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COMPORTAMENTO
Uma cidade alegre
O Rio consolida a imagem de território
amigável ao público gay e fatura com isso
Fátima Sá e Gustavo
Autran
Selmy Yassuda
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"Vir para cá
é o máximo do chique"
O estilista Carlos Tufvesson (de casaco
cinza) e o arquiteto André Piva conheceram-se há
treze anos num restaurante GLS, em Botafogo. Juntos desde
então, eles fizeram questão de ser apresentados
como um casal no livro Sociedade Brasileira
o quem-é-quem das altas-rodas cariocas. Entre os locais
que freqüentam está o Bar d'Hôtel, no Leblon
(foto). "Há três anos o Rio entrou no
calendário gay internacional", comemora Tufvesson.
"Hoje, nos Estados Unidos, vir ao Rio é o máximo
do chique. Chega a ser engraçado."
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A notícia
agita o circuito GLS carioca. Na próxima sexta (6), a The
Week megaclube gay de São Paulo, que recebe mais de
3 000 pessoas por noite abre uma filial na zona portuária
do Rio. Uma semana depois, os donos da nova boate trazem o cantor
inglês Boy George para uma única apresentação.
A escolha da cidade é estratégica. Nos últimos
anos, o Rio firmou-se como um destino turístico muito procurado
por gays e lésbicas de todo o mundo. São visitantes
dos Estados Unidos, da Alemanha e da Inglaterra, sobretudo, que
desembarcam aqui dispostos a curtir o espírito descontraído
que consagrou a capital como gay friendly rótulo que
descreve os locais simpáticos a homossexuais. Além
dos estrangeiros que vêm e vão, estima-se um contingente
de mais de 600 000 gays e lésbicas na metrópole
10% da população, índice usado por ONGs internacionais
para quantificar os homossexuais.
Bem-sucedidos profissionalmente,
o estilista Carlos Tufvesson e o arquiteto André Piva estão
entre eles. Juntos há treze anos, vivem numa casa na Lagoa
projetada por Piva. "Meus amigos e minha família lidam bem
com isso porque sabem que ele me faz feliz", diz o estilista. Nem
sempre é assim. Temendo a reprovação familiar
e o preconceito no ambiente de trabalho, muitos gays permanecem
na sombra. "A imensa maioria não saiu do armário",
afirma o antropólogo Luiz Mott, referindo-se à expressão
usada pelos próprios homossexuais para definir o ato de se
assumir publicamente. "As mulheres assumem menos ainda. Temem mais
o preconceito." Nas últimas duas semanas, Veja Rio
procurou vários casais gays para falar de sua vida na cidade.
Nenhum casal feminino quis admitir publicamente seu relacionamento.
Apesar disso, uma pesquisa do Ibope divulgada no início do
ano mostra que o carioca, de modo geral, convive bem com a diversidade.
Ao todo, 71% dos entrevistados responderam que aceitam as pessoas
como elas são, não importando sua orientação
sexual.
Selmy Yassuda
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Versão carioca
de sucesso paulistano
O empresário André
Almada é um dos sócios da The Week carioca.
Com capacidade para 2
000 pessoas, a filial da boate paulistana (abaixo)
vai ocupar dois galpões tombados no bairro da Saúde,
zona portuária. Terá pista de dança,
lounge, três bares, equipamento de som importado
e área vip. A casa poderá ser alugada para eventos.
"Recebemos muitos cariocas em São Paulo, e eles reclamavam
da carência de boas opções noturnas no
Rio", conta Almada.
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Mario Rodrigues
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O promoter Fábio Monteiro
foi um dos primeiros a apostar no potencial econômico do público
GLS. Há catorze anos organizou em seu apartamento, em Copacabana,
uma festa barulhenta que reuniu 120 pessoas e lhe custou um abaixo-assinado
dos moradores para expulsá-lo do prédio. O evento
cresceu. No Carnaval passado, 3 000 pessoas foram à Fundição
Progresso, na Lapa, para ferver na X-Demente, o nome do agito criado
por Monteiro. Era um público formado por gays, lésbicas
e simpatizantes nessa ordem. "Antes os gays ficavam confinados
no gueto e em inferninhos", avalia o promoter. "Hoje a X-Demente
lota grandes espaços, como a Marina da Glória e a
Fundição."
