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CIDADE
O Redentor dos cariocas
Histórias de quem convive com
o monumento que pode se tornar
uma das sete novas maravilhas
do mundo
Karla Monteiro
Fábio Rossi/Agência O Globo
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Início dos anos 50 em Tessalônica, na Grécia. Ao folhear uma revista de turismo, o mecânico Nikolaos Eleftherios Dimitriadis deparou com uma foto do Cristo Redentor. Apaixonou-se e decidiu: iria ver a estátua de perto de qualquer maneira. Alguns anos depois, em 1956, desembarcou no Rio para realizar o sonho. E ficou. Fez um curso básico de fotografia, instalou-se com uma barraquinha aos pés da estátua e casou-se com uma turista mineira que havia fotografado. "Seu Nikos", como ficou conhecido, clicou turistas e visitantes no Corcovado até morrer, em 2005. Desde então os filhos Eleftherio e Elpiniki tomam conta da barraquinha. "Ele passou 49 anos aqui. Fotografou gente famosa, como Arnold Schwarzenegger. Até hoje aparecem turistas que perguntam por papai", conta Elpiniki. "Outro dia veio um argentino com o filho pequeno procurando o 'grego' para retratar a criança."
Bel Campello
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| Em maio, a cineasta Bel Noronha lança
o documentário De Braços Abertos, em que desmonta a versão de que a estátua foi um presente dos franceses. Bisneta do construtor Heitor da Silva Costa, ela lembra de ter visto, na infância, a tia escrever aos jornais sobre o papel dele na história do monumento. "Mas ela nunca era ouvida", conta Bel, que começou a pesquisar
a versão familiar há quatro anos. |
No alto do Corcovado, onde há 75 anos foi construída a estátua de 38 metros de altura, ofícios passam de pai para filho e histórias atravessam gerações. Quando tinha 7 anos, o arquiteto Jorge Hue, de 84, foi levado pelo avô, o industrial Charles Hue, para um passeio em seu Cadillac conversível. A família vivia numa mansão no Alto da Boa Vista que havia pertencido à princesa Isabel. O destino era o canteiro de obras no morro do Corcovado. "A cabeça e as mãos estavam lá, deitadas no chão", recorda. "Como qualquer criança, tive a curiosidade de galgar a palma das mãos e escalar os dedos." Nos anos seguintes, Hue visitou inúmeras vezes a estátua. Numa delas, carregou escada acima 220 degraus um de seus sete filhos no colo. "Quase tive um infarto. Subi com mais de 30 quilos nos braços." Já octogenário, foi consultor do projeto de instalação dos elevadores e escadas rolantes instalados em 2003. "Nossa preocupação era realizar uma obra com o menor impacto ambiental e visual possível", diz. "Sobrevoei de helicóptero para avaliar o que fazer e isso me fez voltar no tempo, lembrar as histórias da infância."
André Valentim/Strana
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| Quando criança, o arquiteto Jorge Hue brincou nas obras do Cristo Redentor. Anos depois, seria consultor do projeto que instalou lá escadas e elevadores. "O mais fantástico é a escolha exata do local onde fica a estátua", afirma. "Um pouco mais para trás ou para a frente e ela não seria vista de toda a cidade. E o coração fica voltado para o leste, onde nasce o Sol." |
A estátua que encantou o fotógrafo Nikos, o arquiteto Hue e milhões de turistas dos quatro cantos do planeta, concorre à eleição das sete novas maravilhas do mundo (veja o quadro), é pouco visitada pelos cariocas. A cada ano cerca de 1,8 milhão de pessoas vão até lá. Desse total, só 54.000 (ou 3%) moram no Rio. Dos turistas, 30% são brasileiros e 70% vêm do exterior. "É a nossa Torre de Babel", brinca o guia Carlos Alfredo, trinta anos de Corcovado, enquanto conduz um grupo de americanos usando um inglês que "dá para o gasto", segundo ele. "No walk fast", grita, seguindo seu caminho. Lá em cima trabalham em torno de 250 pessoas, entre funcionários da Estrada de Ferro Corcovado, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, do Parque Nacional da Tijuca e da Associação Amigos do Parque Nacional da Tijuca. A Igreja é responsável apenas pela estátua, que em 2006 ganhou o status de santuário. Atualmente missas regulares são ali celebradas, atraindo centenas de romeiros. Por enquanto, ao ar livre. A capela, que fica dentro da estátua, está sendo reformada e deve ser reaberta no fim de abril. De acordo com a arquidiocese, já começou a procura por datas para casamentos e batizados, mas as cerimônias só serão marcadas quando o dia da reabertura for confirmado. O restante da área está sob a tutela do Parque Nacional da Tijuca. Desde que foi inaugurado, em 12 de outubro de 1931, o Cristo Redentor passou por duas grandes reformas. Ambas recentes. Em 2000, ganhou nova iluminação e, em 2003, elevadores e escadas rolantes.
