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CRÔNICA
Pan do Brasil é o escambau!
Tutty Vasques
Se
há uma coisa além de paz que o carioca não
tem é o instinto bairrista de se ofender com suas mazelas
expostas em roda de forasteiros. O Rio é do jeito que a gente
sabe. Por mais que exagerem aqui e ali, nenhum absurdo que se invente
sobre a desordem urbana e humana vigente na Cidade Maravilhosa soa
muito distante da realidade que nos surpreende a cada instante.
O pânico alheio não nos insulta ou hostiliza. O que
o resto do Brasil assiste com narração indignada de
William Bonner e Fátima Bernardes acontece de vez em quando
bem debaixo do nosso nariz. É isso mesmo, fazer o quê?
O carioca, aliás, é
o primeiro a esculachar o Rio quando ele merece. Um diz que São
Paulo até que não é tão feia assim,
alguém ameaça se mudar para Caxambu, muitos anunciam
que vão finalmente correr atrás do passaporte português
do bisavô... Ciente da fama a que anda fazendo jus por aí,
o Rio de Janeiro não se considera vítima de nenhuma
campanha insidiosa contra sua imagem imbatível por natureza.
Entendemos perfeitamente o pavor de quem nos observa a distância.
Explicar que medo é esse ao carioca é o mesmo que
ensinar padre a rezar missa.
Vivemos, como se sabe, na cidade
das balas perdidas, do caveirão, do Comando Vermelho, dos
bairros sitiados, do Complexo do Alemão, colisão,
arrastão, granada, corrupção, brigas de rua,
tiro de fuzil, violência no trânsito, UTIs lotadas,
guerra. Digam o que disserem sobre o inferno nosso de cada dia,
está limpo e liberado, notícia ruim é com a
gente mesmo, ainda que de vez em quando neguinho exagere na redação
das manchetes. Faz parte!
Esse papo mole todo para dizer
o seguinte: o carioca já está tão acostumado
ao papel de bandido a que sua cidade se presta na crônica
policial que nem se deu conta de que estão tentando surrupiar
o que há de bom para acontecer no balneário agora
em julho. E, já que o povo não saiu às ruas
para reclamar, abro eu aqui minha faixa de protesto contra a TV
Globo: "Pan do Brasil é o escambau!". A emissora, na contramão
até da grande imprensa paulista, decidiu nacionalizar um
gênero de evento esportivo que, historicamente, tem a chancela
da cidade que o sedia. O maior feito do basquete brasileiro
tirar o ouro dos americanos na casa deles aconteceu no Pan
de Indianápolis, em 1987. O Setembro Negro e o terror fizeram
história nas Olimpíadas de Munique (1972). Já
começaram os preparativos para as Olimpíadas de Pequim,
em 2008.
Copa do Mundo é diferente.
O futebol, até pela logística dos estádios,
tem sua festa maior realizada simultaneamente em várias cidades
de um determinado país escolhido para sede da competição.
Por isso chamamos a última de Copa da Alemanha e a próxima
de Copa da África do Sul. Trata-se de uma convenção
internacional do mundo dos esportes: o que determina o batismo nacional
ou local dos grandes certames planetários é a geografia
da disputa em questão. Quando todas as provas ocorrem em
uma mesma cidade, o evento leva o nome do município-sede.
Simples assim!
Então, por que diabos
todo programa esportivo e telejornal da TV Globo chama os Jogos
Pan-Americanos de 2007 de "Pan do Brasil"? Alguém do marketing
da emissora pode ter consultado um numerólogo ou um pai-de-santo,
sei lá, não consigo pensar em um bom motivo para não
chamar a coisa de Pan do Rio, como foi o Pan de Santo Domingo (2003)
e será o Pan de Guadalajara (2011). Será que a Globo
achou melhor não associar os Jogos ao Rio de Janeiro para
não assustar os telespectadores? Se quisesse dar maior amplitude
ao evento, então por que não chamá-lo logo
de Pan das Américas?
"Pan do Brasil", francamente,
era só o que faltava para banir de vez o Rio da editoria
de boas notícias. Pode ser a gota d'água na crise
de auto-estima que anestesia o carioca desgostoso de sua cidade.
Ei, você aí, acorda: a Globo está roubando o
Pan do Rio de Janeiro. Vamos lá, proteste, mande cartas,
e-mails, telefone para o Departamento de Esportes da emissora, procure
o Sidney Garambone em meu nome. Troque de estação
ou desligue a televisão toda vez que, no intervalo entre
uma notícia e outra sobre balas perdidas no Rio, anunciarem
o "Pan do Brasil"!
Repitam comigo: "Pan do Brasil
é o escambau!". É Pan do Rio, tanto quanto o boi-bumbá
é de Parintins e o Círio de Nazaré é
de Belém. Paixão de Cristo é a de Pernambuco,
farra do boi é lá de Santa Catarina, parada gay só
a de São Paulo, tem o Leblon do Manoel Carlos, o rodeio de
Barretos, Martinho da Vila, tutu à mineira e Ronaldinho Gaúcho.
Brasil não é denominação de origem genérica
de tudo o que acontece por aqui como quer a TV Globo na cobertura
dos Jogos Pan-Americanos 2007. Se tudo der errado, capaz de no fim
chamarem a bagunça de "Pan do Rio".
Começou o espetáculo
anual dos paus-mulatos no Jardim Botânico. Os troncos começaram
a ganhar tom dourado e nas próximas semanas vão desfolhar
até chegar àquele verde-limão com textura de
carne viva. O.k., o.k.! Confira, antes de concluir que estou viajando.
Em tempo, o pau-mulato é
uma árvore da Amazônia.
e-mail: tutty@nominimo.com.br
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