Fantasia de debutante

Sem príncipes e com muito som,
festas de 15 anos voltam à moda

Patrícia Malavez e Fabio Brisolla

Fotos Dilmar Cavalher/Strana
Joana de Luca comemorou seus 15 anos com uma festa a fantasia. O pai estava de árabe e a irmã, de anjinho. Os amigos se divertiram vestidos de Cleópatra, camponesa, Charada ou black power


Festa de 15 anos, superproduzida, com direito a valsa e uma multidão de amigos e parentes é mico, coisa do passado, certo? Errado. Aliás, erradíssimo, especialmente entre a garotada dos colégios mais abastados da Zona Sul e Barra. Para essa turma, comemorar os 15 anos é o máximo. Verdade que algumas adaptações foram feitas em relação às tradicionais festas de décadas atrás. A valsa pode até ser importante, mas que seja rápida. Adultos? Melhor convidar poucos, porque o que a garotada quer é agito (veja quadro). Que o diga Joana de Luca, aluna da Escola Americana. Ela passou meses imaginando como seria sua festa, o lugar, a decoração, quem convidar, a roupa dos amigos. Sonhou com cada detalhe. Os pais, Elizabeth e José, entraram na viagem, uma viagem cara, que fique claro, e cheia de exigências. O vestido da filha, por exemplo, precisou de cinco visitas à loja para que ficasse exatamente como Joana queria. O sapato foi encontrado em uma sapataria do Centro, após longa peregrinação. O resultado de tanto esmero deixou boquiabertos os convidados. No salão do Itanhangá, Joana usava um vestido de cetim que misturava toques punks e futurísticos. Ombreira pontuda, saia com armação de tule por baixo e longas botas prateadas. Os acessórios acompanhavam o clima. "Achei um arco de cabelo que parecia um pára-choque de carro e usei como colar." Pais e convidados entraram na onda. Tinha gente de Jade, Cleópatra, black power e até fantasiada de cotonete. "Tudo exatamente como eu queria", comemora Joana.

Definitivamente, os tempos mudaram. Mas organizadores de festas, DJs e decoradores são unânimes em afirmar que as festas de 15 anos voltaram com tudo. "Em 2000, se fiz três festas ao longo do ano foi muito. Agora, é uma por mês", festeja o cerimonialista Roberto Cohen. Joana é a confirmação viva da afirmação. Festa encerrada às 3 da manhã de sábado, às 9 da noite do mesmo dia ela chegava ao prédio em Ipanema onde a amiga Maria Luiza, filha de Tom e Ana Jobim, comemorava o aniversário. Que também não foi nada convencional. Em vez de alugar salão, a mãe da menina optou por usar um apartamento da família que estava desocupado. Na sala foi montada uma pista de dança e um grande bar em que dois bartenders faziam malabarismo ao preparar os drinques, como o personagem de Tom Cruise no filme Cocktail. Num ambiente ao lado ficava o estúdio fotográfico. Uma espécie de camarim improvisado repleto de perucas, óculos e roupas supercoloridas. Os convidados vestiam os apetrechos e eram fotografados por uma câmara digital. Em minutos saíam com a lembrancinha impressa e já com o nome de Luiza no canto da foto.

Fotos André Valentim/Strana
ana
Renata Kingston (de vestido branco na foto acima à esq.) distribuiu pantufas e maracas aos convidados, que, animados, dançaram chacoalhando o apetrecho (ao lado). O show ao vivo de uma banda (acima) deu o toque especial

Irreverência é uma das principais marcas do novo estilo de festa de 15 anos. "Quanto mais maluquice, mais a meninada ama", diz Ricardo Stambowsky, organizador da festa de Maria Luiza e de outras oito no ano passado. "O mais importante é a pista de dança, que precisa parecer uma boate de Nova York", diz. Realizar a façanha não é difícil com a tecnologia disponível. As empresas de som e iluminação possuem um verdadeiro arsenal: torres de alumínio para prender spots de luzes coloridas que se movimentam em todas as direções, estrobos ultrapotentes, raios laser que projetam estrelas e nomes, máquinas que lançam glitter ou confete sobre os convidados, e muito mais. Aparelhagem tão complexa que precisa de operador de luz para manejá-la. O efeito é sensacional, só não sai barato. Algo em torno de 3.000 reais, um investimento que pode garantir o sucesso da festa. "A animação depende totalmente do som", diz Renata Kingston, 15 anos recém-comemorados, que de tão preocupada com a música contratou um DJ e uma banda ao vivo para animar a festa que deu na Hípica. O grupo cover Groove Box apresentou dois sets de músicas de cinqüenta minutos cada um. O toque especial saiu em torno de 7.000 reais. Quando entraram pela segunda vez, fantasiados, os músicos atacaram de música caribenha. Ao mesmo tempo, recepcionistas distribuíam maracas entre os convidados, que, animadíssimos, iam se sacudindo pelo salão, um atrás do outro, como num trenzinho. "Foi a maior curtição", conta Leila, mãe de Renata, que estuda no Santo Agostinho.