André Nazareth/Strana
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| Os irmãos Eleftherios, 40 anos, e Elpiniki, 42, sucederam ao pai,
o grego Nikolaos Dimitriadis, na barraquinha de fotografias aos pés
do Cristo. Eleftherios trabalha lá desde os
15 anos. Elpiniki, há menos tempo. "Como são três equipes autorizadas a prestar serviço aqui, a gente só vem dez dias por mês", conta Elpiniki. "No tempo de nosso pai, havia muito mais trabalho", lamenta Eleftherios. "Agora todo mundo tem câmera digital." |
A história do monumento por pouco não se perdeu. Não se sabe como, espalhou-se a versão de que teria sido um presente do governo francês e chegou à cidade desmontado, em partes para ser encaixadas. Coube à documentarista Bel Noronha desfazer a lenda. No filme De Braços Abertos, que será lançado em maio, Bel mostra como Heitor da Silva Costa seu bisavô concebeu, projetou e construiu a estátua. A pesquisa para o documentário começou há quatro anos. "Depois de vasculhar jornais e revistas da época, encontrei uma edição de O Cruzeiro com relatos escritos por meu bisavô", afirma. Descobriu fatos curiosos, como a campanha para arrecadar recursos para a obra. Coordenada pelo cardeal Sebastião Leme, levou às ruas do estado escoteiros que pediam dinheiro entre eles o ex-presidente da Fifa João Havelange e crianças que vendiam rifas. A campanha incluía pedidos de doação de jóias, o que foi feito por várias famílias. "Eu morava em Petrópolis e vendi muita rifa nas ruas", diz a museóloga Maria Augusta Machado, de 91 anos. "Nos chás-dançantes, as moças colocavam laçarotes na lapela dos rapazes, que, em troca, tinham de fazer doações." O processo de escolha do local e do autor da estátua aconteceu em 1921. A idéia era inaugurar o monumento no ano seguinte, nas comemorações do centenário da Independência, mas ele só ficaria pronto em 1931. Escolhido o local em que a imagem seria vista de toda a capital, Heitor rumou para a Europa em busca de um escultor. O franco-polonês Paul Landowski foi o escolhido: fez uma maquete de 4 metros de altura e moldou em gesso, no tamanho original, a cabeça e as mãos. Daí talvez venha a confusão sobre sua origem. A obra demorou cinco anos. "A estátua tem a estrutura de um prédio, em forma de Cristo", explica Bel. "Tudo foi moldado no local, com madeira, ferro e concreto."
André Valentim/Strana
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| Rubens Madalena da Silva é, há 22 anos, condutor do bondinho que sai da estação no Cosme Velho e vai ao alto do Corcovado. Ele também cuida do treinamento de novos condutores. São feitas diariamente doze viagens pelos 3.824 metros do percurso. Nestes anos todos, Rubens viu muitas mudanças: "Antes, o trilho era manual. Quando fazia muito calor, o manobreiro tinha de pegar água no rio para esfriar o ferro dilatado. Só assim se conseguia fazer os desvios". |
Distante da discussão sobre as origens do Redentor, o comerciante cabo-verdiano Manoel João Alves, de 70 anos, segue vendendo salgados, sucos e cafés na lanchonete do estacionamento. Uma rotina que completa 46 anos na semana que vem. "Nesse tempo todo o lugar foi se modificando e eu, para acompanhar, fui transformando minha loja", diz ele. "Já fiz seis reformas." Manoel é uma espécie de arquivo vivo do símbolo carioca. Em 1967, viu Roberto Carlos filmar Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (com belas locações no Corcovado) . Anos depois, ajudou a matar a sede da princesa Diana. "Ela parou aqui na minha loja, cercada de seguranças, e me pediu uma garrafinha de água." Manoel aponta para uma mesa e lembra de mais um momento que testemunhou. "O papa João Paulo II tomou café ali", orgulha-se ele, descrevendo a visita de julho de 1980. "Eu tinha acabado de instalar uma máquina de café expresso." Ao olhar para o monumento que vê todos os dias há cinco décadas, Manoel faz um pedido. "Um pouquinho mais de segurança. Olhando isso tudo, a gente vê que é só o que falta para a cidade ser perfeita."
André Valentim/Strana
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Gerente do restaurante
do Corcovado há quase
vinte anos, José Aires Cabral trabalhou com Floriano Gonçalves, conhecido
como "guardião do Cristo" e morto em 2004. O título veio do fato de Floriano guardar a chave da portinhola que dá acesso ao interior
da imagem. "Ele e o irmão escalavam os braços
do Cristo com balde
e sabão para lavar
a imagem", diz. Hoje
o acesso ao topo
da estátua foi fechado
pela arquidiocese por
ser muito perigoso. |

Como você pode votar
O jogo é difícil, mas o Cristo continua no páreo para ser escolhido uma das sete novas maravilhas do mundo. Na contagem parcial divulgada na quinta (29), o monumento carioca encontrava-se entre os eleitos, ao lado da Acrópole grega, da Pirâmide de Chichenitza, no México, do Coliseu italiano, das estátuas da Ilha de Páscoa, de Angkor, no Camboja, e dos fortes de Alhambra, na Espanha. O resultado final será anunciado no dia 7 de julho, em Lisboa. O concurso começou com 177 concorrentes. "Precisamos de pelo menos 10 milhões de votos para vencer", calcula Sávio Neves, membro da comissão que busca votos para o monumento. O concurso, criado pelo suíço Bernard Weber, tem o apoio da Unesco. "Há previsão de uma verba permanente para a conservação dos sete vitoriosos", diz Neves. "Se vencermos, será uma propaganda espetacular para a cidade", afirma Luís Felipe Bonilha, presidente da Riotur. Para votar basta entrar no site www.corcovado.com.br ou mandar uma mensagem de texto SMS com a palavra CRISTO para o número 49216 (R$ 0,31 mais impostos, por torpedo). No site, pode-se votar de graça ou pagar 2 dólares e receber um certificado. |
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