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3 de agosto de 2005

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REPORTAGEM DE CAPA

A bela Antonia em novo papel

Aos 40 anos, filhos criados, Antonia Frering
diz que odeia o rótulo de socialite e conta
por que resolveu ser atriz

Telma Alvarenga


Dilmar Cavalher/Strana
Antonia Frering, no Jardim Botânico: paixão pelo Rio


Quem é Tereza Antonia Mayrink Veiga Frering? Filha de Carmen Terezinha Solbiati Mayrink Veiga, ícone da sociedade carioca, e mulher do empresário Guilherme Frering, neto do falecido Augusto Trajano de Azevedo Antunes, fundador da poderosa mineradora Caemi. "Quando vou ser apenas Antonia Frering?", pergunta, incomodada com as vírgulas explicativas depois do sobrenome pomposo. Elegante, linda, com 59 quilos distribuídos em 1,76 metro, voz rouca, porte de aristocrata, Antonia quer se descolar da imagem cristalizada nas colunas sociais. "Detesto esse rótulo de socialite. Sei lá que raio é isso." Antes de chegar aos 40 anos, completados em janeiro, surpreendeu a família e os amigos mais chegados com uma novidade: resolvera se tornar atriz. Fez um ano de faculdade de artes cênicas e, desde 2003, participou de cinco filmes, dois ainda por estrear – Callas, do italiano Giorgio Capitani, e Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho. Antonia, que mora em Londres há cinco anos, com o marido e três filhos adolescentes, jamais havia investido seriamente numa profissão. Fez apenas trabalhos esporádicos como modelo, como o último desfile de Givenchy, dez anos atrás. "O que acontece com a mulher depois que o marido está encaminhado profissionalmente e os filhos criados? Entra em depressão, vai para o analista, engorda? Sei lá... Eu fui à luta, atrás do meu sonho", diz.

 
Divulgação
Antonia como Rachel, contracenando com Thiago Lacerda, em Irmãos de Fé: escolhida em teste pelo diretor Moacyr Góes

A paixão foi descoberta por acaso. Pouco depois de chegar a Londres, seu filho do meio, Lorenzo, então com 13 anos, pediu para fazer um curso de interpretação, à noite. Antonia resolveu acompanhá-lo. Lorenzo desistiu, mas ela terminou o curso decidida a fazer faculdade de cinema e TV na Mountview Theatre School, uma conhecida escola londrina. Teve aulas particulares com a atriz Chrys Salt, do Actor's Center, para preparar-se para o teste. Eram apenas quinze vagas. Passou, interpretando um texto de Shakespeare e outro de Dario Fo. "Quando entrei naquele palco, diante daqueles professores de 'oclinhos', pensei: é aqui que eu sempre quis estar", diz. Depois do curso, estimulada por Chrys Salt, sua mestre até hoje, decidiu trabalhar como atriz. Antes, reuniu seu "conselho": o marido e os filhos, Guilherme, de 19 anos, Lorenzo, de 17, e Maria Tereza, de 14. "Disse a eles: 'Olha, dediquei minha vida inteira a vocês, queria fazer alguma coisa para mim'. Todos deram a maior força", recorda. "Hoje, meus filhos me ajudam a decorar os textos."

 
Divulgação
No set, em Londres: Antonia conversa com a diretora Lucy Bailey, nas filmagens do curta You Can Run, que ela protagoniza

Seu primeiro trabalho, em 2003, foi uma pequena participação no filme Madre Teresa de Calcutá, do italiano Fabrizio Chieza, como uma freira, a Irmã Stephanie. Parte das filmagens foi no Sri Lanka. "Ela teve a boa idéia de só me contar na volta", diz a mãe, Carmen. "Ficaria doida se soubesse que ela ia sozinha para o Sri Lanka. Teria enfartado", exagera. Carmen apóia a decisão da filha de se tornar atriz. "Ela está contente, e isso é o que interessa. Sempre disse a ela e ao irmão, Antenor, que tudo o que quero é que eles tenham saúde e vivam felizes", diz. Carmem já viu alguns trabalhos da filha, como o curta que ela protagonizou em Londres, You Can Run, dirigido por Lucy Bailey. Gostou. "A Antonia leva muito a sério tudo o que faz", atesta. Parecidíssimas fisicamente, as duas confessam ter temperamentos completamente diferentes. Carmen, por exemplo, diz que recebeu convites para trabalhar como atriz quando jovem. Não aceitou nenhum. "Não tem nada a ver comigo. Detesto ser obrigada a fazer qualquer coisa." Antonia, por sua vez, não quer saber da vida social que a mãe sempre adorou. "Ela gosta até hoje. Eu não, continuo na minha toca", comenta.

