|
CRÔNICA
Confidentes Manoel Carlos
Mais cedo ou mais
tarde nos arrependemos das confidências, ainda que feitas ao mais fiel e
sincero dos amigos. Mas também sabemos que é difícil segurar
um segredo, quando ele atiça a nossa vaidade, como, por exemplo, o de estar
apaixonado por uma linda mulher e ser correspondido. Mas os homens não
fazem confidências com facilidade. Contamos vantagem, exageramos e até
mentimos, mas raramente entregamos o ouro ao bandido, mesmo que esse bandido tenha
a aparência angelical de um... fiel confidente! Já as mulheres...
Ah, as mulheres adoram chamar uma amiga para um canto e declarar, sofregamente:
Estou apaixonada,
mas ninguém sabe nem pode saber. Só vou contar pra você!
Mas por que estou
falando sobre confidentes? Lá vem ele com mais uma história, dirão
meus prováveis leitores. Pois é isso mesmo. Isabel me procurou,
desolada:
Confiei numa amiga de muitos anos, abri meu coração com ela, lavei
a alma, fiz dela uma confidente e ela teve a coragem de... E
desabou em sentidas lágrimas, sem completar o que tanto a fazia sofrer.
Coragem
de quê? O que aconteceu? Fala! insisti eu, amparando-a.
Ela me traiu disse com dificuldade. Como
sei que Isabel mantém um romance com homem casado, desses que vivem prometendo
separar-se da esposa mas que nunca se separam, imaginei o que seria uma traição:
Já
sei. Sua amiga contou pra mulher dele sobre o romance de vocês dois?
Não!
Isso seria o de menos, talvez até bom, pois ia apressar a separação
dele. Foi pior!
Pior?
Muitíssimo pior! Ela está de caso com ele! Não
me surpreendi. Nada me espanta no ser humano, principalmente nas mulheres. Afinal,
já escrevi sobre tudo isso. Mulheres que amam demais, que amam de menos,
que não amam! Mulheres que enganam, que são enganadas, que mentem
e que, quando falam a verdade, muitas vezes quebram a cara. Já ouvi de
mais de uma mulher a terrível sentença:
Fui sincera e honesta. Me danei! Homem não merece a verdade!
Mas voltemos à
Isabel. Se não fiquei surpreso, como já disse, me enchi de piedade,
pois se trata de uma amiga maravilhosa, incapaz de magoar alguém.
Ela era
a minha melhor amiga, minha única confidente. Toda a alegria que eu sentia
no amor dividia com ela. Contava como ele era maravilhoso na cama, de como sabia
fazer uma mulher feliz!
Você fez propaganda demais, ela não resistiu.
E pra ele eu também falava de como ela era bonita, sensual, inteligente.
E você,
aí, apresentou um ao outro?
Essa foi a minha burrice total. Começamos a sair juntos, os três,
para o cinema, o teatro, os restaurantes. E ríamos das mesmas coisas, tínhamos
os mesmos gostos e... Ah, meu Deus, como é que isso foi acontecer?
Mas era
tão previsível. Você praticamente jogou um nos braços
do outro! Foi
tudo que eu pude dizer diante das sentidas lágrimas de Isabel. Era um fato
consumado. Afinal, ela não foi a primeira nem será a última
a perder o amante para a melhor amiga. Para a confidente!
*** Essa
história aconteceu há três meses. Nos encontramos no início
desta semana. Isabel já exibindo um leve sorriso. E foi direto ao assunto,
sem que eu precisasse perguntar nada:
Estão juntos os dois. Já me disseram até que vão se
casar. E querem ter um casal de filhos. Até nomes já escolheram:
Bruno e Bianca. Os nomes que eu queria para os meus filhos com ele. Bem, pelo
menos não foi um romance passageiro, que me feriu de graça. Não.
Parece mesmo que eles têm futuro.
Mas e você, menina? Tá bonita, sorrindo, olhos abertos. Feliz!
É,
tudo passa. Não cicatrizou ainda, mas... Já estou até namorando!
Ah, essa
é uma boa notícia. Mas fala um pouco dele. E
Isabel foi objetiva, até um pouco rude:
Ah, não! Nem para o padre, no confessionário, eu dou a ficha! E
muito menos apresento pra ninguém! Nem pra homem! Confidentes, nunca mais!
E agora tchau, que ele vem vindo. E
seguiu ao encontro do novo namorado. Fui discreto. Nem sequer arrisquei um olhar.
Segui meu caminho, recitando baixinho os versos do poeta Júlio César
da Silva, que servem para fechar esta crônica sentimental e um tanto melancólica.
"Cultivas
uma amiga, certamente, para
que as tuas confidências ouça, e
andas por toda parte ao lado dela. Embora
amiga, embora confidente, nunca
a percas de vista, se for moça, e
não lhe creias muito, se for bela.
Observa,
sempre atenta e a cada instante, As
mais leves minúcias do seu gesto; tudo
que ela fizer, olha e investiga, porque,
sem que o percebas, teu amante goza,
às ocultas, um sabor de incesto no
desejo que tem por tua amiga!" |