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4 de fevereiro de 2004
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REPORTAGEM DE CAPA

Verde e rentável

Agricultura que respeita o meio
ambiente avança no Estado e
conquista consumidores cariocas

Livia de Almeida*

 
André Valentim
Bruno Veiga

Hortaliças sem agrotóxicos: na lista de compras de Rosana Couto (à dir.)

No fim da década de 80, Richard Thompson era um dos sócios do Banco Garantia. Sua mulher, Ângela, formada em história, ocupava-se com a criação das quatro filhas pequenas. Preocupado em encontrar um bom espaço para as brincadeiras das meninas, o casal começou a procurar terreno para construir uma boa casa de campo. Encontraram o sítio de seus sonhos em Petrópolis, um terreno de 40 hectares em um vale na região de Santa Mônica. Mas Dick, como bom representante do mercado financeiro, não queria que o sítio fosse apenas um sorvedouro de dinheiro. "Era preciso que ele se pagasse", diz. Por isso, não hesitou em contratar os serviços de uma empresa de consultoria para avaliar as potencialidades da propriedade. O diagnóstico foi simples: os 7 hectares agricultáveis eram indicados para a plantação de hortaliças, distribuídas em domicílio. E os produtos ainda poderiam ter um diferencial: o cultivo sem pesticidas nem adubos químicos, segundo os preceitos da agricultura orgânica, que estava se tornando popular no resto do mundo. "Ficamos encantados quando descobrimos que podíamos produzir sem utilizar veneno, preservando o solo", conta Ângela. A primeira entrega em domicílio foi em 1991, quando as terras produziam apenas oito itens. Desde então, o Sítio do Moinho não parou de crescer. Virou um grande negócio, com oitenta funcionários, frota de três caminhões e duas Kombis, câmaras frigoríficas para armazenar as verduras em condições ideais de temperatura e umidade antes da entrega. Seus 45 produtos estão nas prateleiras de 23 lojas da rede Zona Sul, três do Extra e no Carrefour da Barra, que juntos recebem em média 85.000 itens por mês.

 

Bruno Veiga/Strana

Ângela e Dick Thompson, do Sítio do Moinho: hobby que virou grande negócio, com oitenta empregados, frota de três caminhões, câmaras frigoríficas e fornecimento para supermercados

O Sítio do Moinho não é um caso isolado. Na região de Teresópolis, prospera a Fazenda Vale das Palmeiras, do ator Marcos Palmeira. Há cinco anos, ela oferece ao mercado uma variedade de 35 produtos. Hoje, atende a onze lojas do Zona Sul, três do Pão de Açúcar e uma da Casa Sendas, além de abastecer restaurantes como o Gula Gula e o Doce Delícia. Os produtos orgânicos ganharam espaço em supermercados e entraram definitivamente para a lista de compras de restaurantes de todos os escalões (veja onde encontrar clicando aqui). "O sabor é diferente. Em produtos convencionais dá até para sentir o gosto do agrotóxico", diz Christophe Lidy, do Garcia & Rodrigues. "Hoje em dia, 40% das folhas que vendemos são orgânicas", garante Jayme Xavier, diretor comercial da rede de supermercados Zona Sul, que comercializa esse tipo de produto desde 1997. Da rúcula ao ketchup, passando pelo frango criado sem hormônios, suas lojas já oferecem 300 tipos de orgânicos. "O consumidor é um indivíduo que se preocupa com a qualidade da alimentação e também se interessa pela conservação do meio ambiente", descreve Xavier. O interesse por alimentos ecologicamente corretos também não passou despercebido pela rede Hortifruti. Há dois anos, ela criou a distribuidora Frutifique, que trabalha exclusivamente com os orgânicos de 46 pequenos e médios produtores, trinta deles do Estado do Rio. A empresa, com base em Teresópolis, comercializou 16,5 toneladas por mês em 2002. No ano passado, a média pulou para 33 toneladas. Em 2004, segundo o gerente Marcos Damásio, a meta é chegar a 100 toneladas por mês.

