendas de uma empresa de telefonia e chegava assim para os ensaios. Mais tarde
veio Fabinho, para substituir o baterista que achou mais seguro continuar na faculdade
de engenharia. O percussionista e DJ Cléston foi o último
e o mais experiente: tocava com Gabriel, o Pensador, para quem Tico, entre outros
bicos, trabalhava como segurança e faz-tudo em shows. "Ele sempre teve
muita disposição para o trabalho. Organizava os fãs no camarim,
filmava os shows, até participou de um clipe meu quando era bem moleque",
relembra Gabriel. "Tive
trabalhos pouco convencionais. Nunca fui aceito para ser vendedor de loja. Deve
ser por causa do meu visual, né?", diz, mostrando as várias tatuagens.
Tantas que já perdeu a conta. "É mais fácil dizer que tenho
70% do corpo tatuado". Tatuado e cheio de piercings, Tico ajudava a mãe
a animar festas pela cidade, alugando um aparelho de videokê. "No início
eu só anotava os pedidos e programava a máquina, mas se precisasse
animar mais a festa eu também cantava, de Zizi Possi a Fábio Júnior.
Só não cantava axé e pagode, porque ninguém merece",
conta. Ganhou mais do que dinheiro. "Foi com o videokê que eu aprendi a
cantar, a colocar a voz melhor", conta o vocalista dos Detonautas. A voz mudou,
o temperamento forte continua o mesmo. "Outro dia parei um show porque tinha umas
meninas gritando 'lindo', 'gostosão'. Isso não é o espírito
do rock." A garotada que se prepare. Tico vai continuar mandando bronca.
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