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2 de agosto de 2006

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REPORTAGEM DE CAPA

Lapa quente

Bairro boêmio expande
fronteiras e aumenta seu público

Lívia de Almeida, Gustavo Autran e Carlos Henrique Braz

 
André Nazareth/Strana
Sexta à noite: burburinho na entrada do Circo antes do show do Monobloco

A Lapa atrai 10 mil visitantes por semana

Estima-se que o gasto médio por pessoa seja de R$ 33,00, com movimentação semanal de R$ 3,6 milhões

De 116 estabelecimentos pesquisados na região, 28 têm atividades musicais ou teatrais


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Noite de sexta-feira. A atriz Carla Marins e o namorado, João Marcelo Di Martino, decidiram zanzar pela Lapa depois de ver o balé de Débora Colker no Teatro João Caetano. A caminhada da Praça Tiradentes aos Arcos durou alguns minutos. "Chegamos desprogramados, para escolher na hora um lugar para ficar", disse a atriz. O casal cogitou conferir o show do Monobloco no Circo Voador, mas desanimou diante da fila que serpenteava a esquina. Resolveu, então, seguir até o Clube dos Democráticos, na Rua do Riachuelo, e dançar ao som do grupo Garrafieira. Sobravam opções de entretenimento pela região. No Teatro Odisséia, uma turma jovem sacolejava com o rock da festa Loud! Do outro lado da rua, a sambista Teresa Cristina lotava, como de hábito, o Carioca da Gema. Ao dobrar a esquina, dois quarteirões adiante, cinqüentões, jovens e turistas se dividiam entre o show de Zé da Velha e Silvério Pontes e a pista de dança do Rio Scenarium. Como milhares de freqüentadores, Carla Marins e João Marcelo descobriram que nenhum outro bairro da cidade reúne tantas e tão variadas opções musicais. A multiplicação recente do circuito de casas de show e bares espraiou as fronteiras boêmias do bairro. Delimitada pelos Arcos e pelas ruas Riachuelo, Lavradio e Carlos Gomes, a Grande Lapa tem mais de 110 endereços ligados ao entretenimento. "O Rio Scenarium é citado como parte da Lapa, embora estejamos no contexto da Praça Tiradentes", diz Plínio Fróes, dono da casa. "Na realidade, onde tem agitação por esta região se fala em Lapa." A expansão resultou na criação do Novo Rio Antigo, associação que reúne 120 espaços culturais do circuito Cinelândia–Praça Tiradentes.

No início dos anos 80, a Lapa tinha espasmos de vida noturna com os shows do Circo Voador e os concertos da Sala Cecília Meirelles, ilhas de agitação cercadas por sobrados em ruína. A partir dos 90, o casario da Rua da Lapa começou a ser ocupado por entidades culturais e a Fundição Progresso passou a acolher festas que atraíam diversas tribos jovens. Outra iniciativa bem-sucedida partiu dos antiquários da Rua do Lavradio, que começaram a promover uma feira de antiguidades. A animação cresceu quando as rodas de samba desceram de Santa Teresa e encontraram abrigo no tradicional reduto boêmio. No fim da década de 90, a Lapa já ensaiava uma revitalização, tomada por amantes de samba, hip hop, forró, mambo, salsa e tecno. A virada para valer ocorreu no início do século XXI, quando pipocaram espaços que priorizavam o conforto, os bons serviços e uma infra-estrutura adequada para espetáculos. "Com a abertura de casas como Carioca da Gema, Sacrilégio e Estrela da Lapa, o local passou a atrair também o cliente mais velho, mais sofisticado e com melhor poder de consumo", analisa Perfeito Fortuna, administrador da Fundição Progresso e um dos responsáveis por fincar no bairro a lona do Circo Voador.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Rio Scenarium: incluído na programação dos visitantes da cidade

Há dois anos, com a consolidação da programação da Fundição Progresso, a inauguração do Teatro Odisséia e a reabertura do Circo Voador todo remodelado, a Lapa virou o núcleo da cidade para shows de variadas dimensões. Com capacidade para receber 2.000 pessoas, o Circo já apresentou neste ano o badalado grupo Franz Ferdinand e promete outras atrações internacionais (veja quadro). Com metade dessa capacidade, o Odisséia foi palco para o único show na cidade da incensada cantora francesa Camille. Espécie de Maracanã do bairro, a Fundição pode abrigar até 8.000 espectadores. Foi o local escolhido pelo cantor e compositor catalão Mano Chao para exibir-se no Rio. A casa está investindo 180.000 reais em reformas. O palco terá pé-direito de 23 metros e capacidade para receber montagens de balé e ópera. "Será o melhor palco alternativo ao Municipal", aposta Perfeito Fortuna.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Taíssa e Olivia no Odisséia: diversão em conta

