| |
|
|
 |
|
ARTE
Soho
à carioca
Artistas
plásticos abrem no Horto seus ateliês
Isabela
Caban
Fotos André Valentim/Strana
 |
|
Mudança:
Heloísa trocou o Leblon pela tranqüilidade do
Horto
|
Quando
artistas plásticos de peso na cena contemporânea escolhem
o mesmo pedacinho do Rio para instalar seus ateliês, surge
a vontade de saber o que há de tão inspirador no lugar.
Espaços amplos e claros para trabalhar, ambiente quase provinciano
e muito charme são elementos que não faltam no trecho
do Horto entre as ruas Alberto Ribeiro e Estela a antiga
Vila de Operários Chácara de Algodão. A concentração
de artistas vem dando uma cara de Soho ao lugar. Mas, em vez de
lofts, o Soho carioca tem simpáticas casas de vila tombadas.
E, no lugar dos bagels (os típicos pãezinhos americanos),
deliciosas empadinhas caseiras. Adriana Varejão foi a primeira.
Chegou nos anos 80 e já está no segundo ateliê
na região. O primeiro, na Rua Fernandes Magalhães,
ela vendeu para a também artista plástica Gabriela
Machado. Beatriz Milhazes é outra que reformou um dos sobrados
no quarteirão para transformá-lo em seu recanto de
criação.
E não pára por aí. Quando saiu do Leblon, a
marchande Heloísa Amaral Peixoto sabia exatamente para onde
queria ir. Abriu uma galeria quase ao lado do ateliê de Beatriz
Milhazes. "Sou fascinada pela arquitetura dessas casas. Recuperei
a minha e a deixei como era originalmente", conta Heloísa.
A mudança da marchande influenciou a amiga e fotógrafa
Cláudia Jaguaribe: a reforma de sua nova casa-estúdio
está em fase final. Os artistas encontraram ali o lugar perfeito
para seu processo criativo. "Minha arte brota do estímulo
que há ao meu redor. Invisto mais no ateliê do que
em minha própria casa. Não mudo daqui de jeito nenhum",
diz Gabriela.
Beatriz Milhazes também se inspira no lugar para criar. "Gosto
de ateliê com cara de casa e adoro a proximidade com o Jardim
Botânico. É essa atmosfera que uso em meu trabalho:
o astral da Zona Sul com toques de cidade do interior", explica.
De fato, não é preciso ficar muito tempo por lá
para nos sentirmos em alguma vila do Rio antigo. Enquanto alguns
moradores ouvem seus rádios de pilha sentados à porta,
a turma do baralho joga intermináveis partidas na calçada
só interrompidas quando o aroma das empadinhas vendidas
em casa por dona Luiza lembra que é hora do lanche. É
esse o espírito que os artistas instalados na área
querem preservar. Por isso fogem de eventos do tipo "de portas abertas".
Nenhum dos artistas tem planos de abrir seus locais de trabalho
para visitantes. "Preciso de um certo isolamento para pintar, e
aqui é como se fosse minha casa. Tem gente que não
entende isso e acabo passando por antipática", explica Beatriz
Milhazes, que já disse não para muita gente que bateu
à sua porta interessada em conhecer o ateliê.
 |
 |
|
Arte:
ateliê de Gabriela e
fachada (à dir.) recuperada por Jaguaribe
|
Os
artistas querem distância de estabelecimentos comerciais na
área. "O mais legal aqui é a mistura com os moradores",
diz Gabriela Machado. Mas o sossego não deve durar muito.
Atividades comerciais começam a descobrir as casinhas bucólicas
do Horto. Uma produtora audiovisual deve se mudar até meados
do ano que vem. E há dois meses os arquitetos Thiago Bernardes
e Paulo Jacobsen transferiram seu escritório para as imediações.
"Isso aqui é um oásis urbano", afirma Thiago. Resta
saber até quando.
|