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3 de dezembro de 2003
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ARTE

Soho à carioca

Artistas plásticos abrem no Horto seus ateliês

Isabela Caban


Fotos André Valentim/Strana

Mudança: Heloísa trocou o Leblon pela tranqüilidade do Horto

Quando artistas plásticos de peso na cena contemporânea escolhem o mesmo pedacinho do Rio para instalar seus ateliês, surge a vontade de saber o que há de tão inspirador no lugar. Espaços amplos e claros para trabalhar, ambiente quase provinciano e muito charme são elementos que não faltam no trecho do Horto entre as ruas Alberto Ribeiro e Estela – a antiga Vila de Operários Chácara de Algodão. A concentração de artistas vem dando uma cara de Soho ao lugar. Mas, em vez de lofts, o Soho carioca tem simpáticas casas de vila tombadas. E, no lugar dos bagels (os típicos pãezinhos americanos), deliciosas empadinhas caseiras. Adriana Varejão foi a primeira. Chegou nos anos 80 e já está no segundo ateliê na região. O primeiro, na Rua Fernandes Magalhães, ela vendeu para a também artista plástica Gabriela Machado. Beatriz Milhazes é outra que reformou um dos sobrados no quarteirão para transformá-lo em seu recanto de criação.

E não pára por aí. Quando saiu do Leblon, a marchande Heloísa Amaral Peixoto sabia exatamente para onde queria ir. Abriu uma galeria quase ao lado do ateliê de Beatriz Milhazes. "Sou fascinada pela arquitetura dessas casas. Recuperei a minha e a deixei como era originalmente", conta Heloísa. A mudança da marchande influenciou a amiga e fotógrafa Cláudia Jaguaribe: a reforma de sua nova casa-estúdio está em fase final. Os artistas encontraram ali o lugar perfeito para seu processo criativo. "Minha arte brota do estímulo que há ao meu redor. Invisto mais no ateliê do que em minha própria casa. Não mudo daqui de jeito nenhum", diz Gabriela.

Beatriz Milhazes também se inspira no lugar para criar. "Gosto de ateliê com cara de casa e adoro a proximidade com o Jardim Botânico. É essa atmosfera que uso em meu trabalho: o astral da Zona Sul com toques de cidade do interior", explica. De fato, não é preciso ficar muito tempo por lá para nos sentirmos em alguma vila do Rio antigo. Enquanto alguns moradores ouvem seus rádios de pilha sentados à porta, a turma do baralho joga intermináveis partidas na calçada – só interrompidas quando o aroma das empadinhas vendidas em casa por dona Luiza lembra que é hora do lanche. É esse o espírito que os artistas instalados na área querem preservar. Por isso fogem de eventos do tipo "de portas abertas". Nenhum dos artistas tem planos de abrir seus locais de trabalho para visitantes. "Preciso de um certo isolamento para pintar, e aqui é como se fosse minha casa. Tem gente que não entende isso e acabo passando por antipática", explica Beatriz Milhazes, que já disse não para muita gente que bateu à sua porta interessada em conhecer o ateliê.

 

Arte: ateliê de Gabriela e fachada (à dir.) recuperada por Jaguaribe

Os artistas querem distância de estabelecimentos comerciais na área. "O mais legal aqui é a mistura com os moradores", diz Gabriela Machado. Mas o sossego não deve durar muito. Atividades comerciais começam a descobrir as casinhas bucólicas do Horto. Uma produtora audiovisual deve se mudar até meados do ano que vem. E há dois meses os arquitetos Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen transferiram seu escritório para as imediações. "Isso aqui é um oásis urbano", afirma Thiago. Resta saber até quando.

         
     
 
 
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