Publicidade
 
 


 
 



4 de julho de 2007

COMPORTAMENTO

PERFIL
MEIO AMBIENTE
MEU ESTILO
CONSUMO
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

COMPORTAMENTO

Uma cidade alegre

O Rio consolida a imagem de território amigável ao público gay – e fatura com isso

Fátima Sá e Gustavo Autran

 
Selmy Yassuda

"Vir para cá é o máximo do chique"
O estilista Carlos Tufvesson (de casaco cinza) e o arquiteto André Piva conheceram-se há treze anos num restaurante GLS, em Botafogo. Juntos desde então, eles fizeram questão de ser apresentados como um casal no livro Sociedade Brasileira – o quem-é-quem das altas-rodas cariocas. Entre os locais que freqüentam está o Bar d'Hôtel, no Leblon (foto). "Há três anos o Rio entrou no calendário gay internacional", comemora Tufvesson. "Hoje, nos Estados Unidos, vir ao Rio é o máximo do chique. Chega a ser engraçado."

A notícia agita o circuito GLS carioca. Na próxima sexta (6), a The Week – megaclube gay de São Paulo, que recebe mais de 3 000 pessoas por noite – abre uma filial na zona portuária do Rio. Uma semana depois, os donos da nova boate trazem o cantor inglês Boy George para uma única apresentação. A escolha da cidade é estratégica. Nos últimos anos, o Rio firmou-se como um destino turístico muito procurado por gays e lésbicas de todo o mundo. São visitantes dos Estados Unidos, da Alemanha e da Inglaterra, sobretudo, que desembarcam aqui dispostos a curtir o espírito descontraído que consagrou a capital como gay friendly – rótulo que descreve os locais simpáticos a homossexuais. Além dos estrangeiros que vêm e vão, estima-se um contingente de mais de 600 000 gays e lésbicas na metrópole – 10% da população, índice usado por ONGs internacionais para quantificar os homossexuais.

Bem-sucedidos profissionalmente, o estilista Carlos Tufvesson e o arquiteto André Piva estão entre eles. Juntos há treze anos, vivem numa casa na Lagoa projetada por Piva. "Meus amigos e minha família lidam bem com isso porque sabem que ele me faz feliz", diz o estilista. Nem sempre é assim. Temendo a reprovação familiar e o preconceito no ambiente de trabalho, muitos gays permanecem na sombra. "A imensa maioria não saiu do armário", afirma o antropólogo Luiz Mott, referindo-se à expressão usada pelos próprios homossexuais para definir o ato de se assumir publicamente. "As mulheres assumem menos ainda. Temem mais o preconceito." Nas últimas duas semanas, Veja Rio procurou vários casais gays para falar de sua vida na cidade. Nenhum casal feminino quis admitir publicamente seu relacionamento. Apesar disso, uma pesquisa do Ibope divulgada no início do ano mostra que o carioca, de modo geral, convive bem com a diversidade. Ao todo, 71% dos entrevistados responderam que aceitam as pessoas como elas são, não importando sua orientação sexual.

 
Selmy Yassuda

Versão carioca de sucesso paulistano
O empresário André Almada é um dos sócios da The Week carioca. Com capacidade para 2 000 pessoas, a filial da boate paulistana (abaixo) vai ocupar dois galpões tombados no bairro da Saúde, zona portuária. Terá pista de dança, lounge, três bares, equipamento de som importado e área vip. A casa poderá ser alugada para eventos. "Recebemos muitos cariocas em São Paulo, e eles reclamavam da carência de boas opções noturnas no Rio", conta Almada.

Mario Rodrigues

O promoter Fábio Monteiro foi um dos primeiros a apostar no potencial econômico do público GLS. Há catorze anos organizou em seu apartamento, em Copacabana, uma festa barulhenta que reuniu 120 pessoas e lhe custou um abaixo-assinado dos moradores para expulsá-lo do prédio. O evento cresceu. No Carnaval passado, 3 000 pessoas foram à Fundição Progresso, na Lapa, para ferver na X-Demente, o nome do agito criado por Monteiro. Era um público formado por gays, lésbicas e simpatizantes – nessa ordem. "Antes os gays ficavam confinados no gueto e em inferninhos", avalia o promoter. "Hoje a X-Demente lota grandes espaços, como a Marina da Glória e a Fundição."

