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REPORTAGEM DE CAPA
Lapa quente Bairro boêmio expande fronteiras e aumenta
seu público Lívia de Almeida, Gustavo Autran e Carlos
Henrique Braz
André Nazareth/Strana
 | | Sexta
à noite: burburinho na entrada do Circo antes do show do Monobloco
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A Lapa atrai 10 mil visitantes por
semana
Estima-se que o gasto
médio por pessoa
seja de R$ 33,00, com
movimentação
semanal de
R$ 3,6 milhões
De 116 estabelecimentos
pesquisados na região, 28 têm atividades
musicais ou teatrais
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Noite
de sexta-feira. A atriz Carla Marins e o namorado, João Marcelo Di Martino,
decidiram zanzar pela Lapa depois de ver o balé de Débora Colker
no Teatro João Caetano. A caminhada da Praça Tiradentes aos Arcos
durou alguns minutos. "Chegamos desprogramados, para escolher na hora um lugar
para ficar", disse a atriz. O casal cogitou conferir o show do Monobloco no Circo
Voador, mas desanimou diante da fila que serpenteava a esquina. Resolveu, então,
seguir até o Clube dos Democráticos, na Rua do Riachuelo, e dançar
ao som do grupo Garrafieira. Sobravam opções de entretenimento pela
região. No Teatro Odisséia, uma turma jovem sacolejava com o rock
da festa Loud! Do outro lado da rua, a sambista Teresa Cristina lotava, como de
hábito, o Carioca da Gema. Ao dobrar a esquina, dois quarteirões
adiante, cinqüentões, jovens e turistas se dividiam entre o show de
Zé da Velha e Silvério Pontes e a pista de dança do Rio Scenarium.
Como milhares de freqüentadores, Carla Marins e João Marcelo descobriram
que nenhum outro bairro da cidade reúne tantas e tão variadas opções
musicais. A multiplicação recente do circuito de casas de show e
bares espraiou as fronteiras boêmias do bairro. Delimitada pelos Arcos e
pelas ruas Riachuelo, Lavradio e Carlos Gomes, a Grande Lapa tem mais de 110 endereços
ligados ao entretenimento. "O Rio Scenarium é citado como parte da Lapa,
embora estejamos no contexto da Praça Tiradentes", diz Plínio Fróes,
dono da casa. "Na realidade, onde tem agitação por esta região
se fala em Lapa." A expansão resultou na criação do Novo
Rio Antigo, associação que reúne 120 espaços culturais
do circuito CinelândiaPraça Tiradentes.
No início dos
anos 80, a Lapa tinha espasmos de vida noturna com os shows do Circo Voador e
os concertos da Sala Cecília Meirelles, ilhas de agitação
cercadas por sobrados em ruína. A partir dos 90, o casario da Rua da Lapa
começou a ser ocupado por entidades culturais e a Fundição
Progresso passou a acolher festas que atraíam diversas tribos jovens. Outra
iniciativa bem-sucedida partiu dos antiquários da Rua do Lavradio, que
começaram a promover uma feira de antiguidades. A animação
cresceu quando as rodas de samba desceram de Santa Teresa e encontraram abrigo
no tradicional reduto boêmio. No fim da década de 90, a Lapa já
ensaiava uma revitalização, tomada por amantes de samba, hip hop,
forró, mambo, salsa e tecno. A virada para valer ocorreu no início
do século XXI, quando pipocaram espaços que priorizavam o conforto,
os bons serviços e uma infra-estrutura adequada para espetáculos.
"Com a abertura de casas como Carioca da Gema, Sacrilégio e Estrela da
Lapa, o local passou a atrair também o cliente mais velho, mais sofisticado
e com melhor poder de consumo", analisa Perfeito Fortuna, administrador da Fundição
Progresso e um dos responsáveis por fincar no bairro a lona do Circo Voador.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Rio
Scenarium: incluído na
programação dos visitantes
da cidade |
Há
dois anos, com a consolidação da programação da Fundição
Progresso, a inauguração do Teatro Odisséia e a reabertura
do Circo Voador todo remodelado, a Lapa virou o núcleo da cidade para shows
de variadas dimensões. Com capacidade para receber 2.000 pessoas, o Circo
já apresentou neste ano o badalado grupo Franz Ferdinand e promete outras
atrações internacionais (veja quadro).
Com metade dessa capacidade, o Odisséia foi palco para o único show
na cidade da incensada cantora francesa Camille. Espécie de Maracanã
do bairro, a Fundição pode abrigar até 8.000 espectadores.