 
Divulgação
Nas filmagens de Se Eu Fosse Você: com Thiago Lacerda e Tony Ramos

Carmen nunca fugiu dos flashes. Antonia é o oposto. "Eu não quero aparecer por estar num chazinho ou num almocinho, até porque faço pouquíssimo isso, não suporto essas coisas", afirma. "Essa é uma vida que acabou no tempo da mamãe, em que as mulheres saíam de um almoço para o cabeleireiro, que eu detesto, do cabeleireiro para a tal da happy hour – não conheço nada mais chato –, dali para o analista, depois para um jantar... Claro que vou a festas, mas tenho outros interesses na vida", diz. Ela não teme a exposição inerente à carreira que escolheu. "Agora é para falar do meu trabalho. Quem está aparecendo é a atriz, não tem nada desses títulos aí da sociedade", embola a língua para pronunciar a palavra socialite. "O trauma é tão grande que não consigo nem falar...", ri. Antonia brinca, mas sabe que vai enfrentar críticas e preconceitos, até pelos sobrenomes que carrega. "Estou na chuva para me molhar. Quando tomei essa decisão, sabia que enfrentaria momentos difíceis, muita coisa contra. Mas a paixão é maior", garante.

Patrícia Leal Mayrink Veiga, casada com Antenor, irmão de Antonia, admira a coragem da cunhada. "Ela não tem medo de nada. Mete a cara", diz. Patrícia confessa que levou um baita susto quando soube dos planos de Antonia, apesar de achar que a decisão tem tudo a ver com a cunhada. "Há muito tempo penso que ela leva jeito", comenta. Patrícia lembra que, no primeiro ano de casada, há treze anos, se surpreendeu com a desenvoltura de Antonia numa festa, divertindo-se no videokê. "Ela cantava para valer, representando. A gente ria à beça." Gostou da performance da cunhada no filme Irmãos de Fé, com Thiago Lacerda e Padre Marcelo Rossi. Para fazer três cenas, como Rachel, Antonia fez teste com o diretor Moacyr Góes. O produtor do longa, Diler Trindade, aprovou. "Ela é muito dedicada, estudiosa, fez um trabalho bacana." Para ele, o fato de Antonia ter começado a carreira perto dos 40 anos não é empecilho. "Não tem essa de idade. Depende da entrega, do compromisso", atesta. "Se fosse uma pessoa anônima, seria mais fácil. Mas ela vai ter de desconstruir uma imagem para construir outra."

Divulgação
Em Callas: no papel de Biki, amiga da diva


Sua mulher, Lilia Alli, que trabalha com ele na produtora, concorda. "Antonia vai ter de batalhar muito mais, porque vai ter gente querendo embarreirar, achando que é só uma dondoca querendo fazer cinema", diz. "Não é nada disso. Ela estuda, tem talento." A própria Lilia se surpreendeu com uma Antonia bem diferente da que imaginava. "Eu só a conhecia pela imprensa, como filha do mito Carmen Mayrink Veiga. Descobri uma pessoa simples, que está lutando, buscando o caminho dela", comenta. A nova amiga revelou facetas ainda mais surpreendentes. "Ela é engraçadíssima e samba muito bem", conta Lilia. Em janeiro, Antonia comemorou seu aniversário em um camarote na quadra do Salgueiro, na Tijuca. Lilia fez uma surpresa: pediu que a bateria da escola tocasse o Parabéns pra Você. Quando ouviu o puxador conclamando a "nação salgueirense" para cantar para Tereza Antonia, a aniversariante foi ao delírio. "Eu adorei", abre um sorriso. "Gosto muito de samba. Vira-e-mexe estou na Lapa", revela.

