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4 de julho de 2007

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CRÔNICA

Pan do Brasil é o escambau!

Tutty Vasques

Se há uma coisa além de paz que o carioca não tem é o instinto bairrista de se ofender com suas mazelas expostas em roda de forasteiros. O Rio é do jeito que a gente sabe. Por mais que exagerem aqui e ali, nenhum absurdo que se invente sobre a desordem urbana e humana vigente na Cidade Maravilhosa soa muito distante da realidade que nos surpreende a cada instante. O pânico alheio não nos insulta ou hostiliza. O que o resto do Brasil assiste com narração indignada de William Bonner e Fátima Bernardes acontece de vez em quando bem debaixo do nosso nariz. É isso mesmo, fazer o quê?

O carioca, aliás, é o primeiro a esculachar o Rio quando ele merece. Um diz que São Paulo até que não é tão feia assim, alguém ameaça se mudar para Caxambu, muitos anunciam que vão finalmente correr atrás do passaporte português do bisavô... Ciente da fama a que anda fazendo jus por aí, o Rio de Janeiro não se considera vítima de nenhuma campanha insidiosa contra sua imagem imbatível por natureza. Entendemos perfeitamente o pavor de quem nos observa a distância. Explicar que medo é esse ao carioca é o mesmo que ensinar padre a rezar missa.

Vivemos, como se sabe, na cidade das balas perdidas, do caveirão, do Comando Vermelho, dos bairros sitiados, do Complexo do Alemão, colisão, arrastão, granada, corrupção, brigas de rua, tiro de fuzil, violência no trânsito, UTIs lotadas, guerra. Digam o que disserem sobre o inferno nosso de cada dia, está limpo e liberado, notícia ruim é com a gente mesmo, ainda que de vez em quando neguinho exagere na redação das manchetes. Faz parte!

Esse papo mole todo para dizer o seguinte: o carioca já está tão acostumado ao papel de bandido a que sua cidade se presta na crônica policial que nem se deu conta de que estão tentando surrupiar o que há de bom para acontecer no balneário agora em julho. E, já que o povo não saiu às ruas para reclamar, abro eu aqui minha faixa de protesto contra a TV Globo: "Pan do Brasil é o escambau!". A emissora, na contramão até da grande imprensa paulista, decidiu nacionalizar um gênero de evento esportivo que, historicamente, tem a chancela da cidade que o sedia. O maior feito do basquete brasileiro – tirar o ouro dos americanos na casa deles – aconteceu no Pan de Indianápolis, em 1987. O Setembro Negro e o terror fizeram história nas Olimpíadas de Munique (1972). Já começaram os preparativos para as Olimpíadas de Pequim, em 2008.

Copa do Mundo é diferente. O futebol, até pela logística dos estádios, tem sua festa maior realizada simultaneamente em várias cidades de um determinado país escolhido para sede da competição. Por isso chamamos a última de Copa da Alemanha e a próxima de Copa da África do Sul. Trata-se de uma convenção internacional do mundo dos esportes: o que determina o batismo nacional ou local dos grandes certames planetários é a geografia da disputa em questão. Quando todas as provas ocorrem em uma mesma cidade, o evento leva o nome do município-sede. Simples assim!

Então, por que diabos todo programa esportivo e telejornal da TV Globo chama os Jogos Pan-Americanos de 2007 de "Pan do Brasil"? Alguém do marketing da emissora pode ter consultado um numerólogo ou um pai-de-santo, sei lá, não consigo pensar em um bom motivo para não chamar a coisa de Pan do Rio, como foi o Pan de Santo Domingo (2003) e será o Pan de Guadalajara (2011). Será que a Globo achou melhor não associar os Jogos ao Rio de Janeiro para não assustar os telespectadores? Se quisesse dar maior amplitude ao evento, então por que não chamá-lo logo de Pan das Américas?

"Pan do Brasil", francamente, era só o que faltava para banir de vez o Rio da editoria de boas notícias. Pode ser a gota d'água na crise de auto-estima que anestesia o carioca desgostoso de sua cidade. Ei, você aí, acorda: a Globo está roubando o Pan do Rio de Janeiro. Vamos lá, proteste, mande cartas, e-mails, telefone para o Departamento de Esportes da emissora, procure o Sidney Garambone em meu nome. Troque de estação ou desligue a televisão toda vez que, no intervalo entre uma notícia e outra sobre balas perdidas no Rio, anunciarem o "Pan do Brasil"!

Repitam comigo: "Pan do Brasil é o escambau!". É Pan do Rio, tanto quanto o boi-bumbá é de Parintins e o Círio de Nazaré é de Belém. Paixão de Cristo é a de Pernambuco, farra do boi é lá de Santa Catarina, parada gay só a de São Paulo, tem o Leblon do Manoel Carlos, o rodeio de Barretos, Martinho da Vila, tutu à mineira e Ronaldinho Gaúcho. Brasil não é denominação de origem genérica de tudo o que acontece por aqui como quer a TV Globo na cobertura dos Jogos Pan-Americanos 2007. Se tudo der errado, capaz de no fim chamarem a bagunça de "Pan do Rio".

Começou o espetáculo anual dos paus-mulatos no Jardim Botânico. Os troncos começaram a ganhar tom dourado e nas próximas semanas vão desfolhar até chegar àquele verde-limão com textura de carne viva. O.k., o.k.! Confira, antes de concluir que estou viajando.

Em tempo, o pau-mulato é uma árvore da Amazônia.


e-mail: tutty@nominimo.com.br

         
     

 

 
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