Foi o local escolhido pelo cantor e compositor catalão Mano Chao para exibir-se
no Rio. A casa está investindo 180.000 reais em reformas. O palco terá
pé-direito de 23 metros e capacidade para receber montagens de balé
e ópera. "Será o melhor palco alternativo ao Municipal", aposta
Perfeito Fortuna.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Taíssa
e Olivia no Odisséia:
diversão em conta
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Uma
pesquisa do Sebrae-RJ e do DataUFF, realizada dois anos atrás, evidenciou
a revitalização da área. O levantamento, feito com 116 estabelecimentos
da Grande Lapa, constatou a passagem de 110.000 pessoas por semana na área,
com movimentação financeira estimada em até 3,6 milhões
de reais em sete dias, considerando-se um gasto médio de 33 reais por cabeça.
A variedade de opções atrai gente como as estudantes Taíssa
Lima e Olivia Amsler, que costumam ir ao Teatro Odisséia, à Fundição
e ao Circo. "Nem dá para comparar com a Zona Sul. Aqui, eu gasto 30 reais
numa noite. Em Ipanema, são pelo menos 50 reais", diz Taíssa. No
Rio Scenarium, onde o ingresso custa 20 reais no fim de semana uma fortuna,
em se tratando de Lapa , a platéia pode incluir o diretor de cinema
Arnaldo Jabor e a colunista Hildegard Angel. A pizzaria Encontros Cariocas foi
a escolhida pela top Gisele Bündchen para fazer uma boquinha depois de desfilar
na semana de moda, em junho. O número de estabelecimentos na área
não pára de crescer, ampliando as ofertas de entretenimento. Nos
últimos meses, um sobrado abandonado da Gomes Freire, praticamente só
fachada e paredes laterais, passou por obras de 800.000 reais para virar a casa
de samba Mistura Carioca. "O imóvel estava caindo pelas tabelas. Tivemos
de mexer em tudo", comenta o sócio Márcio Araújo. A revitalização
vem em efeito dominó. Numa esquina da Rua do Riachuelo, o produtor e cantor
Rodrigo Quik transformou um boteco decadente em uma casa rústica e agradável,
o Cachaça Esporte Clube, onde são oferecidos 120 tipos da branquinha.
Ainda na surdina, foi aberto também o Brasil Mestiço, cujas vedetes
são os shows de música brasileira e as performances de DJs.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Negrogato,
na Rua do Riachuelo: bar na Lapa com jeitão de Soho
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"A
Lapa é um universo sem fronteiras. Pode-se abrir de um boteco que venda
cerveja em garrafa a uma champanheria. Ao contrário do que acontece na
Zona Sul, aqui o vizinho não reclama do barulho", diz o empresário
Leonardo Feijó, um dos sócios do Teatro Odisséia e do Casarão
Cultural dos Arcos, aberto no ano passado. Ele já prepara mais dois empreendimentos:
a Choperia Brazooka, ao lado do teatro, e uma casa de samba e choro na Rua Evaristo
da Veiga, outro ponto para onde o bairro se amplia. O Botequim Informal também
vai fincar sua grife na Lapa com a abertura de uma filial ao lado do tradicional
Bar Brasil. Os sócios da rede de cozinha mexicana Guapo Loco já
estão à procura de um ponto. Clientela não faltará.
Espera-se novo afluxo de pessoas a partir de 2008, com a conclusão das
obras do Cores da Lapa, megacondomínio na Rua do Riachuelo com 680 apartamentos.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Trio
do Carioca da Gema: "Camembert"
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A
nova leva de atrações aposta em peculiaridades desprezadas na Lapa
de outrora: boa aparelhagem de som, sistema de refrigeração eficiente,
decoração esmerada, serviço profissionalizado e, fundamentalmente,
conforto. "A era do amadorismo na Lapa acabou", diz o empresário Thiago
Cesário Alvim, sócio do Carioca da Gema e da pizzaria Encontros
Cariocas. A história de Thiago é exemplar. Nos idos de 1997, ele
se apaixonou pela área ao assistir a um show de samba no finado Arco da
Velha. Nessa época, o circuito era reduzido ao Circo Voador, então
em decadência, à Fundição Progresso e aos bares musicais
Arco da Velha e Semente. Com a mulher, Mariana, e a irmã Carolina, Thiago
juntou 20 000 reais de seu fundo de garantia e aplicou na reforma da casa de número
100 da Rua do Lavradio. O espaço era chamado oficialmente de Coisas da
Antiga, mas ganhou mesmo fama com o nome de Emporium 100. "Nós mesmos fazíamos
o serviço. Não tinha cozinha, apenas forno de microondas e um fogareiro
com duas bocas. O banheiro era precário e vivia com problemas", recorda
ele. Sem sistema de som, a grande atração da casa era uma roda de
samba somente no gogó que chegava a reunir 300 pessoas. Escaldado pela
experiência, Thiago e companhia resolveram abrir o Carioca da Gema com novidades
como banheiro limpinho, mesa de som com doze canais e cozinha profissional, de
onde saíam não só bolinho de bacalhau como também
patê de foie gras e tábua de queijos. "Trouxemos o camembert para
o samba", diverte-se Carolina. A casa dispõe de um cadastro de taxistas
para facilitar o transporte na madrugada e tem convênio com um estacionamento
na Rua Gomes Freire.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Márcio,
do Mistura Carioca: aposta no conforto |
A
atual safra de empreendimentos sedimentou um novo padrão na vida noturna
do bairro. Nas proximidades do Carioca da Gema, a Estrela da Lapa tem manobristas
terceirizados. A Rio Scenarium, que chama atenção pela decoração,
repleta de antiguidades, foi decisiva para a revitalização da Rua
do Lavradio. Com capacidade para 800 pessoas, ela já foi descoberta pelas
agências de turismo e passou a constar do roteiro de grupos de visitantes
estrangeiros. Duas semanas atrás, Nicolas Orget, sócio de uma agência,
fechou o 3º andar da casa para um grupo de 300 australianos e
neozelandeses de uma empresa de refrigeração. A turma ganhou pulseirinha
laranja para poder circular livremente, com direito a shows, bebidas e petiscos.