A convivência entre pessoas
de diferentes orientações sexuais na cidade foi o
que mais chamou a atenção do cônsul-geral britânico
Tim Flear, que mora no Rio desde o ano passado. Vivendo há
treze anos com o australiano Christopher Curtain, Flear diz que
se sente muito à vontade aqui: "Ser gay é apenas um
fato da nossa vida. Vamos juntos a cafés, bares e boates
freqüentados por todo tipo de gente, sem sofrer nenhum constrangimento".
Para evitar saia-justa, o cônsul fez questão de tornar
pública sua orientação sexual logo que foi
empossado. "Assim ninguém pergunta mais sobre a minha esposa
na hora de me convidar para um evento", explica Flear. A agenda
do cônsul e seu companheiro é eclética. Inclui
o restaurante 00, na Gávea, e a Praia de Ipanema, ora no
point gay em frente à Rua Farme de Amoedo, ora nas areias
do Posto 9. Outro de seus programas favoritos é a feira de
antiguidades da Rua do Lavradio, no Centro. Flear e Curtain são
fascinados por móveis brasileiros dos anos 50 e 60. De tanto
circular por lugares como esses, Curtain, que é produtor
de festas, foi convidado a escrever sobre o circuito GLS carioca.
As dicas do australiano estarão numa edição
especial da revista inglesa Time Out sobre o Rio de Janeiro,
que será publicada no fim do ano. Entre os endereços
citados, destaca-se o 00. "Nosso público gay é exigente,
bem-educado e sabe se divertir", descreve Celinho Vidal, gerente
de eventos da casa. "As mulheres também gostam de dançar
aqui porque não correm o risco de levar cantadas grosseiras
ou ser abordadas por pitboys violentos."
Selmy Yassuda
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Consumidores com
perfil sofisticado
O restaurante Copa Café (foto)
é um dos endereços favoritos de Marco Maia
(à esq.), 51 anos, e Luciano Canale, 39. Companheiros
e sócios na grife Sta. Ephigênia, eles circulam
muito por Copacabana, onde moram e mantêm ateliê.
"A gente adora sair para comer", diz Marco enquanto beberica
um drinque cosmopolitan. Carioca, ele afirma que só
sentiu preconceito por ser gay durante o regime militar. Luciano,
que é gaúcho, garante que nunca sofreu rejeição.
"A cidade é muito aberta."
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No arco-íris do Rio figuram, ainda, clubes noturnos como
os disputados Dama de Ferro e Galeria Café, ambos em Ipanema,
e Fosfobox, em Copacabana. O Galeria, que completa dez anos em dezembro,
já tem projeto pronto para se expandir antes do próximo
verão. E o Fosfobox inaugura até o fim do mês
mais uma pista de dança. "O Rio está cada vez mais
aberto à diversidade sexual", acredita Cabbet Araújo,
um dos sócios do clube de Copacabana. "Os personagens gays
das novelas ajudaram a romper esses tabus." Acostumado a incluir
casais homossexuais em suas tramas, o novelista Gilberto Braga acha
que o público recebe bem os personagens. "Os reacionários
me parecem minoria", diz Braga, que vive há 34 anos com o
decorador de interiores Edgar Moura Brasil.
À medida que o preconceito
diminui, os empresários cariocas começam a despertar
para o potencial desse segmento. Em agosto, Eduardo Lima, dono da
agência G Travel, especializada em turismo GLS, abre um spa
exclusivo para gays na Rua Teixeira de Melo, em Ipanema. Os números
confirmam a boa aposta. Um estudo realizado há menos de um
mês pela empresa de pesquisa de mercado Insearch revelou que
o gay gasta até 40% mais com lazer do que um chefe de família
convencional. A empresa ouviu 5 315 homossexuais de dezessete estados
brasileiros. Como, em sua maioria, não têm filhos,
sobra mais dinheiro para a diversão. "Adoramos jantar fora,
ir ao cinema, viajar", conta Marco Maia, companheiro e sócio
do gaúcho Luciano Canale na grife Sta. Ephigênia. Eles
costumam ir a locais refinados e caros, como o restaurante da chef
Roberta Sudbrack, no Jardim Botânico, e a Pérgula do
Copacabana Palace. Consumidores assim são a menina-dos-olhos
de empresas como a TAM Viagens. Há quatro meses, a companhia
aérea criou um departamento que organiza pacotes direcionados
ao público GLS. Desde então, quinze programas já
saíram do papel boa parte deles tendo o Rio como destino.
