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4 de agosto de 2004
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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Confidentes

Manoel Carlos

Mais cedo ou mais tarde nos arrependemos das confidências, ainda que feitas ao mais fiel e sincero dos amigos. Mas também sabemos que é difícil segurar um segredo, quando ele atiça a nossa vaidade, como, por exemplo, o de estar apaixonado por uma linda mulher e ser correspondido. Mas os homens não fazem confidências com facilidade. Contamos vantagem, exageramos e até mentimos, mas raramente entregamos o ouro ao bandido, mesmo que esse bandido tenha a aparência angelical de um... fiel confidente! Já as mulheres... Ah, as mulheres adoram chamar uma amiga para um canto e declarar, sofregamente:

– Estou apaixonada, mas ninguém sabe nem pode saber. Só vou contar pra você!

Mas por que estou falando sobre confidentes? Lá vem ele com mais uma história, dirão meus prováveis leitores. Pois é isso mesmo. Isabel me procurou, desolada:

– Confiei numa amiga de muitos anos, abri meu coração com ela, lavei a alma, fiz dela uma confidente e ela teve a coragem de...

E desabou em sentidas lágrimas, sem completar o que tanto a fazia sofrer.

– Coragem de quê? O que aconteceu? Fala! – insisti eu, amparando-a.

– Ela me traiu – disse com dificuldade.

Como sei que Isabel mantém um romance com homem casado, desses que vivem prometendo separar-se da esposa mas que nunca se separam, imaginei o que seria uma traição:

– Já sei. Sua amiga contou pra mulher dele sobre o romance de vocês dois?

– Não! Isso seria o de menos, talvez até bom, pois ia apressar a separação dele. Foi pior!

– Pior?

– Muitíssimo pior! Ela está de caso com ele!

Não me surpreendi. Nada me espanta no ser humano, principalmente nas mulheres. Afinal, já escrevi sobre tudo isso. Mulheres que amam demais, que amam de menos, que não amam! Mulheres que enganam, que são enganadas, que mentem e que, quando falam a verdade, muitas vezes quebram a cara. Já ouvi de mais de uma mulher a terrível sentença:

– Fui sincera e honesta. Me danei! Homem não merece a verdade!

Mas voltemos à Isabel. Se não fiquei surpreso, como já disse, me enchi de piedade, pois se trata de uma amiga maravilhosa, incapaz de magoar alguém.

– Ela era a minha melhor amiga, minha única confidente. Toda a alegria que eu sentia no amor dividia com ela. Contava como ele era maravilhoso na cama, de como sabia fazer uma mulher feliz!

– Você fez propaganda demais, ela não resistiu.

– E pra ele eu também falava de como ela era bonita, sensual, inteligente.

– E você, aí, apresentou um ao outro?

– Essa foi a minha burrice total. Começamos a sair juntos, os três, para o cinema, o teatro, os restaurantes. E ríamos das mesmas coisas, tínhamos os mesmos gostos e... Ah, meu Deus, como é que isso foi acontecer?

– Mas era tão previsível. Você praticamente jogou um nos braços do outro!

Foi tudo que eu pude dizer diante das sentidas lágrimas de Isabel. Era um fato consumado. Afinal, ela não foi a primeira nem será a última a perder o amante para a melhor amiga. Para a confidente!

***

Essa história aconteceu há três meses. Nos encontramos no início desta semana. Isabel já exibindo um leve sorriso. E foi direto ao assunto, sem que eu precisasse perguntar nada:

– Estão juntos os dois. Já me disseram até que vão se casar. E querem ter um casal de filhos. Até nomes já escolheram: Bruno e Bianca. Os nomes que eu queria para os meus filhos com ele. Bem, pelo menos não foi um romance passageiro, que me feriu de graça. Não. Parece mesmo que eles têm futuro.

– Mas e você, menina? Tá bonita, sorrindo, olhos abertos. Feliz!

– É, tudo passa. Não cicatrizou ainda, mas... Já estou até namorando!

– Ah, essa é uma boa notícia. Mas fala um pouco dele.

E Isabel foi objetiva, até um pouco rude:

– Ah, não! Nem para o padre, no confessionário, eu dou a ficha! E muito menos apresento pra ninguém! Nem pra homem! Confidentes, nunca mais! E agora tchau, que ele vem vindo.

E seguiu ao encontro do novo namorado. Fui discreto. Nem sequer arrisquei um olhar. Segui meu caminho, recitando baixinho os versos do poeta Júlio César da Silva, que servem para fechar esta crônica sentimental e um tanto melancólica.

 

"Cultivas uma amiga, certamente,
para que as tuas confidências ouça,
e andas por toda parte ao lado dela.
Embora amiga, embora confidente,
nunca a percas de vista, se for moça,
e não lhe creias muito, se for bela.

 

Observa, sempre atenta e a cada instante,
As mais leves minúcias do seu gesto;
tudo que ela fizer, olha e investiga,
porque, sem que o percebas, teu amante
goza, às ocultas, um sabor de incesto
no desejo que tem por tua amiga!"

     
   

 

 
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