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3 de dezembro de 2003
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O chef se despede

Celidonio deixa o Gourmet em janeiro

Lívia de Almeida


Cláudia Martins/Strana
José Hugo Celidonio: aposentadoria depois de 23 anos no Gourmet


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Foram vinte anos passados em uma casa de Botafogo, na ingrata vizinhança do cemitério São João Batista e de um hospital. Outros três no filé mignon de Ipanema, no movimentado trecho da Rua Barão da Torre diante da Praça da Paz. Nos dois endereços, José Hugo Celidonio deu tempero próprio à gastronomia carioca. Aos 71 anos, o dono e chef do Gourmet está pronto para pendurar o avental. Ele quer trocar os compromissos com a administração diária de um restaurante pela flexibilidade do Estúdio Celidonio, onde vai dar aulas, organizar cursos de outros chefs, promover degustações e jantares fechados. Isso depois de um mês de férias com direito, se possível, a uma temporada de esqui. "Foram mais de trinta anos trabalhando até a madrugada e acordando cedo para negociar com fornecedores. Acabei perdendo o gás", reconhece. Celidonio deixa o Gourmet no fim de janeiro, mas aposentadoria é uma palavra que ele rejeita. "Quero lançar uma linha de produtos com meu nome e fazer um vídeo de culinária, entre outras coisas", diz. A bela casa projetada por Cláudio Bernardes fica com os sócios Ricardo Amaral e Sérgio Goldberg e fecha para reabrir depois do Carnaval com novo nome e perfil, em um empreendimento com a participação do empresário Alexandre Accioly.

Cláudia Martins/Strana
Filé de cordeiro assado, de 1987: destaque da temporada de despedida

O Gourmet fecha as portas em grande estilo. A partir de segunda (1º), durante o mês, um festival de despedida oferece uma antologia de pratos inesquecíveis. Não vai faltar a salada de escalope de queijo-de-minas gratinado e molho de abricó com gengibre, que surgiu por acidente no dia em que acabou o queijo de cabra na casa. Nem o crepe de maracujá e o doce de goiaba com sorvete de queijo, uma invenção mais recente. Inaugurado em 1980, o Gourmet nasceu em uma época em que a criatividade era ingrediente obrigatório de qualquer receita, para compensar a ausência de produtos importados ou nacionais de boa qualidade. Foie gras? Só sob forma de patê e em latinhas. Ervas e temperos? Só salsa, cebolinha, louro e coentro. E pato? "Só atropelado no meio da estrada", brinca o chef. Valorizar os produtos da terra foi uma maneira de contornar essas dificuldades e daí surgiram pratos como o loló com lalá – bobó feito com batata-baroa no lugar de aipim e lagosta em vez de camarão. "Muita gente não tinha a menor idéia do que estava comendo", diz Celidonio.

Celidonio foi testemunha ocular da descoberta da gastronomia pelo carioca, e as receitas do festival contam um pouco dessa história. O ragu de vieiras e camarões, de 1984, foi incrementado com ostras na versão 2003-2004. "Há vinte anos, eu teria medo de oferecer ostras", conta. Ele chama a atenção também para a apresentação das receitas. "Não são essas torres empilhadas que se fazem hoje em dia, muito pouco práticas na hora de comer. Hoje muita gente privilegia a apresentação e sacrifica a temperatura do prato. É um erro", considera. Outra implicância do chef é com modismos gastronômicos, como, no momento, a combinação rúcula e tomate seco. "Todo chef com pretensões de ser moderninho deve ter um prato com rúcula e tomate seco no menu. Acabei enjoando de tomate seco", conta.

 
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Condecorado por FHC: mérito cultural Em família: com o filho Mário e a mulher, Marialice

Paulista, José Hugo Celidonio desembarcou no Rio com a mulher, Marialice, e os filhos Geraldo e Mário Sérgio em 1964 e foi morar na Avenida Delfim Moreira, de frente para o mar. "Tinha dinheiro para um ano e nenhuma idéia sobre o que ia fazer", conta. Foi dono de dois restaurantes de frutos do mar e depois comandou, até 1973, o Flag, bar em Copacabana que virou parada obrigatória da boemia local. "Tivemos até Chico Buarque dando canja", recorda-se. Para a vida familiar, a rotina era um desastre. "A gente se desencontrava. Ele chegava de madrugada e quando acordava eu já tinha saído de casa", lembra Marialice, sua esposa há quarenta anos. Quando deixou o Flag, começou a escrever sobre gastronomia e restaurantes em jornais e revistas. A vida entre caçarolas, para valer, começou só no fim dos anos 70. A convite da revista Gourmet, organizou cursos com chefs famosos, como Alan Chapel e Pierre Troisgros, na casa de Botafogo onde funcionava a publicação. Um belo dia, abriu o local ao público para apresentar um pouco do que os professores haviam ensinado. "Daquele dia em diante, não me deixaram mais fechar as portas", conta Celidonio. O Gourmet deixará saudade.

 

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Experimenta!

Chef José Hugo Celidonio introduziu o carpaccio no Rio, no início dos anos 80. Foi conversar com um grupo de senhoras e encorajá-las a experimentar e uma delas disse que não tinha se vestido daquele jeito para comer carne crua. Com muita lábia, o chef convenceu a senhora a experimentar o prato. Ela adorou. Ao sair do restaurante, prometeu voltar com mais amigas para comer carpaccio novamente. Celidonio não perdoou. "Da próxima vez então, venha vestida para comer carne crua", disparou.


Enochatos

É verdade que o conhecimento sobre gastronomia se disseminou na cidade nos últimos anos, mas também deu origem a uma nova espécie de chato. Celidonio lembra do sujeito que quis impressionar a mesa com seus conhecimentos de vinho e despejou sobre a toalha branca os restos de uma taça de vinho para constatar se havia ou não depósito no fundo. Celidonio incluiu o preço da toalha na conta do freguês.

 

 

         
     
 
 
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