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REPORTAGEM
DE CAPA
Verde
e rentável
Agricultura
que respeita o meio
ambiente avança no Estado e
conquista consumidores cariocas
Livia
de Almeida*
André Valentim
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Bruno Veiga
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Hortaliças
sem agrotóxicos: na lista de
compras de Rosana Couto (à dir.)
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No
fim da década de 80, Richard Thompson era um dos sócios
do Banco Garantia. Sua mulher, Ângela, formada em história,
ocupava-se com a criação das quatro filhas pequenas.
Preocupado em encontrar um bom espaço para as brincadeiras
das meninas, o casal começou a procurar terreno para construir
uma boa casa de campo. Encontraram o sítio de seus sonhos
em Petrópolis, um terreno de 40 hectares em um vale na região
de Santa Mônica. Mas Dick, como bom representante do mercado
financeiro, não queria que o sítio fosse apenas um
sorvedouro de dinheiro. "Era preciso que ele se pagasse", diz. Por
isso, não hesitou em contratar os serviços de uma
empresa de consultoria para avaliar as potencialidades da propriedade.
O diagnóstico foi simples: os 7 hectares agricultáveis
eram indicados para a plantação de hortaliças,
distribuídas em domicílio. E os produtos ainda poderiam
ter um diferencial: o cultivo sem pesticidas nem adubos químicos,
segundo os preceitos da agricultura orgânica, que estava se
tornando popular no resto do mundo. "Ficamos encantados quando descobrimos
que podíamos produzir sem utilizar veneno, preservando o
solo", conta Ângela. A primeira entrega em domicílio
foi em 1991, quando as terras produziam apenas oito itens. Desde
então, o Sítio do Moinho não parou de crescer.
Virou um grande negócio, com oitenta funcionários,
frota de três caminhões e duas Kombis, câmaras
frigoríficas para armazenar as verduras em condições
ideais de temperatura e umidade antes da entrega. Seus 45 produtos
estão nas prateleiras de 23 lojas da rede Zona Sul, três
do Extra e no Carrefour da Barra, que juntos recebem em média
85.000 itens por mês.
Bruno Veiga/Strana
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Ângela
e Dick Thompson, do Sítio do Moinho:
hobby que virou grande negócio, com
oitenta empregados, frota de três caminhões,
câmaras frigoríficas e fornecimento
para supermercados
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O
Sítio do Moinho não é um caso isolado. Na região
de Teresópolis, prospera a Fazenda Vale das Palmeiras, do
ator Marcos Palmeira. Há cinco anos, ela oferece ao mercado
uma variedade de 35 produtos. Hoje, atende a onze lojas do Zona
Sul, três do Pão de Açúcar e uma da Casa
Sendas, além de abastecer restaurantes como o Gula Gula e
o Doce Delícia. Os produtos orgânicos ganharam espaço
em supermercados e entraram definitivamente para a lista de compras
de restaurantes de todos os escalões (veja
onde encontrar clicando aqui). "O sabor é
diferente. Em produtos convencionais dá até para sentir
o gosto do agrotóxico", diz Christophe Lidy, do Garcia &
Rodrigues. "Hoje em dia, 40% das folhas que vendemos são
orgânicas", garante Jayme Xavier, diretor comercial da rede
de supermercados Zona Sul, que comercializa esse tipo de produto
desde 1997. Da rúcula ao ketchup, passando pelo frango criado
sem hormônios, suas lojas já oferecem 300 tipos de
orgânicos. "O consumidor é um indivíduo que
se preocupa com a qualidade da alimentação e também
se interessa pela conservação do meio ambiente", descreve
Xavier. O interesse por alimentos ecologicamente corretos também
não passou despercebido pela rede Hortifruti. Há dois
anos, ela criou a distribuidora Frutifique, que trabalha exclusivamente
com os orgânicos de 46 pequenos e médios produtores,
trinta deles do Estado do Rio. A empresa, com base em Teresópolis,
comercializou 16,5 toneladas por mês em 2002. No ano passado,
a média pulou para 33 toneladas. Em 2004, segundo o gerente
Marcos Damásio, a meta é chegar a 100 toneladas por
mês.
