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2 de maio de 2007

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De parar o trânsito

A carioca Camila Pitanga abandona os ares
de boa moça e vira a atração do horário
nobre como uma sensualíssima prostituta

Sofia Cerqueira

Ricardo Fasanello/Strana
Camila, diante do cenário de Copacabana, onde sua personagem de
Paraíso Tropical ganha a vida: "Não gosto de me sentir cobiçada
a qualquer momento, em qualquer circunstância"

O pudor foi deixado de lado. Quando soube que estava cotada para viver uma prostituta e que o autor da novela, Gilberto Braga, tinha dúvidas se ela faria bem a personagem, Camila Pitanga não hesitou. Telefonou para ele. "Posso até ser reservada, polida, mas sou uma atriz e quero ter a chance de quebrar essa imagem, de enfrentar o desafio", ela lhe disse. "Eu tinha muita dificuldade em imaginar a Camila interpretando a Bebel", confessa Braga. "Na minha cabeça, ela era uma princesa, a boa moça, sem um pingo de sacanagem." Estava enganado. A discreta Camila se revelou um furacão na pele da abusada garota de programa de nariz – e bumbum – empinado que rouba a cena em Paraíso Tropical, da TV Globo. "Era difícil acreditar que tivesse tanta malícia", admite o novelista. "Ela surpreendeu a todos."

Às vésperas de completar 30 anos de idade (em junho) e quinze de carreira, Camila perdeu o receio de ser vista só por seus evidentes dotes físicos. "Nunca uma personagem me deixou tão exposta", admite. Mas o fulgurante sucesso de Bebel não a fez tirar os pés (número 38), muito bem fincados, da vida real. Ela é do tipo que enfrenta a fila do caixa eletrônico, pára no balcão para comer pão na chapa numa padaria do Leblon, corre à beira-mar e diverte-se em prosaicos programas familiares com a enteada de 9 anos, Maria Luísa. Criada entre Jacarepaguá e a Zona Sul, Camila morou um ano em uma favela no Leme, reduto político de sua madrasta, a ex-governadora e ex-ministra Benedita da Silva, atual secretária estadual de Ação Social. Antes ativista, diz que perdeu o olhar romântico sobre a política e afirma ser hoje uma estudante incansável. A transformação em sex symbol não balançou suas convicções. O mulherão de 1,71 metro e 58 quilos, pele morena, lábios carnudos e belas curvas – mais torneadas do que nunca – permanece irredutível quando lhe perguntam se posaria nua. "Não topo", garante. "É uma decisão sacramentada para o resto da vida."

Claro que a despudorada Bebel está mexendo com a vida da tranqüila Camila. Com um currículo de dez filmes, oito novelas e três minisséries, ela nunca esteve tão em evidência. "Sempre fui muito reservada", diz. "Minha vida não é uma novela e eu não sou uma personagem." Esbanjar sensualidade, do alto de um belo salto, com roupas insinuantes e convidativos decotes, só em cena. Ela adora vestidos, invariavelmente modelos bem soltinhos, de preferência acompanhados de uma sandália rasteira. "Tenho bastante quadril e sei que isso chama atenção", explica. "Não gosto de me sentir cobiçada a qualquer momento, em qualquer circunstância."

De uma família de artistas – é filha do ator Antônio Pitanga e da ex-bailarina Vera Manhães –, Camila leva o ofício a sério. Fez teatro na UniRio, planeja uma pós-graduação, participou de grupos de filosofia, promoveu saraus de poesia e mergulha fundo em cada personagem. "Eu sabia que ela iria arrasar no papel", avalia o diretor Dennis Carvalho. "Além de dedicada, é talentosíssima e linda." Para criar a atirada garota de programa que ganha a vida nas calçadas de Copacabana, ela investiu em corpo e conteúdo. Leu teses de mestrado e livros sobre o tema, viu filmes e conversou com prostitutas na ONG Da Vida – a mesma da grife Daspu. Esmiuçou cada detalhe: estudou a personagem com um coach, profissional que prepara atores para determinados papéis, buscou outra professora para treinar seu gestual e burilou a voz com mais uma. "Muitos se acomodariam no seu lugar, mas a Camila está sempre procurando se aprimorar", afirma o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto, seu marido há oito anos. "Brinco que, por também trabalhar no meio artístico, sou a pessoa certa para estar ao lado dela. Mas vamos combinar, né? Dá um ciuminho."

Não é para menos. Desde o início da carreira, a garota Pitanga já era um mulherão. Aos 12 anos, foi levada pelo pai para o Tablado, curso de teatro que revelou nomes como Cláudia Abreu e Malu Mader. Em 1993, com 16 anos, estreou na TV com a minissérie Sex Appeal. Na mesma época, desfilou para uma grife vestindo apenas um shortinho e cobrindo os seios com as mãos. Virou musa do verão. "Foi avassalador", relembra. De uma hora para outra viu-se famosa, reconhecida nas ruas. "Nem sequer sabia se queria seguir a profissão." Os anos se passaram, veio a certeza de ser atriz e surgiram alguns papéis sensuais, como a Esmeralda da novela Porto dos Milagres e a índia Paraguaçu da minissérie e do longa Caramuru – A Invenção do Brasil. Mas as generosas curvas jamais estiveram tão visíveis. "As pessoas imaginam que fiz uma revolução no corpo, e não foi assim", minimiza. "Pratico esporte desde menina." Quando foi confirmada na novela, a atriz, adepta de produtos orgânicos, procurou uma nutricionista. Cortou carboidratos e doces, intensificou exercícios. Faz musculação, hidroginástica, ioga e corre na Lagoa ou na orla de três a quatro vezes por semana. Não passa muitos dias sem ir à praia – mas não conta aonde vai. Adora caminhar nas Paineiras e prefere sair a pé pela cidade a tirar o carro da garagem. "Vivo muito o Rio", conta. Criada em Jacarepaguá, já conviveu em uma realidade bem distante da sua. Aos 15 anos, quando o pai, o ator e ex-vereador Antônio Pitanga, se casou com Benedita da Silva, foi morar na favela Chapéu Mangueira, no Leme. "Conheci uma comunidade solidária e festiva, animada pelos bailes funk", recorda. "Depois presenciei a virada que aconteceu com a chegada do tráfico. Quando me dei conta, estava impossível ficar ali."