"As companhias de viagem estão estreitando suas relações
com esse segmento, abrindo novas perspectivas de negócios",
afirma Clovis Casemiro, gerente de vendas do setor GLS na TAM. Sua
próxima investida é motivada justamente pela inauguração
da The Week. "Temos pacotes para quem quiser conhecer a boate",
anuncia Casemiro.
Selmy Yassuda
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Sr. e sr. cônsul-geral
convidam...
O cônsul-geral britânico
Tim Flear (à esq.), 49 anos, e seu companheiro,
o produtor de festas australiano Christopher Curtain, 37,
chegaram ao Rio há quase um ano. Para evitarem constrangimentos,
apresentaram-se logo como casal. "Ninguém nos recebeu
negativamente", afirma o cônsul. Os dois acharam a cidade
bastante amistosa. Entre um e outro evento protocolar
para os quais mandam convites em nome dos dois , procuram
se divertir. Há duas semanas,
eles estiveram na The Week, em São Paulo. Estão
ansiosos pela abertura da casa carioca.
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A The Week deve impulsionar o
Rio como pólo de atração dos turistas gays
estrangeiros, que voam para cá especialmente entre dezembro
e março. Esse fluxo tem sido tão intenso que, a pedido
do prefeito Cesar Maia, pesquisadores do Departamento de Turismo
da UniverCidade realizaram neste ano o primeiro estudo sobre o assunto.
Concluíram que 75% dos gays que vêm ao Rio são
do sexo masculino, 55% têm nível superior e 60% viajam
sozinhos. Na hora de abrir a carteira, são mais generosos
do que os turistas heterossexuais. "O turista-padrão gasta
80 dólares por dia, enquanto o gay consome o dobro", compara
o professor Bayard Boiteux, um dos coordenadores da pesquisa. Para
disputarem esse consumidor, os hotéis cariocas estão
se enquadrando. Localizado na Rua Farme de Amoedo o grande
reduto gay carioca , o Ipanema Plaza Hotel tornou-se um dos
favoritos dos turistas homossexuais. "Orientamos nossos funcionários
para evitar qualquer constrangimento quando, por exemplo, pessoas
do mesmo sexo pedem um quarto com cama de casal", explica Mônica
Paixão, gerente-geral do hotel.
Apesar da convivência harmoniosa
em muitos locais da cidade, episódios de violência
continuam assustando a comunidade homossexual do Rio. No último
Carnaval, ameaças homofóbicas deixaram ativistas gays
do Grupo Arco-íris em estado de alerta. Mas nada aconteceu.
A luta contra a homofobia é um dos temas da 12ª Parada
do Orgulho GLBT (leia-se gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros)
do Rio, programada para 2 de setembro na orla de Copacabana. "Lutamos
para aprovar no Senado o projeto que torna crime a homofobia, como
o racismo", diz Márcio Alonso, do Grupo Arco-íris.
Ele calcula que mais de 1 milhão de pessoas vão participar
da parada deste ano. Entre elas, vários simpatizantes. "Sou
hétero, mas adoro a atitude libertadora dos gays", resume
a artista plástica Adriana Lima, dona do clube Dama de Ferro.
"Acho que só não sou gay por acaso", brinca.
Fotos Divulgação
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Circuito animado
Festas para o público
GLS têm abrigo fixo em concorridos espaços na
cidade. A X-Demente, criada pelo promoter Fábio Monteiro,
levou 3 000 pessoas à
Fundição Progresso (à esq.)
no Carnaval passado. Outros points gays da cidade
são o restaurante 00 (no alto, à dir.)
e o clube Fosfobox, em Copacabana, que lota nas edições
mensais da festa Oops!, comandada pelo DJ Maurício
Lopes (à dir.).
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