Bruno Veiga/Strana
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Roberto
Lopes, do Sítio Suynan: o
segundo maior produtor de caqui
do Rio se prepara para vender
suas frutas no exterior
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A
procura pelos orgânicos vem crescendo, mas sua produção
ainda é ínfima no Estado. "Corresponde a menos de
1% da área cultivada", calcula a pesquisadora Maria Fernanda
Fonseca, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do
Rio de Janeiro (Pesagro). "A oferta ainda está longe de atender
ao potencial do mercado e ainda é limitada pela sazonalidade",
afirma Jayme Xavier, do Zona Sul. Como a produção
é pequena, um pé de alface sem agrotóxico pode
custar 40% a mais do que um convencional. Outro fator de encarecimento
é a embalagem. Para atender aos padrões de consumo
da classe A, os orgânicos têm chegado ao mercado em
sacos plásticos ou bandejas de isopor, já limpinhos
e prontos para o consumo. "Os orgânicos entraram nos supermercados
como artigo de luxo, para competir com as hortaliças processadas",
diz Maria Fernanda, que estudou o mercado em 1999 e 2003. O preço
é justamente o principal problema para os consumidores. A
empresária Rosana Couto elogia o sabor, mas faz uma ressalva:
"O preço ainda me impede de comprar sempre".
Para um produto ser considerado orgânico, é preciso
ter o selo de uma certificadora, entidade que garante que os procedimentos
usados na propriedade obedecem a princípios básicos
como a não-utilização de herbicidas, adubos
químicos e pesticidas, a irrigação com água
pura e a qualidade do solo. A Associação de Agricultores
Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), que existe
desde 1985, é uma das mais antigas certificadoras do país.
O presidente, o agrônomo Roberto Selig, tem notado um aumento
no interesse dos agricultores. "Já contamos com cerca de
250 associados, e o número de pedidos de certificação
vem crescendo no Estado", afirma. Grandes produtores como o Sítio
do Moinho costumam ter, além do selo da Abio, o do Instituto
Brasileiro de Biodinâmica, certificadora sediada em Botucatu
(SP), cujo aval é reconhecido no mercado externo.
André Valentim/Strana
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Chef
Christophe Lidy, do
Garcia & Rodrigues: pato orgânico
no cardápio
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A
preocupação com uma alimentação de mais
qualidade não é exatamente nova. Desde os anos 70,
agricultores improvisados foram parar no interior do Estado para
plantar, sem muita ciência, vegetais sem agrotóxicos.
Eram os tempos da chamada comida natural, em que uma cenoura rachada
e uma alface levemente bichada eram consideradas aceitáveis.
Memórias desses tempos exasperam a maioria dos produtores
orgânicos do século XXI. "Foi daí que surgiu
a idéia equivocada de que produto cultivado sem agrotóxico
precisa ser necessariamente caidinho, murcho e miúdo. O que
é uma grande besteira. O mercado não aceitaria produtos
de má aparência", afirma Ângela Thompson. O zootécnico
Fábio Ramos, da consultoria Agrosuisse, sócio do ator
Marcos Palmeira na Fazenda Vale das Palmeiras, concorda. "Hoje,
as técnicas de cultivo estão muito mais desenvolvidas.
Não há razão para uma cenoura orgânica
ser menor do que uma plantada de forma convencional, ou para a produtividade
ser mais baixa", afirma. A qualidade do produto conta com a aprovação
de quem lida com nutrição. "Os orgânicos têm
o mesmo valor nutricional dos convencionais, mas eles dão
a garantia de que você não está ingerindo substâncias
cujos efeitos, a longo prazo, ainda são desconhecidos", afirma
a doutora Cristiana Pedrosa, chefe do departamento de nutrição
básica e experimental do Instituto de Nutrição
da UFRJ.
André Valentim/Strana
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Ricardo Fasanello/Strana
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O
ator Marcos Palmeira (à dir.) é dono
da
Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis:
plantações de 35 tipos de hortaliças
e criação de animais em projeto que
se preocupa com o meio ambiente
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O
ator Marcos Palmeira se apaixonou pela agricultura orgânica
há cerca de oito anos, quando adquiriu a fazenda de 150 hectares
em Teresópolis. "Percebi que havia alguma coisa estranha
porque os trabalhadores não queriam levar para casa as coisas
que produziam na terra", lembra. Foi então que ele descobriu
e se encantou com as novas técnicas de cultivo
que procuram respeitar as características do ecossistema
onde estão sendo introduzidas. Hoje, além de plantações,
ele tem uma fábrica de processamento de verduras e legumes
e um galpão onde são embalados os produtos vendidos
in natura. E neste ano, pela primeira vez, a fazenda deve sair do
vermelho. Em suas terras, mantém 100 cabeças de gado
e 120 galinhas criadas soltas pelos pastos, tratados com homeopatia.