Fotos Cristina Granato
Granato
Maria Luiza Jobim, filha de Tom, dançou com o irmão Paulo e tirou foto com peruca e óculos alugados

Os brindes de pista estão decididamente em alta. O único limite é a imaginação dos adolescentes e dos cerimonialistas. Em festas recentes foram distribuídos óculos pretos com luzinha que pisca, cordões de néon, pompons coloridos, sandálias japonesas e, o mais engraçado, pantufas com bichinhos e personagens de desenho animado. No fim do ano passado, na festa de Marcela Castelo Branco, filha do presidente da Universal Music, Marcelo Castelo Branco, os chinelões fizeram o maior sucesso. Na de Renata Kingston também. "Todo mundo só falava das pantufas no dia seguinte no colégio", diz. "Muito melhor que dar aqueles doces embrulhados em filó", constata Thaïs de Carvalho Dias, que coordenou o cerimonial. "Com os brindes de pista, a festa dá uma revigorada e dura mais umas duas horas", garante. Boa dica para Ellen Suzano, 14 anos, aluna da Escola Suíço-Brasileira, que planeja a festa de aniversário, em outubro, numa boate. Quando a mãe dela, Beth, falou em fazer uma festa entre 8 da noite e 1 da manhã, a menina chegou a arregalar os olhos de indignação. "Não pode ter hora para acabar de jeito nenhum. Só termina quando o último for embora", decretou. A julgar pelos recentes aniversários que badalaram a cidade, Beth não tem chance alguma. Apesar de as festas serem marcadas para as 9 da noite, os convidados chegam mesmo às 10 e meia, 11 horas.

Fotos álbum de família
mília
Yasmine, filha da empresária Lillian Sterea, e Alexia, filha de Patrícia Mayer, fizeram juntas uma festa que teve bolo, valsa, catorze casais, mas também som e pista de dança high tech como a de qualquer boate

Arrumadinhos, os meninos de terno e as meninas de vestido longo ou pelo menos até a altura do joelho, eles se esparramam pelos ambientes lounge, espécie de sala de estar com sofás, pufes e almofadões. Lugar sentado para todo mundo saiu de moda. "Senão o pessoal não levanta mais", diz a decoradora Tania Sequeira. No início da festa, as meninas cochicham entre si e apontam os garotos que acham "gatinhos", enquanto os meninos ficam quase que hipnotizados pelas bandejas com bebida que passam para lá e para cá. Aliás, controlar a bebida e evitar abuso dos adolescentes requer certo malabarismo dos organizadores. Cada um tem sua artimanha. Designar certos garçons só para servir os adultos, não servir álcool na primeira hora para que todos tenham tempo de forrar a barriga, desviar a atenção da molecada oferecendo drinques superproduzidos, mas sem álcool, e por aí vai. Lá pelas 11 e meia, a festa começa a esquentar. É a hora da valsa e do cerimonial, para acabar logo com isso e a festa poder pegar fogo. A forma varia muito de aniversário para aniversário. Na maioria, a menina dança somente com o pai e o avô. No máximo toca depois um New York, New York para os adultos, e está acabado. Longos discursos, aniversariante chegando de carruagem, fumaça e clipes mostrando a menina quando bebê estão completamente por fora.

Não que as festas tradicionais tenham deixado de existir. Estão é menos formais. As garotas que ainda curtem desfilar com outros catorze casais não querem que o cerimonial ultrapasse trinta minutos. "Senão vira apresentação de dança", diz Bianca Contursi, aluna do Bahiense, que vai comemorar os 15 anos na Villa Riso, em abril. Apesar de a festa ser black-tie e ter a valsa com casais, Bianca proibiu velas e o príncipe. "Aí fica demais." Mas, nessa história toda, o que a menina está curtindo mesmo é o bochicho que se instalou no colégio por causa da data. "Eu nunca fui a popular, só que o meu aniversário é a coisa mais falada do momento. Gente que eu nem conheço vem pedir convite", diverte-se. Para a grande parte das meninas, dar um festão é garantia de se tornar conhecida e fazer novos amigos. A estudante Tainá Marcondes Stephane trocou o colégio Anglo Americano pelo PH neste ano. Quando os convites de sua festa começaram a circular pela escola, há um mês, foi um tal de gente puxando conversa que ela até se surpreendeu. "Pessoas que eu nem sabia que conheciam o meu nome", conta.