Chris Pisani, de Sydney, chegou a arriscar passos de samba com sua irmã
Mary Sevag. "Já tinha ouvido falar muito de Downtown Rio. Estava
ansioso por conhecê-lo. É lindo", diz Pisani.
Mas muito ainda falta
ser feito em Downtown Rio. O trânsito caótico com engarrafamentos
pela madrugada e o déficit de vagas são crônicos. A iluminação
também carece de melhora. Há, inclusive, um projeto na Câmara
de Vereadores para interligar as áreas de lazer do Centro por um corredor
iluminado. Outro problema é a violência. Na madrugada de sábado
(22), dezessete pessoas deram queixa de roubo de celular na 5ª
DP, localizada no coração do bairro, na Rua Gomes Freire. No mês
de maio, foram registrados 317 furtos e 158 roubos na região. As casas
também têm seus problemas. Na mesma noite em que Pisani curtia o
samba no 3º andar da Rio Scenarium, uma fila de 100 metros ocupou
a calçada por mais de duas horas. Na saída, os freqüentadores
enfrentam o mesmo transtorno que os de outras casas da região, como o Teatro
Odisséia. Por volta das 4 da manhã, há longas filas diante
dos caixas, a ponto de arrastarem cadeiras para amenizar a espera. É o
preço do sucesso? "O crescimento da Lapa não se deve a investimentos
municipais, estaduais ou federais", destaca Perfeito Fortuna. "Foi a comunidade
empresarial que fez e aconteceu." Com ou sem o apoio oficial, o carioca definitivamente
já tomou posse desse novo velho reduto da boêmia.
Lapa,
ontem e hoje Anos
30 e 40
Reduto
da boemia carioca, de malandros
como Madame Satã Anos
60 e 70
O
bairro sofreu um longo período de
abandono, apesar de manter alguns
bares e restaurantes tradicionais,
como o Capela, o Bar
Brasil e a Casa Cosmopolita Anos
80
A
chegada do Circo Voador, em 1982, movimenta a região dos Arcos com um público
essencialmente jovem Anos
90
As
rodas de samba começam a
movimentar a área e a trazer para o pedaço gente de toda a cidade.
O público
continua sendo jovem e desligado de questões como o
conforto Atual
A
melhoria na infra-estrutura das casas de espetáculos e bares da área
atrai público de variadas idades e perfis socioeconômicos.
A programação do bairro passou a fazer parte de pacotes turísticos
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Lapa,
ontem e hoje
Dilmar Cavalher/Strana
 |
O
CASUARINA nasceu no Humaitá e se criou
na Lapa. O quinteto é habitué do circuito musical da região.
Depois de fazer shows no Semente e no finado Dama da Noite, atualmente se alterna
entre Rio Scenarium, Circo Voador e Fundição Progresso. "Foram pelo
menos 500 apresentações", diz o cantor João Cavalcanti.
Dilmar Cavalher/Strana
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EDUARDO
GALLOTTI tem vinte anos de Lapa. Começou tocando cavaquinho no Arco
da Velha, nos anos 80. Voltou ao reduto com o levante de sambistas egressos de
Santa Teresa. Hoje ele se apresenta com o sexteto vocal Anjos da Lua e a Orquestra
Republicana no Clube dos Democráticos. "Já vendi de mão em
mão mais de 3 500 CDs."
Divulgação
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FRANZ
FERDINAND, a aclamada banda escocesa que fez em fevereiro um concorrido
show no Circo Voador, tem retorno marcado à Lapa. O quarteto estará
na Fundição Progresso no dia 14 de setembro. Outras atrações
internacionais programadas para tocar na Fundição são Ziggy
Marley (6 e 7 de outubro), a banda de punk rock americana Yellowcard (18 de agosto),
o grupo de thrash metal Slayer (6 de setembro) e a banda britânica New Order,
em novembro. A cantora francesa Camille foi outra estrela estrangeira que só
se exibiu no bairro. Seu show experimental e performático foi no Teatro
Odisséia, em abril. | |