 

Bruno Veiga/Strana

Roberto Lopes, do Sítio Suynan: o segundo maior produtor de caqui do Rio se prepara para vender suas frutas no exterior

A procura pelos orgânicos vem crescendo, mas sua produção ainda é ínfima no Estado. "Corresponde a menos de 1% da área cultivada", calcula a pesquisadora Maria Fernanda Fonseca, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro). "A oferta ainda está longe de atender ao potencial do mercado e ainda é limitada pela sazonalidade", afirma Jayme Xavier, do Zona Sul. Como a produção é pequena, um pé de alface sem agrotóxico pode custar 40% a mais do que um convencional. Outro fator de encarecimento é a embalagem. Para atender aos padrões de consumo da classe A, os orgânicos têm chegado ao mercado em sacos plásticos ou bandejas de isopor, já limpinhos e prontos para o consumo. "Os orgânicos entraram nos supermercados como artigo de luxo, para competir com as hortaliças processadas", diz Maria Fernanda, que estudou o mercado em 1999 e 2003. O preço é justamente o principal problema para os consumidores. A empresária Rosana Couto elogia o sabor, mas faz uma ressalva: "O preço ainda me impede de comprar sempre".

Para um produto ser considerado orgânico, é preciso ter o selo de uma certificadora, entidade que garante que os procedimentos usados na propriedade obedecem a princípios básicos como a não-utilização de herbicidas, adubos químicos e pesticidas, a irrigação com água pura e a qualidade do solo. A Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), que existe desde 1985, é uma das mais antigas certificadoras do país. O presidente, o agrônomo Roberto Selig, tem notado um aumento no interesse dos agricultores. "Já contamos com cerca de 250 associados, e o número de pedidos de certificação vem crescendo no Estado", afirma. Grandes produtores como o Sítio do Moinho costumam ter, além do selo da Abio, o do Instituto Brasileiro de Biodinâmica, certificadora sediada em Botucatu (SP), cujo aval é reconhecido no mercado externo.

 

André Valentim/Strana

Chef Christophe Lidy, do Garcia & Rodrigues: pato orgânico no cardápio

A preocupação com uma alimentação de mais qualidade não é exatamente nova. Desde os anos 70, agricultores improvisados foram parar no interior do Estado para plantar, sem muita ciência, vegetais sem agrotóxicos. Eram os tempos da chamada comida natural, em que uma cenoura rachada e uma alface levemente bichada eram consideradas aceitáveis. Memórias desses tempos exasperam a maioria dos produtores orgânicos do século XXI. "Foi daí que surgiu a idéia equivocada de que produto cultivado sem agrotóxico precisa ser necessariamente caidinho, murcho e miúdo. O que é uma grande besteira. O mercado não aceitaria produtos de má aparência", afirma Ângela Thompson. O zootécnico Fábio Ramos, da consultoria Agrosuisse, sócio do ator Marcos Palmeira na Fazenda Vale das Palmeiras, concorda. "Hoje, as técnicas de cultivo estão muito mais desenvolvidas. Não há razão para uma cenoura orgânica ser menor do que uma plantada de forma convencional, ou para a produtividade ser mais baixa", afirma. A qualidade do produto conta com a aprovação de quem lida com nutrição. "Os orgânicos têm o mesmo valor nutricional dos convencionais, mas eles dão a garantia de que você não está ingerindo substâncias cujos efeitos, a longo prazo, ainda são desconhecidos", afirma a doutora Cristiana Pedrosa, chefe do departamento de nutrição básica e experimental do Instituto de Nutrição da UFRJ.

 
André Valentim/Strana
Ricardo Fasanello/Strana

O ator Marcos Palmeira (à dir.) é dono da Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis: plantações de 35 tipos de hortaliças e criação de animais em projeto que se preocupa com o meio ambiente