Tem mais: ela já desfilou várias vezes em escolas de samba, como Mangueira e Beija-Flor. Discretamente, longe da mira dos fotógrafos. "Desfilo no chão, ninguém vê", conta, como se confessasse uma travessura. Não é a única. "Também gosto de voar de asa-delta", diz. Só há pouco tempo contou a traquinice aos filhos. Mais uma? "Numa viagem recente, andei de balão." Antonia também adora dançar. O marido, não. Ela aproveitou uma viagem dele ao Brasil e levou o filho mais velho para um fim de semana na Espanha. "Dançamos a noite toda." Ativa, no Brasil ou na Inglaterra, ela nada e faz ginástica três ou quatro vezes por semana, com personal trainer. No Rio, anda de bicicleta na orla e na Lagoa. Adora praia, sol. Em Londres, morre de saudade da cidade onde nasceu. "Sou carioca da gema. Tenho paixão pelo Rio", derrama-se. No pescoço, usa um pingente em forma de mapa do Brasil. Delicado, ele é todo de brilhantinhos, com pequeninos rubis demarcando o espaço do Rio. "É onde está o meu coração", explica. Católica, cravou no verso do mapa uma medalha de Nossa Senhora das Graças.

 
Luiz Carlos David
Guilherme e Antonia, no dia do casamento: vinte anos juntos

Antonia deu aulas de catecismo numa creche durante doze anos. Desde os 16 se dedica a trabalhos sociais. Há dois anos, ela e o marido fundaram na cidade o instituto Desiderata, que dá apoio a oito ONGs voltadas para crianças carentes. Uma boa razão para vir mais freqüentemente ao Brasil. Outra é a saudade do cachorro, "Ralph", um policial, e da gata, "Ágatha", que ela pegou na Suipa. É Ágatha quem acompanha a dona na capa de Veja Rio, em foto do arquivo pessoal de Antonia. Apesar disso, por enquanto, ela e Guilherme não planejam voltar definitivamente ao país. Mesmo sabendo que isso pode prejudicar sua nova vida profissional. "Adoraria fazer uma novela, mas o problema é que teria de morrer no meio", diz. "Tenho três adolescentes em casa que precisam da minha atenção. Sou mãezona. E não construí vinte anos de casamento para chegar agora e dizer: 'Vou fazer uma novela, ficar um ano fora, tchau'. Jamais faria isso."

Em maio, Antonia ficou três semanas no Brasil, longe dos rebentos, para atuar em Se Eu Fosse Você, em que contracena com Thiago Lacerda e Tony Ramos, com estréia prevista para janeiro de 2006. Foi seu maior papel até hoje. Ela faz Tereza, empresária, dona de uma fábrica de lingerie. O diretor Daniel Filho descobriu que, além de muito bonita, Antonia fotografa bem. "A câmera a namora bastante", diz. "Para o que eu precisava, ela é competente e cumpriu perfeitamente seu trabalho", avalia. Se tem potencial para crescer como atriz? "Vai ter de trabalhar bastante", aconselha. "Essa profissão é muito feita de exercício. Para mim, quem começa depois dos 12 anos está começando tarde." Antonia estuda duas novas possibilidades de trabalho, uma no Brasil, outra no exterior. Ela tem a vantagem de falar inglês, francês, italiano e espanhol. Também pensa em fazer teatro. Quem sabe, no futuro, produzir. "Não sei o que vai ser daqui para a frente", comenta. "Mas acho legal olhar para trás e dizer: 'Fiz o que queria, fui à luta' ", conclui Tereza Antonia Mayrink Veiga Frering. Ou melhor, a atriz Antonia Frering.

 

André Valentim/Strana

Ricardo Fasanello/Strana

"Antonia não tem medo de nada. Mete
a cara, isso é uma grande qualidade.
Há muito tempo eu achava que ela levava jeito para artista."
PATRÍCIA LEAL MAYRINK VEIGA, cunhada

"Nunca cogitei ser atriz. Nós duas
temos temperamentos muito diferentes. Mas ela está contente
e é isso o que interessa."
CARMEN MAYRINK VEIGA,
mãe

     
   

 

 
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