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4 de agosto de 2004
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Eles são bons de briga

Carisma de Tico transforma Detonautas em sucesso no Rio

Cristina Grillo e Gustav Autran

 
Fotos André Nazareth/Strana

O vocalista Tico Santa Cruz e suas tatuagens: ar de bad boy e firmeza para controlar hordas de adolescentes inquietos

No sábado à noite, uma multidão de garotos com idade média em torno dos 16 anos se acotovela na pista para assistir à estréia da banda Detonautas no Canecão. Uma bela modelo, de shortinho e top, atravessa o palco com uma placa que anuncia o início da apresentação. É saudada com xingamentos. A cena se repete pouco depois. Tico Santa Cruz, o moço tatuado e cheio de piercings das fotos ao lado, não gosta. "Do que é mesmo que vocês estão chamando a moça? Eu não ouvi direito", pergunta. Silêncio constrangido na platéia. "Ela vai voltar aqui para eu entender o que vocês estão gritando, tá bom?" Em vez do palavrão que começa com p, a moça é recebida aos gritos de "gostosa". "Ah, agora eu ouvi. Achei que vocês estavam gritando outra coisa", saúda Tico. Não foi a primeira vez que o líder dos Detonautas controlou com mão firme seu público. Em maio, a banda tocava para um público estimado em 30.000 pessoas em um festival no terreno onde aconteceu o Rock in Rio, quando, de repente, estourou uma briga. "As pessoas estão aqui para se divertir. Se vocês querem brigar, tá na hora de irem para casa", disse Tico com voz firme. Conseguiu acalmar os ânimos.

Nos shows, ele costuma dar uma chamada na garotada que dirige depois de beber e mostra imagens de vítimas do trânsito antes de apresentar o hit O Dia que Não Terminou. Com personalidade forte e liderança que o fazem controlar turbas de adolescentes inquietos, Tico, 26 anos, é o motor que levou um grupo de seis rapazes com experiência musical próxima de zero a se transformar nos queridinhos da meninada carioca. "No início era o caos, né?", conta, lembrando os idos de 1997, quando conheceu o agora baixista Tchello em uma sala de bate-papo na internet. Tchello trabalhava em uma pousada na Bahia. Tico perambulava pelos chats. Como qualquer garoto saindo da adolescência, queriam montar uma banda. Nenhum dos dois sabia tocar instrumento algum, mas isso era um detalhe irrelevante. Tchello veio para o Rio, arrumaram baterista e guitarrista e partiram para o estúdio. "Era nossa primeira vez. O Tchello plugou o baixo no amplificador da guitarra. Imagina o que aconteceu quando começamos a tocar... Uma barulheira danada. Um amigo que acompanhava o ensaio me chamou num canto e disse 'Aí, bicho, isso não vai dar em nada'.". Erro de avaliação. O primeiro CD, Detonautas Roque Clube, lançado em 2002, vendeu 85.000 cópias. O segundo, o recém-lançado Roque Marciano, 35.000 até agora.

 

A banda (a partir da esq.): Renato, Neto, Tico, Fabio, Tchello e Cléston

Daquela noite sobraram os dois fundadores. Os ensaios que enlouqueciam os técnicos de som dos estúdios continuaram. Um dia apareceu Renato, tecladista que queria ser guitarrista – queria tanto que já tinha até comprado o instrumento, apesar de não saber tocar. Depois veio Netinho, violonista clássico que durante o dia trabalhava de terno e gravata como gerente de vendas de uma empresa de telefonia e chegava assim para os ensaios. Mais tarde veio Fabinho, para substituir o baterista que achou mais seguro continuar na faculdade de engenharia. O percussionista e DJ Cléston foi o último – e o mais experiente: tocava com Gabriel, o Pensador, para quem Tico, entre outros bicos, trabalhava como segurança e faz-tudo em shows. "Ele sempre teve muita disposição para o trabalho. Organizava os fãs no camarim, filmava os shows, até participou de um clipe meu quando era bem moleque", relembra Gabriel.

"Tive trabalhos pouco convencionais. Nunca fui aceito para ser vendedor de loja. Deve ser por causa do meu visual, né?", diz, mostrando as várias tatuagens. Tantas que já perdeu a conta. "É mais fácil dizer que tenho 70% do corpo tatuado". Tatuado e cheio de piercings, Tico ajudava a mãe a animar festas pela cidade, alugando um aparelho de videokê. "No início eu só anotava os pedidos e programava a máquina, mas se precisasse animar mais a festa eu também cantava, de Zizi Possi a Fábio Júnior. Só não cantava axé e pagode, porque ninguém merece", conta. Ganhou mais do que dinheiro. "Foi com o videokê que eu aprendi a cantar, a colocar a voz melhor", conta o vocalista dos Detonautas. A voz mudou, o temperamento forte continua o mesmo. "Outro dia parei um show porque tinha umas meninas gritando 'lindo', 'gostosão'. Isso não é o espírito do rock." A garotada que se prepare. Tico vai continuar mandando bronca.

     
  
   

 

 
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