Uma pesquisa do Sebrae-RJ e do DataUFF, realizada dois anos atrás, evidenciou a revitalização da área. O levantamento, feito com 116 estabelecimentos da Grande Lapa, constatou a passagem de 110.000 pessoas por semana na área, com movimentação financeira estimada em até 3,6 milhões de reais em sete dias, considerando-se um gasto médio de 33 reais por cabeça. A variedade de opções atrai gente como as estudantes Taíssa Lima e Olivia Amsler, que costumam ir ao Teatro Odisséia, à Fundição e ao Circo. "Nem dá para comparar com a Zona Sul. Aqui, eu gasto 30 reais numa noite. Em Ipanema, são pelo menos 50 reais", diz Taíssa. No Rio Scenarium, onde o ingresso custa 20 reais no fim de semana – uma fortuna, em se tratando de Lapa –, a platéia pode incluir o diretor de cinema Arnaldo Jabor e a colunista Hildegard Angel. A pizzaria Encontros Cariocas foi a escolhida pela top Gisele Bündchen para fazer uma boquinha depois de desfilar na semana de moda, em junho. O número de estabelecimentos na área não pára de crescer, ampliando as ofertas de entretenimento. Nos últimos meses, um sobrado abandonado da Gomes Freire, praticamente só fachada e paredes laterais, passou por obras de 800.000 reais para virar a casa de samba Mistura Carioca. "O imóvel estava caindo pelas tabelas. Tivemos de mexer em tudo", comenta o sócio Márcio Araújo. A revitalização vem em efeito dominó. Numa esquina da Rua do Riachuelo, o produtor e cantor Rodrigo Quik transformou um boteco decadente em uma casa rústica e agradável, o Cachaça Esporte Clube, onde são oferecidos 120 tipos da branquinha. Ainda na surdina, foi aberto também o Brasil Mestiço, cujas vedetes são os shows de música brasileira e as performances de DJs.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Negrogato, na Rua do Riachuelo: bar na Lapa com jeitão de Soho

"A Lapa é um universo sem fronteiras. Pode-se abrir de um boteco que venda cerveja em garrafa a uma champanheria. Ao contrário do que acontece na Zona Sul, aqui o vizinho não reclama do barulho", diz o empresário Leonardo Feijó, um dos sócios do Teatro Odisséia e do Casarão Cultural dos Arcos, aberto no ano passado. Ele já prepara mais dois empreendimentos: a Choperia Brazooka, ao lado do teatro, e uma casa de samba e choro na Rua Evaristo da Veiga, outro ponto para onde o bairro se amplia. O Botequim Informal também vai fincar sua grife na Lapa com a abertura de uma filial ao lado do tradicional Bar Brasil. Os sócios da rede de cozinha mexicana Guapo Loco já estão à procura de um ponto. Clientela não faltará. Espera-se novo afluxo de pessoas a partir de 2008, com a conclusão das obras do Cores da Lapa, megacondomínio na Rua do Riachuelo com 680 apartamentos.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Trio do Carioca da Gema: "Camembert"

A nova leva de atrações aposta em peculiaridades desprezadas na Lapa de outrora: boa aparelhagem de som, sistema de refrigeração eficiente, decoração esmerada, serviço profissionalizado e, fundamentalmente, conforto. "A era do amadorismo na Lapa acabou", diz o empresário Thiago Cesário Alvim, sócio do Carioca da Gema e da pizzaria Encontros Cariocas. A história de Thiago é exemplar. Nos idos de 1997, ele se apaixonou pela área ao assistir a um show de samba no finado Arco da Velha. Nessa época, o circuito era reduzido ao Circo Voador, então em decadência, à Fundição Progresso e aos bares musicais Arco da Velha e Semente. Com a mulher, Mariana, e a irmã Carolina, Thiago juntou 20 000 reais de seu fundo de garantia e aplicou na reforma da casa de número 100 da Rua do Lavradio. O espaço era chamado oficialmente de Coisas da Antiga, mas ganhou mesmo fama com o nome de Emporium 100. "Nós mesmos fazíamos o serviço. Não tinha cozinha, apenas forno de microondas e um fogareiro com duas bocas. O banheiro era precário e vivia com problemas", recorda ele. Sem sistema de som, a grande atração da casa era uma roda de samba somente no gogó que chegava a reunir 300 pessoas. Escaldado pela experiência, Thiago e companhia resolveram abrir o Carioca da Gema com novidades como banheiro limpinho, mesa de som com doze canais e cozinha profissional, de onde saíam não só bolinho de bacalhau como também patê de foie gras e tábua de queijos. "Trouxemos o camembert para o samba", diverte-se Carolina. A casa dispõe de um cadastro de taxistas para facilitar o transporte na madrugada e tem convênio com um estacionamento na Rua Gomes Freire.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Márcio, do Mistura Carioca: aposta no conforto