A convivência entre pessoas de diferentes orientações sexuais na cidade foi o que mais chamou a atenção do cônsul-geral britânico Tim Flear, que mora no Rio desde o ano passado. Vivendo há treze anos com o australiano Christopher Curtain, Flear diz que se sente muito à vontade aqui: "Ser gay é apenas um fato da nossa vida. Vamos juntos a cafés, bares e boates freqüentados por todo tipo de gente, sem sofrer nenhum constrangimento". Para evitar saia-justa, o cônsul fez questão de tornar pública sua orientação sexual logo que foi empossado. "Assim ninguém pergunta mais sobre a minha esposa na hora de me convidar para um evento", explica Flear. A agenda do cônsul e seu companheiro é eclética. Inclui o restaurante 00, na Gávea, e a Praia de Ipanema, ora no point gay em frente à Rua Farme de Amoedo, ora nas areias do Posto 9. Outro de seus programas favoritos é a feira de antiguidades da Rua do Lavradio, no Centro. Flear e Curtain são fascinados por móveis brasileiros dos anos 50 e 60. De tanto circular por lugares como esses, Curtain, que é produtor de festas, foi convidado a escrever sobre o circuito GLS carioca. As dicas do australiano estarão numa edição especial da revista inglesa Time Out sobre o Rio de Janeiro, que será publicada no fim do ano. Entre os endereços citados, destaca-se o 00. "Nosso público gay é exigente, bem-educado e sabe se divertir", descreve Celinho Vidal, gerente de eventos da casa. "As mulheres também gostam de dançar aqui porque não correm o risco de levar cantadas grosseiras ou ser abordadas por pitboys violentos."

Selmy Yassuda

Consumidores com perfil sofisticado
O restaurante Copa Café (foto) é um dos endereços favoritos de Marco Maia (à esq.), 51 anos, e Luciano Canale, 39. Companheiros e sócios na grife Sta. Ephigênia, eles circulam muito por Copacabana, onde moram e mantêm ateliê. "A gente adora sair para comer", diz Marco enquanto beberica um drinque cosmopolitan. Carioca, ele afirma que só sentiu preconceito por ser gay durante o regime militar. Luciano, que é gaúcho, garante que nunca sofreu rejeição. "A cidade é muito aberta."


No arco-íris do Rio figuram, ainda, clubes noturnos como os disputados Dama de Ferro e Galeria Café, ambos em Ipanema, e Fosfobox, em Copacabana. O Galeria, que completa dez anos em dezembro, já tem projeto pronto para se expandir antes do próximo verão. E o Fosfobox inaugura até o fim do mês mais uma pista de dança. "O Rio está cada vez mais aberto à diversidade sexual", acredita Cabbet Araújo, um dos sócios do clube de Copacabana. "Os personagens gays das novelas ajudaram a romper esses tabus." Acostumado a incluir casais homossexuais em suas tramas, o novelista Gilberto Braga acha que o público recebe bem os personagens. "Os reacionários me parecem minoria", diz Braga, que vive há 34 anos com o decorador de interiores Edgar Moura Brasil.