"Aqui todo mundo é livre", afirma Eleni Campos, gerente da
fazenda. Na Vale das Palmeiras, porcos, galinhas, cavalos e vacas
convivem no mesmo espaço, coisa que deixaria de cabelo em
pé um fazendeiro convencional. O aspecto das plantações
também é diferente. A horta orgânica não
tem uma aparência tão asséptica e organizada
quanto a da tradicional. Não se costuma tirar todo o mato
do terreno. "A nossa alface é que está invadindo o
ecossistema", diz Ângela Thompson, do Sítio do Moinho.
A diversidade e a rotação de culturas são outros
pontos-chave para manter em baixa o risco das pragas. "A praga é
um sinal de desequilíbrio", ensina Fábio Ramos.
As novas técnicas conquistaram adeptos entre produtores tradicionais.
As terras de Roberto Lopes, em São José do Vale do
Rio Preto, produzem caquis desde 1948. Quando ele assumiu a direção
do sítio Suynam, em 1993, constatou que seu solo andava com
problemas de acidez, e a presença de lagartas na plantação
era uma dor de cabeça constante. "Percebi que, do jeito que
a coisa ia, meus netos não teriam como trabalhar a terra",
conta. Em 1996, ele começou o processo de conversão
de seus 200 hectares em propriedade orgânica. Foram três
anos de trabalho até que as terras fossem consideradas livres
da contaminação por agrotóxicos e a propriedade
obtivesse a certificação da Abio. Em dezembro do ano
passado, ele conseguiu o selo do IBD e está apostando na
exportação de suas frutas. Em fevereiro, Lopes vai
participar da maior feira de orgânicos do mundo, a BioFach,
em Nüremberg, na Alemanha. Com uma safra de 600 toneladas de
caqui por ano, Roberto é o segundo produtor da fruta no Estado
e, graças ao volume de sua produção, consegue
a façanha de oferecer os caquis orgânicos com o mesmo
preço do convencional. "Já houve o tempo em que se
pensava que a produção sem agrotóxicos era
coisa de hippies. Hoje atendemos a um mercado exigente, que quer
um produto igual ou melhor que o convencional", diz Roberto Lopes.
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Glossário
AGRICULTURA
ORGÂNICA: sistema
de produção que procura utilizar métodos
que promovam a preservação do meio ambiente.
Não utiliza pesticidas, fertilizantes químicos
e herbicidas e as mudas plantadas convivem com a vegetação
original.
AGROFLORESTA:
sistema
em que a produção agropecuária convive
com árvores e arbustos.
CERTIFICAÇÃO:
processo
de fiscalização e inspeção das
propriedades agrícolas que garante que o cultivo aconteça
dentro das normas da produção orgânica.
COMPOSTAGEM:
processo
de preparação do adubo orgânico, que pode
utilizar como matéria-prima resíduos animais
e vegetais.
HIDROPONIA:
sistema
de produção agrícola na água.
Não deve ser confundido com agricultura orgânica,
pois as plantações são nutridas por adubos
químicos solúveis.
HÚMUS:
produto
da decomposição de resíduos vegetais
e animais.
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Nas
prateleiras
Além
das hortaliças e frutas
orgânicas, os supermercados
já dispõem de
produtos industrializados orgânicos, feitos com matéria-prima
sem contaminação
por agrotóxicos.
Veja os
endereços
clicando aqui.
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Suco
de goiaba (300 ml). Da Maraú. R$ 1,99. No Pão
de Açúcar
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Arroz
polido (1 kg). Da Nardelli. R$ 2,32. No Pão de
Açúcar
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Café
Pilão (250 g). R$ 4,69. No Carrefour
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Açúcar
claro (1 kg). Da Native. R$ 3,07. No Pão de Açúcar
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Feijão-preto
(500 g). Da Brasil Organics. R$ 4,35
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No
Zona Sul Ketchup (390 g). Da Andino. R$ 7,79. No Zona
Sul
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Conserva
de cenouras (210 g). Da Nardelli. R$ 8,23. No Zona Sul
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*Colaborou
Fernanda Thedim
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