A atual safra de empreendimentos sedimentou um novo padrão na vida noturna do bairro. Nas proximidades do Carioca da Gema, a Estrela da Lapa tem manobristas terceirizados. A Rio Scenarium, que chama atenção pela decoração, repleta de antiguidades, foi decisiva para a revitalização da Rua do Lavradio. Com capacidade para 800 pessoas, ela já foi descoberta pelas agências de turismo e passou a constar do roteiro de grupos de visitantes estrangeiros. Duas semanas atrás, Nicolas Orget, sócio de uma agência, fechou o 3º andar da casa para um grupo de 300 australianos e neozelandeses de uma empresa de refrigeração. A turma ganhou pulseirinha laranja para poder circular livremente, com direito a shows, bebidas e petiscos. Chris Pisani, de Sydney, chegou a arriscar passos de samba com sua irmã Mary Sevag. "Já tinha ouvido falar muito de Downtown Rio. Estava ansioso por conhecê-lo. É lindo", diz Pisani.

Mas muito ainda falta ser feito em Downtown Rio. O trânsito caótico com engarrafamentos pela madrugada e o déficit de vagas são crônicos. A iluminação também carece de melhora. Há, inclusive, um projeto na Câmara de Vereadores para interligar as áreas de lazer do Centro por um corredor iluminado. Outro problema é a violência. Na madrugada de sábado (22), dezessete pessoas deram queixa de roubo de celular na 5ª DP, localizada no coração do bairro, na Rua Gomes Freire. No mês de maio, foram registrados 317 furtos e 158 roubos na região. As casas também têm seus problemas. Na mesma noite em que Pisani curtia o samba no 3º andar da Rio Scenarium, uma fila de 100 metros ocupou a calçada por mais de duas horas. Na saída, os freqüentadores enfrentam o mesmo transtorno que os de outras casas da região, como o Teatro Odisséia. Por volta das 4 da manhã, há longas filas diante dos caixas, a ponto de arrastarem cadeiras para amenizar a espera. É o preço do sucesso? "O crescimento da Lapa não se deve a investimentos municipais, estaduais ou federais", destaca Perfeito Fortuna. "Foi a comunidade empresarial que fez e aconteceu." Com ou sem o apoio oficial, o carioca definitivamente já tomou posse desse novo velho reduto da boêmia.

 

Lapa, ontem e hoje

Anos 30 e 40

Reduto da boemia carioca, de malandros como Madame Satã

Anos 60 e 70

O bairro sofreu um longo período de abandono, apesar de manter alguns bares e restaurantes tradicionais, como o Capela, o Bar Brasil e a Casa Cosmopolita

Anos 80

A chegada do Circo Voador, em 1982, movimenta a região dos Arcos com um público essencialmente jovem

Anos 90

As rodas de samba começam a movimentar a área e a trazer para o pedaço gente de toda a cidade. O público continua sendo jovem e desligado de questões como o conforto

Atual

A melhoria na infra-estrutura das casas de espetáculos e bares da área atrai público de variadas idades e perfis socioeconômicos. A programação do bairro passou a fazer parte de pacotes turísticos



Lapa, ontem e hoje

 
Dilmar Cavalher/Strana

O CASUARINA nasceu no Humaitá e se criou na Lapa. O quinteto é habitué do circuito musical da região. Depois de fazer shows no Semente e no finado Dama da Noite, atualmente se alterna entre Rio Scenarium, Circo Voador e Fundição Progresso. "Foram pelo menos 500 apresentações", diz o cantor João Cavalcanti.

 

Dilmar Cavalher/Strana

EDUARDO GALLOTTI tem vinte anos de Lapa. Começou tocando cavaquinho no Arco da Velha, nos anos 80. Voltou ao reduto com o levante de sambistas egressos de Santa Teresa. Hoje ele se apresenta com o sexteto vocal Anjos da Lua e a Orquestra Republicana no Clube dos Democráticos. "Já vendi de mão em mão mais de 3 500 CDs."

 

Divulgação

FRANZ FERDINAND, a aclamada banda escocesa que fez em fevereiro um concorrido show no Circo Voador, tem retorno marcado à Lapa. O quarteto estará na Fundição Progresso no dia 14 de setembro. Outras atrações internacionais programadas para tocar na Fundição são Ziggy Marley (6 e 7 de outubro), a banda de punk rock americana Yellowcard (18 de agosto), o grupo de thrash metal Slayer (6 de setembro) e a banda britânica New Order, em novembro. A cantora francesa Camille foi outra estrela estrangeira que só se exibiu no bairro. Seu show experimental e performático foi no Teatro Odisséia, em abril.

     
   

 

 
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