Saiu de cena. Hoje, mora na Gávea e acompanha as obras da nova casa, no Jardim Botânico, para onde se muda em breve com o marido e a enteada. É uma madrasta do tipo que ajuda no dever de casa, leva ao médico e brinca como uma menina numa festinha da escola. "Temos uma relação de muito afeto, amor", orgulha-se. "A mãe dela é muito presente e não há espaço para desavenças." A cantora Mariana de Moraes, mãe de Maria Luísa, fala com tranqüilidade dessa relação: "Só tive a chance de trabalhar um tempo fora do Rio porque a Camila é uma 'boadrasta', muito carinhosa. É uma pessoa de caráter".

Manter a família unida tem sido uma prioridade de Camila. Seus pais se separaram em 1985 e ela e o irmão, o também ator Rocco, foram criados por Pitanga. "Meu pai é um vencedor", diz. "Filho de uma lavadeira, educou a gente, trabalhando muito, mas com presença e afetividade." Na infância, Camila passou alguns anos sem ver a mãe, e fala do assunto de forma lacônica. "Houve uma necessidade de ser assim", desconversa. Agora, ela e a ex-bailarina Vera Manhães, que vive em Itaipuaçu, distrito de Maricá, perto de Niterói, se vêem com freqüência. Na semana passada, por exemplo, Vera estava na casa da filha, que iria acompanhá-la numa consulta médica. "Temos uma relação linda", põe um ponto final. "Camila foi embalada no berço artístico", conta Pitanga. "Talvez, ao começar a gravar a Bebel, não tivesse consciência do potencial armazenado." Politizada, ela já subiu em palanque e, nos tempos pré-mensalão, levantou a bandeira do PT. Mudou. "Agora vejo tudo com menos romantismo", reconhece. "O sistema político é viciado. Acreditava numa pureza que não existe em nenhum lugar, em nenhuma pessoa." Continua preocupada com o social. "Ela é uma artista compromissada com o que acontece ao seu redor, com uma visão justa de mundo", confirma Chico Diaz, o Jáder de Paraíso Tropical. "Sem falar que conhece os fundamentos do ofício e se arrisca."

E está de parar o trânsito. Literalmente. Há algumas semanas, quando gravava uma cena da empinada Bebel, vestida com um macacão rosa-choque cheio de fendas, provocou um engarrafamento na Avenida Atlântica. Para azar de Camila – e sorte de seu imenso fã-clube masculino –, o horário das gravações coincidiu com o final de uma partida entre Vasco e Botafogo. Por ali passavam muitos torcedores a caminho de casa. "Gostosa!", gritou um, de dentro de um carro. "Quer ir lá para casa?", disparou outro. Por pouco não aconteceu um acidente, tamanha a excitação dos motoristas.

TRABALHO DE CORPO E ALMA

Francisco Silva/Ag. NewsGabriel de Paiva/Ag. O Globo

Curvas à mostra, em duas fases: na pele da despudorada
Bebel
(à esq.) e aos 16 anos, quando virou musa do
verão depois de
desfilar para uma grife apenas de
shortinho e mãos nos seios


Carlos Ivan Fernando Nunes/Divulgação

Contraste em cena: a sensualidade inocente da índia Paraguaçu (à esq.), na minissérie Caramuru – A Invenção do Brasil, que depois foi adaptada para o cinema; a atuação na peça O Arlequim, Servidor de Dois Patrões (à dir.); e no papel da pudica doméstica Mônica, da novela Belíssima, seu penúltimo trabalho na TV Globo
 
Divulgação/Rede Globo


ELA POR ELES

Ricardo Fasanello/Strana

"Sempre quis trabalhar com a Camila, mas, na minha cabeça, ela era uma princesa, sem um pingo de sacanagem."
Gilberto Braga, autor de Paraíso Tropical


"Camila é uma artista preocupada com o que acontece ao seu redor, trabalha muito, conhece o ofício e se arrisca."
Chico Diaz, ator

João Miguel Júnior/Divulgação


André Nazareth/ Strana

"Só tive a chance de trabalhar um tempo fora do Rio porque ela é uma 'boadrasta', muito carinhosa. É uma pessoa de caráter."
Mariana de Moraes, cantora, mãe da enteada de Camila Pitanga



LAÇOS DE FAMÍLIA

Fotos Álbum de Família
Reginaldo Teixeira
Infância em Jacarepaguá: cresceu cercada de crianças e foi incentivada a fazer esporte desde cedoCom o marido, o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto, e a enteada, Maria Luísa, de 9 anos

Beleza hereditária: a atriz no colo da mãe, a ex-bailarina Vera Manhães, hoje uma presença constanteTrinca de atores: está sempre com o pai, Antônio Pitanga, e o irmão, Rocco

     
   

 

 
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