 
Dilmar Cavalher/Strana
André Nazareth/Strana
Ellen Suzano fará festa em outubro e já decretou que não terá hora para acabar Mais tradicional, Bianca (à dir.) quer valsa e catorze casais, mas nada de príncipe

A vontade da filha de dar uma festa pegou a produtora Patrícia Mayer de surpresa. "Na minha época não quis porque achava tudo muito cafona", lembra a mãe. Mas Alexia, a filha, fez questão. Combinou com a melhor amiga, Yasmine, filha da empresária Lillian Rose Sterea, e as duas comemoraram juntas, em agosto passado, na Casa das Canoas. Para quem não quer ter muito trabalho, uma boa opção é escolher casas como essa, que oferecem pacote completo. "Já vem com bufê, DJ, segurança, estacionamento, manobrista e recepcionista", diz Patrícia. Também saem mais em conta que as festas organizadas por cerimonialistas. Mais em conta, porém jamais baratas. Uma recepção relativamente simples custa em torno de 15.000 reais (veja quadro). Para ter atrações diferentes, pista bem iluminada e decoração transada, o preço pode chegar a 60.000 reais. O gasto é alto, ninguém nega. Há até quem comece a poupar um ou dois anos antes. A mãe de Bianca Contursi reservou o salão quando a menina tinha 13 anos. "Sei que com o dinheiro da festa poderia comprar um carro, mas é a realização de um sonho", afirma Tânia Contursi. Algumas pessoas acreditam que a volta dos 15 anos tem a ver com a diminuição dos casamentos em igreja. Como os pais não têm como saber se a filha vai querer casar ou apenas morar junto, eles estariam investindo mais nas festas. A nutricionista Patrícia Marcondes Stephane já está na festa para a segunda filha, Tainá. Ela também reservou o salão com um ano de antecedência. "Tem gente que fala que é maluquice. Mas vale a pena curtir e festejar os bons momentos da vida." Patrícia se emociona com a lembrança da mãe, já falecida, que estava na festa da primeira filha, Natália, há três anos. "Fica o filme, ficam as fotos, mas mais do que tudo fica uma lembrança no coração." E isso não há dinheiro que pague.

 

SOBE

Investir na contratação de um DJ famoso, como os que animam as estações de rádio favoritas dos adolescentes, e numa iluminação high tech, que crie um clima de boate

Cerimonial rápido. Valsa, só com o pai e com o avô

Bufê light, com sushi ou pratos de massa servidos com molhos variados

Distribuição de brindes para ser usados na pista de dança, como maracas, pantufas, colares de néon

Banda tocando ao vivo

Decoração em estilo lounge, com sofás, pufes, poltronas e almofadas

Filmagem feita com pequenas câmaras digitais

Bombons e chocolatinhos espalhados na mesa de doces

Caderno de recordação, para os amigos deixarem bilhetinhos e assinatura no fim da festa

 

DESCE

Música voltada para o público adulto e muito flashback

Contratar artistas para animar a festa

Cerimonial de longa duração, com a aniversariante chegando de carruagem, troca de sapatinho e muita fumaça de gelo-seco

Mesas e cadeiras espalhadas pelo salão, com todos os convidados sentados para o jantar

Distribuição de docinhos embalados em filó como brinde

Decoração com muitos laços, no estilo menina-moça romântica

Equipe de filmagem carregando câmaras enormes e gigantescos spots de luz

Apresentação de videoclipes sobre a vida da aniversariante, com depoimentos da primeira professora, do pediatra, do papai, da mamãe...

Convidar muitos adultos para a festa

 
MEUS QUINZE ANOS...

CARMEN MAYRINK VEIGA: a matriarca das socialites cariocas não diz sua idade, mas estima-se que tenha completado 15 anos no início dos anos 50. Na época, as festas eram "absolutamente tradicionais". A debutante ia de branco, assim como todas as amigas convidadas para a valsa. Fazia parte do cerimonial a dança com o pai, com o irmão e com um namorado, mas não havia o ritual da troca de roupa. "É absolutamente ridículo ter de trocar de roupa para a valsa à meia-noite. Um vestido é o suficiente", ensina Carmen. Freqüentadora de festas de 15 anos no Clube Harmonia, em São Paulo, ou na casa de amigas, Carmen não comemorou como as demais. "Não haveria nada que me fizesse fazer uma festa de 15 anos. Não gosto de nada preestabelecido."

CLARA MAGALHÃES (43 ANOS): integrante da tradicional família Trussardi, comemorou com uma festa black-tie. Mas sem valsa. A filha de Clara, a jovem socialite Chiara, de 19 anos, foi mais discreta e optou por um jantar em família. A tradição da festa de 15 anos, no entanto, é elogiada por Clara. "A menina dançar com o pai, o irmão é uma celebração da vida, do amor à família."

PATRÍCIA LEAL (40 ANOS): quando fez 15 anos, no fim da década de 70, dançar a valsa era ultrapassado. "Acho que tudo acaba voltando, e essa turma de agora está mais careta", opina Patrícia, que não se preocupou nem mesmo em comemorar a data. "Nunca esquentei a cabeça com essa história de aniversário. Eu fazia festas o ano inteiro."

Álbum de família
Narcisa: festa de arromba no Chopin


NARCISA TAMBORINDEGUY (34 ANOS): a socialite fez uma festa de arromba no Edifício Chopin. Não houve valsa, a bebida foi liberada e a jovem Narcisa enfiou o pé na lama. "Tinha lança-perfume até não acabar. Eu cheirava lança, caía no chão e levantava novamente para cumprimentar os convidados que iam chegando."

DUDA PEREIRA LOYOLA (26 ANOS): comemorou com festa, mas sem valsa. Na época, no entanto, todas as amigas de Duda seguiam à risca o cerimonial. "Dancei valsa em várias festas, naquele estilo tradicional", relembra.

 
QUANTO CUSTA



CERIMONIAL:
o organizador da festa sugere salão, cardápio, o tipo de convite, indica outros profissionais necessários, recebe os convidados e, caso haja valsa, ensaia os participantes. De 2 000 a 5 000 reais. Os principais são: Amarilis Vianna ( 2287-3026), Éder Meneghini ( 3385-3294), Ricardo Stambowsky ( 2257-1177), Roberto Cohen ( 2235-3733), Rose Sadala ( 3325-0418) e Thaïs de Carvalho Dias ( 2294-0491).

LUGAR: o aluguel do salão, na maioria dos casos, inclui o serviço de bufê. O preço varia de 35 a 120 reais por pessoa. Entre os mais requisitados: Casa das Canoas ( 3322-0640), Casa do Alto ( 2288-4747), Copacabana Palace ( 2548-7070), Hípica ( 2527-8090), Jockey ( 2540-6345), Spazio Itanhangá ( 2495-4450) e Villa Riso ( 3322-1444).

SOM E LUZ: ponto alto da festa. Transformam salões em boates. De 800 a 3 000 reais. O uso de banda ao vivo aumenta o preço para 3 500 a 15 000 reais. Os profissionais mais disputados: Jaime Liande ( 2557-3698), Otávio Aoad ( 3875-7570) e Roberto Prallon ( 2438-2675).

DECORAÇÃO: inclui móveis e cenografia. De 5.000 a 30.000 reais. Os destaques são: Ovídio Cavalleiro ( 2235-5585), Mônica Cordeiro Guerra ( 2513-0879), Tania Sequeira ( 3322-6797) e Márcia Lacerda ( 2445-9005).

BOLO: de 600 a 1 500 reais. As principais fornecedoras são: Margarida Pereira ( 2205-0353), Nilce Laércio ( 2232-1137) e Roseli Bonfante ( 2235-4189).

DOCES: de 750 a 2 000 reais. As principais confeiteiras são: Beth Garber (para chocolates, 2556-1970), Luiza Helena Iulianelli ( 2289-8636) e Regina Montello ( 3471-3363).

FOTOS E VÍDEO: de 2 000 a 4 000 reais. A moda é usar câmaras digitais. Os profissionais mais procurados: Ribas ( 2521-0157), Aszmann ( 2257-0726) e Jorge Shafim ( 2610-2125).

CONVITES: de 400 a 5 000 reais. Os fornecedores recomendados: Paul Natan ( 2240-0435), Eurostyle ( 2224-4946) e Cartolina Design ( 3153-2708).

EXTRAS: preços variáveis. Barman que faz malabarismo, de 2 000 a 6 000 reais; caricaturista, 1 000 reais; chuva de confete, 2 500 reais; estúdio para fotos divertidas, 3 000 reais para 250 fotos.