O ator Marcos Palmeira se apaixonou pela agricultura orgânica há cerca de oito anos, quando adquiriu a fazenda de 150 hectares em Teresópolis. "Percebi que havia alguma coisa estranha porque os trabalhadores não queriam levar para casa as coisas que produziam na terra", lembra. Foi então que ele descobriu – e se encantou com – as novas técnicas de cultivo que procuram respeitar as características do ecossistema onde estão sendo introduzidas. Hoje, além de plantações, ele tem uma fábrica de processamento de verduras e legumes e um galpão onde são embalados os produtos vendidos in natura. E neste ano, pela primeira vez, a fazenda deve sair do vermelho. Em suas terras, mantém 100 cabeças de gado e 120 galinhas criadas soltas pelos pastos, tratados com homeopatia. "Aqui todo mundo é livre", afirma Eleni Campos, gerente da fazenda. Na Vale das Palmeiras, porcos, galinhas, cavalos e vacas convivem no mesmo espaço, coisa que deixaria de cabelo em pé um fazendeiro convencional. O aspecto das plantações também é diferente. A horta orgânica não tem uma aparência tão asséptica e organizada quanto a da tradicional. Não se costuma tirar todo o mato do terreno. "A nossa alface é que está invadindo o ecossistema", diz Ângela Thompson, do Sítio do Moinho. A diversidade e a rotação de culturas são outros pontos-chave para manter em baixa o risco das pragas. "A praga é um sinal de desequilíbrio", ensina Fábio Ramos.

As novas técnicas conquistaram adeptos entre produtores tradicionais. As terras de Roberto Lopes, em São José do Vale do Rio Preto, produzem caquis desde 1948. Quando ele assumiu a direção do sítio Suynam, em 1993, constatou que seu solo andava com problemas de acidez, e a presença de lagartas na plantação era uma dor de cabeça constante. "Percebi que, do jeito que a coisa ia, meus netos não teriam como trabalhar a terra", conta. Em 1996, ele começou o processo de conversão de seus 200 hectares em propriedade orgânica. Foram três anos de trabalho até que as terras fossem consideradas livres da contaminação por agrotóxicos e a propriedade obtivesse a certificação da Abio. Em dezembro do ano passado, ele conseguiu o selo do IBD e está apostando na exportação de suas frutas. Em fevereiro, Lopes vai participar da maior feira de orgânicos do mundo, a BioFach, em Nüremberg, na Alemanha. Com uma safra de 600 toneladas de caqui por ano, Roberto é o segundo produtor da fruta no Estado e, graças ao volume de sua produção, consegue a façanha de oferecer os caquis orgânicos com o mesmo preço do convencional. "Já houve o tempo em que se pensava que a produção sem agrotóxicos era coisa de hippies. Hoje atendemos a um mercado exigente, que quer um produto igual ou melhor que o convencional", diz Roberto Lopes.

 

Glossário

AGRICULTURA ORGÂNICA: sistema de produção que procura utilizar métodos que promovam a preservação do meio ambiente. Não utiliza pesticidas, fertilizantes químicos e herbicidas e as mudas plantadas convivem com a vegetação original.

AGROFLORESTA: sistema em que a produção agropecuária convive com árvores e arbustos.

CERTIFICAÇÃO: processo de fiscalização e inspeção das propriedades agrícolas que garante que o cultivo aconteça dentro das normas da produção orgânica.

COMPOSTAGEM: processo de preparação do adubo orgânico, que pode utilizar como matéria-prima resíduos animais e vegetais.

HIDROPONIA: sistema de produção agrícola na água. Não deve ser confundido com agricultura orgânica, pois as plantações são nutridas por adubos químicos solúveis.

HÚMUS: produto da decomposição de resíduos vegetais e animais.

 

Nas prateleiras

Além das hortaliças e frutas orgânicas, os supermercados já dispõem de produtos industrializados orgânicos, feitos com matéria-prima sem contaminação por agrotóxicos. Veja os endereços clicando aqui.

 
Suco de goiaba (300 ml). Da Maraú. R$ 1,99. No Pão de Açúcar
Arroz polido (1 kg). Da Nardelli. R$ 2,32. No Pão de Açúcar

Café Pilão (250 g). R$ 4,69. No Carrefour
Açúcar claro (1 kg). Da Native. R$ 3,07. No Pão de Açúcar
Feijão-preto (500 g). Da Brasil Organics. R$ 4,35
No Zona Sul Ketchup (390 g). Da Andino. R$ 7,79. No Zona Sul
Conserva de cenouras (210 g). Da Nardelli. R$ 8,23. No Zona Sul

 

 

*Colaborou Fernanda Thedim

         
     
 
 
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