À medida que o preconceito diminui, os empresários cariocas começam a despertar para o potencial desse segmento. Em agosto, Eduardo Lima, dono da agência G Travel, especializada em turismo GLS, abre um spa exclusivo para gays na Rua Teixeira de Melo, em Ipanema. Os números confirmam a boa aposta. Um estudo realizado há menos de um mês pela empresa de pesquisa de mercado Insearch revelou que o gay gasta até 40% mais com lazer do que um chefe de família convencional. A empresa ouviu 5 315 homossexuais de dezessete estados brasileiros. Como, em sua maioria, não têm filhos, sobra mais dinheiro para a diversão. "Adoramos jantar fora, ir ao cinema, viajar", conta Marco Maia, companheiro e sócio do gaúcho Luciano Canale na grife Sta. Ephigênia. Eles costumam ir a locais refinados e caros, como o restaurante da chef Roberta Sudbrack, no Jardim Botânico, e a Pérgula do Copacabana Palace. Consumidores assim são a menina-dos-olhos de empresas como a TAM Viagens. Há quatro meses, a companhia aérea criou um departamento que organiza pacotes direcionados ao público GLS. Desde então, quinze programas já saíram do papel – boa parte deles tendo o Rio como destino. "As companhias de viagem estão estreitando suas relações com esse segmento, abrindo novas perspectivas de negócios", afirma Clovis Casemiro, gerente de vendas do setor GLS na TAM. Sua próxima investida é motivada justamente pela inauguração da The Week. "Temos pacotes para quem quiser conhecer a boate", anuncia Casemiro.

 
Selmy Yassuda

Sr. e sr. cônsul-geral convidam...
O cônsul-geral britânico Tim Flear (à esq.), 49 anos, e seu companheiro, o produtor de festas australiano Christopher Curtain, 37, chegaram ao Rio há quase um ano. Para evitarem constrangimentos, apresentaram-se logo como casal. "Ninguém nos recebeu negativamente", afirma o cônsul. Os dois acharam a cidade bastante amistosa. Entre um e outro evento protocolar – para os quais mandam convites em nome dos dois –, procuram se divertir. Há duas semanas, eles estiveram na The Week, em São Paulo. Estão ansiosos pela abertura da casa carioca.

A The Week deve impulsionar o Rio como pólo de atração dos turistas gays estrangeiros, que voam para cá especialmente entre dezembro e março. Esse fluxo tem sido tão intenso que, a pedido do prefeito Cesar Maia, pesquisadores do Departamento de Turismo da UniverCidade realizaram neste ano o primeiro estudo sobre o assunto. Concluíram que 75% dos gays que vêm ao Rio são do sexo masculino, 55% têm nível superior e 60% viajam sozinhos. Na hora de abrir a carteira, são mais generosos do que os turistas heterossexuais. "O turista-padrão gasta 80 dólares por dia, enquanto o gay consome o dobro", compara o professor Bayard Boiteux, um dos coordenadores da pesquisa. Para disputarem esse consumidor, os hotéis cariocas estão se enquadrando. Localizado na Rua Farme de Amoedo – o grande reduto gay carioca –, o Ipanema Plaza Hotel tornou-se um dos favoritos dos turistas homossexuais. "Orientamos nossos funcionários para evitar qualquer constrangimento quando, por exemplo, pessoas do mesmo sexo pedem um quarto com cama de casal", explica Mônica Paixão, gerente-geral do hotel.

Apesar da convivência harmoniosa em muitos locais da cidade, episódios de violência continuam assustando a comunidade homossexual do Rio. No último Carnaval, ameaças homofóbicas deixaram ativistas gays do Grupo Arco-íris em estado de alerta. Mas nada aconteceu. A luta contra a homofobia é um dos temas da 12ª Parada do Orgulho GLBT (leia-se gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) do Rio, programada para 2 de setembro na orla de Copacabana. "Lutamos para aprovar no Senado o projeto que torna crime a homofobia, como o racismo", diz Márcio Alonso, do Grupo Arco-íris. Ele calcula que mais de 1 milhão de pessoas vão participar da parada deste ano. Entre elas, vários simpatizantes. "Sou hétero, mas adoro a atitude libertadora dos gays", resume a artista plástica Adriana Lima, dona do clube Dama de Ferro. "Acho que só não sou gay por acaso", brinca.

 
Fotos Divulgação

Circuito animado
Festas para o público GLS têm abrigo fixo em concorridos espaços na cidade. A X-Demente, criada pelo promoter Fábio Monteiro, levou 3 000 pessoas à Fundição Progresso (à esq.) no Carnaval passado. Outros points gays da cidade são o restaurante 00 (no alto, à dir.) e o clube Fosfobox, em Copacabana, que lota nas edições mensais da festa Oops!, comandada pelo DJ Maurício Lopes (à dir.).

         
     

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados