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CRÔNICA
Perda
total Tutty
Vasques O
texto que deveria estar publicado aqui desapareceu misteriosamente na madrugada
da véspera de seu fechamento. Eram 2h20 quando, antes de desligar o computador,
arquivei o artigo, planejando na manhã daquela quinta-feira enviá-lo
aos meus editores depois de uma última lida. Dormi poucas horas
quatro ou cinco, no máximo e às 9 horas, depois da costumeira
caminhada matinal, já estava sentado de volta na máquina para mais
uma vez escapar ao rótulo de "velho atrasador de revista".
Não sei se
o leitor sabe que sensação é essa que passo agora a descrever,
mas quando chamei de volta o nome do arquivo veio à tela um texto antigo,
mero esboço do que concluí na madrugada de ontem. Havia pelo menos
sete horas de trabalho não registradas no rascunho. Trabalhando nisso há
muitos anos, aprendi a não entrar em pânico nessas horas. Apelei
para o raciocínio lógico: se eu desliguei a máquina sem dela
receber nenhum alerta de procedimento anormal, calma, o que eu havia escrito para
sair publicado nesta página tinha de estar salvo em alguma pasta, ainda
que não a de sempre, do meu PC. Tenho
um método meio maluco de produção: como trabalho diariamente
em dois computadores o de casa e o do escritório , sempre
que me locomovo de uma máquina para outra envio por e-mail o arquivo básico
onde registro e desenvolvo idéias de texto. Chama-se "depósito",
mas trata-se na verdade de uma oficina de criação. Artigo pronto
não pára ali, sai quase sempre já meio atrasado para cumprir
seu destino em alguma publicação. Tal esquema me exige uma única
atenção, que, até pela repetição, se torna
mecânica de rotina. É o seguinte: toda vez que abrimos um arquivo
de texto Word enviado por e-mail, o computador o mantém numa pasta chamada
"temporário", esperando que o comando "salvar como" lhe dê caráter
permanente em outra pasta, no caso a dos "meus documentos".
De vez em quando,
empolgado com alguma besteira que esteja escrevendo, esqueço desse detalhe,
mas no dia seguinte, passado o susto inicial de encontrar seu texto no ponto em
que estava antes do trabalho de véspera, meia dúzia de cliques com
o botão esquerdo do mouse levam ao artigo fujão. "Iniciar", "pesquisar",
"todos os arquivos e pastas", escreva o nome do arquivo procurado, de novo "pesquisar"
e, pronto, pela hora em que você desligou o computador é possível
chegar à última versão do texto antes de seu desaparecimento.
Foi o que fiz, inexplicavelmente sem resultado, quando sumiu o texto que deveria
estar publicado nesta página. Com a ajuda do "Windows Explorer" e de um
técnico acionado por telefone, vasculhei cada cantinho da memória
da máquina. Nada! Ao
meio-dia dessa maldita quinta-feira dei as buscas por encerradas. O desaparecimento
do artigo que deveria estar publicado nesta página de Veja Rio consta
do livro de ocorrências de minha vida profissional como mais um acidente
decorrente do conjunto de fenômenos sobrenaturais conhecido como "poltergeist".
Chega uma hora em que tudo que se pode fazer diante de um drama eletrônico
dessa monta é tentar esquecê-lo, atribuí-lo ao imponderável.
Esquecer, no caso, não só o drama, mas o artigo em questão,
também. A sensação de ter sido roubado em um pedaço
de seu trabalho só faz se agravar se você tenta apelar à sua
própria memória para reconstituir o texto desaparecido. Quem é
do ramo sabe o tormento que é escrever com o fantasma do texto que já
foi escrito a assombrar suas idéias. Deus me livre!
E que meu Menininho
Jesus de Praga não permita nunca que, nesses momentos difíceis de
contratempos eletrônicos, eu sinta saudade do tempo em que o computador
ainda não havia sido apresentado ao Jornalismo. Se um dia eu tiver netos
para contar como era feito um jornal quando entrei pela primeira vez numa redação,
eles provavelmente vão achar que estou gagá. Trabalhávamos
na Idade Média da imprensa até vinte anos atrás. Sou do tempo
em que os editores usavam tesoura, cola e papel para corrigir textos datilografados
em máquinas dos anos 50. Escrevíamos sem recursos para deletar,
selecionar, recortar, copiar, colar, localizar ou contar palavras e caracteres,
dividir tela, inserir, formatar, salvar... Suo frio só de lembrar. Não
havia internet, Google, e-mail, celular, nada. Meu
Deus, eu sou do tempo do telex! Procuro
pensar nesse quadro aterrorizante sempre que a modernidade me prega uma peça
e faz desaparecer um texto como esse que deveria estar publicado nesta página
e, vocês sabem, desapareceu misteriosamente na madrugada da última
quinta-feira. Dói menos começar tudo de novo ainda que não
se tenha tempo para encontrar outro assunto, mas não se perca ao menos
a consciência de que antes do poltergeist eram as trevas.
Agradeço a
compreensão se não a compaixão dos leitores.
Prometo ser mais cuidadoso com minha rotina eletrônica nos próximos
textos que fizer para esta página da revista. E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br
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