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2 de agosto de 2006

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CRÔNICA

Perda total

Tutty Vasques

O texto que deveria estar publicado aqui desapareceu misteriosamente na madrugada da véspera de seu fechamento. Eram 2h20 quando, antes de desligar o computador, arquivei o artigo, planejando na manhã daquela quinta-feira enviá-lo aos meus editores depois de uma última lida. Dormi poucas horas – quatro ou cinco, no máximo – e às 9 horas, depois da costumeira caminhada matinal, já estava sentado de volta na máquina para mais uma vez escapar ao rótulo de "velho atrasador de revista".

Não sei se o leitor sabe que sensação é essa que passo agora a descrever, mas quando chamei de volta o nome do arquivo veio à tela um texto antigo, mero esboço do que concluí na madrugada de ontem. Havia pelo menos sete horas de trabalho não registradas no rascunho. Trabalhando nisso há muitos anos, aprendi a não entrar em pânico nessas horas. Apelei para o raciocínio lógico: se eu desliguei a máquina sem dela receber nenhum alerta de procedimento anormal, calma, o que eu havia escrito para sair publicado nesta página tinha de estar salvo em alguma pasta, ainda que não a de sempre, do meu PC.

Tenho um método meio maluco de produção: como trabalho diariamente em dois computadores – o de casa e o do escritório –, sempre que me locomovo de uma máquina para outra envio por e-mail o arquivo básico onde registro e desenvolvo idéias de texto. Chama-se "depósito", mas trata-se na verdade de uma oficina de criação. Artigo pronto não pára ali, sai quase sempre já meio atrasado para cumprir seu destino em alguma publicação. Tal esquema me exige uma única atenção, que, até pela repetição, se torna mecânica de rotina. É o seguinte: toda vez que abrimos um arquivo de texto Word enviado por e-mail, o computador o mantém numa pasta chamada "temporário", esperando que o comando "salvar como" lhe dê caráter permanente em outra pasta, no caso a dos "meus documentos".

De vez em quando, empolgado com alguma besteira que esteja escrevendo, esqueço desse detalhe, mas no dia seguinte, passado o susto inicial de encontrar seu texto no ponto em que estava antes do trabalho de véspera, meia dúzia de cliques com o botão esquerdo do mouse levam ao artigo fujão. "Iniciar", "pesquisar", "todos os arquivos e pastas", escreva o nome do arquivo procurado, de novo "pesquisar" e, pronto, pela hora em que você desligou o computador é possível chegar à última versão do texto antes de seu desaparecimento. Foi o que fiz, inexplicavelmente sem resultado, quando sumiu o texto que deveria estar publicado nesta página. Com a ajuda do "Windows Explorer" e de um técnico acionado por telefone, vasculhei cada cantinho da memória da máquina. Nada!

Ao meio-dia dessa maldita quinta-feira dei as buscas por encerradas. O desaparecimento do artigo que deveria estar publicado nesta página de Veja Rio consta do livro de ocorrências de minha vida profissional como mais um acidente decorrente do conjunto de fenômenos sobrenaturais conhecido como "poltergeist". Chega uma hora em que tudo que se pode fazer diante de um drama eletrônico dessa monta é tentar esquecê-lo, atribuí-lo ao imponderável. Esquecer, no caso, não só o drama, mas o artigo em questão, também. A sensação de ter sido roubado em um pedaço de seu trabalho só faz se agravar se você tenta apelar à sua própria memória para reconstituir o texto desaparecido. Quem é do ramo sabe o tormento que é escrever com o fantasma do texto que já foi escrito a assombrar suas idéias. Deus me livre!

E que meu Menininho Jesus de Praga não permita nunca que, nesses momentos difíceis de contratempos eletrônicos, eu sinta saudade do tempo em que o computador ainda não havia sido apresentado ao Jornalismo. Se um dia eu tiver netos para contar como era feito um jornal quando entrei pela primeira vez numa redação, eles provavelmente vão achar que estou gagá. Trabalhávamos na Idade Média da imprensa até vinte anos atrás. Sou do tempo em que os editores usavam tesoura, cola e papel para corrigir textos datilografados em máquinas dos anos 50. Escrevíamos sem recursos para deletar, selecionar, recortar, copiar, colar, localizar ou contar palavras e caracteres, dividir tela, inserir, formatar, salvar... Suo frio só de lembrar. Não havia internet, Google, e-mail, celular, nada.

Meu Deus, eu sou do tempo do telex!

Procuro pensar nesse quadro aterrorizante sempre que a modernidade me prega uma peça e faz desaparecer um texto como esse que deveria estar publicado nesta página e, vocês sabem, desapareceu misteriosamente na madrugada da última quinta-feira. Dói menos começar tudo de novo ainda que não se tenha tempo para encontrar outro assunto, mas não se perca ao menos a consciência de que antes do poltergeist eram as trevas.

Agradeço a compreensão – se não a compaixão – dos leitores. Prometo ser mais cuidadoso com minha rotina eletrônica nos próximos textos que fizer para esta página da revista.

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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