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PERFIL
De parar o trânsito A carioca Camila Pitanga
abandona os ares de boa moça e vira a atração do horário
nobre como uma sensualíssima prostituta
Sofia Cerqueira
Ricardo Fasanello/Strana
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Camila, diante do cenário de Copacabana, onde sua personagem
de Paraíso Tropical ganha a vida: "Não gosto de me sentir
cobiçada a qualquer momento, em qualquer circunstância" |
O pudor foi deixado
de lado. Quando soube que estava cotada para viver uma prostituta e que o autor
da novela, Gilberto Braga, tinha dúvidas se ela faria bem a personagem,
Camila Pitanga não hesitou. Telefonou para ele. "Posso até ser reservada,
polida, mas sou uma atriz e quero ter a chance de quebrar essa imagem, de enfrentar
o desafio", ela lhe disse. "Eu tinha muita dificuldade em imaginar a Camila interpretando
a Bebel", confessa Braga. "Na minha cabeça, ela era uma princesa, a boa
moça, sem um pingo de sacanagem." Estava enganado. A discreta Camila se
revelou um furacão na pele da abusada garota de programa de nariz
e bumbum empinado que rouba a cena em Paraíso Tropical, da
TV Globo. "Era difícil acreditar que tivesse tanta malícia", admite
o novelista. "Ela surpreendeu a todos." Às
vésperas de completar 30 anos de idade (em junho) e quinze de carreira,
Camila perdeu o receio de ser vista só por seus evidentes dotes físicos.
"Nunca uma personagem me deixou tão exposta", admite. Mas o fulgurante
sucesso de Bebel não a fez tirar os pés (número 38), muito
bem fincados, da vida real. Ela é do tipo que enfrenta a fila do caixa
eletrônico, pára no balcão para comer pão na chapa
numa padaria do Leblon, corre à beira-mar e diverte-se em prosaicos programas
familiares com a enteada de 9 anos, Maria Luísa. Criada entre Jacarepaguá
e a Zona Sul, Camila morou um ano em uma favela no Leme, reduto político
de sua madrasta, a ex-governadora e ex-ministra Benedita da Silva, atual secretária
estadual de Ação Social. Antes ativista, diz que perdeu o olhar
romântico sobre a política e afirma ser hoje uma estudante incansável.
A transformação em sex symbol não balançou suas convicções.
O mulherão de 1,71 metro e 58 quilos, pele morena, lábios carnudos
e belas curvas mais torneadas do que nunca permanece irredutível
quando lhe perguntam se posaria nua. "Não topo", garante. "É uma
decisão sacramentada para o resto da vida."
Claro que a despudorada Bebel está mexendo com a vida da tranqüila
Camila. Com um currículo de dez filmes, oito novelas e três minisséries,
ela nunca esteve tão em evidência. "Sempre fui muito reservada",
diz. "Minha vida não é uma novela e eu não sou uma personagem."
Esbanjar sensualidade, do alto de um belo salto, com roupas insinuantes e convidativos
decotes, só em cena. Ela adora vestidos, invariavelmente modelos bem soltinhos,
de preferência acompanhados de uma sandália rasteira. "Tenho bastante
quadril e sei que isso chama atenção", explica. "Não gosto
de me sentir cobiçada a qualquer momento, em qualquer circunstância."
De uma família de artistas
é filha do ator Antônio Pitanga e da ex-bailarina Vera Manhães
, Camila leva o ofício a sério. Fez teatro na UniRio, planeja
uma pós-graduação, participou de grupos de filosofia, promoveu
saraus de poesia e mergulha fundo em cada personagem. "Eu sabia que ela iria arrasar
no papel", avalia o diretor Dennis Carvalho. "Além de dedicada, é
talentosíssima e linda." Para criar a atirada garota de programa que ganha
a vida nas calçadas de Copacabana, ela investiu em corpo e conteúdo.
Leu teses de mestrado e livros sobre o tema, viu filmes e conversou com prostitutas
na ONG Da Vida a mesma da grife Daspu. Esmiuçou cada detalhe: estudou
a personagem com um coach, profissional que prepara atores para determinados papéis,
buscou outra professora para treinar seu gestual e burilou a voz com mais uma.
"Muitos se acomodariam no seu lugar, mas a Camila está sempre procurando
se aprimorar", afirma o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto, seu marido
há oito anos. "Brinco que, por também trabalhar no meio artístico,
sou a pessoa certa para estar ao lado dela. Mas vamos combinar, né? Dá
um ciuminho." Não é
para menos. Desde o início da carreira, a garota Pitanga já era
um mulherão. Aos 12 anos, foi levada pelo pai para o Tablado, curso de
teatro que revelou nomes como Cláudia Abreu e Malu Mader. Em 1993, com
16 anos, estreou na TV com a minissérie Sex Appeal. Na mesma época,
desfilou para uma grife vestindo apenas um shortinho e cobrindo os seios com as
mãos. Virou musa do verão. "Foi avassalador", relembra. De uma hora
para outra viu-se famosa, reconhecida nas ruas. "Nem sequer sabia se queria seguir
a profissão." Os anos se passaram, veio a certeza de ser atriz e surgiram
alguns papéis sensuais, como a Esmeralda da novela Porto dos Milagres
e a índia Paraguaçu da minissérie e do longa Caramuru
A Invenção do Brasil. Mas as generosas curvas jamais
estiveram tão visíveis. "As pessoas imaginam que fiz uma revolução
no corpo, e não foi assim", minimiza. "Pratico esporte desde menina." Quando
foi confirmada na novela, a atriz, adepta de produtos orgânicos, procurou
uma nutricionista. Cortou carboidratos e doces, intensificou exercícios.
Faz musculação, hidroginástica, ioga e corre na Lagoa ou
na orla de três a quatro vezes por semana. Não passa muitos dias
sem ir à praia mas não conta aonde vai. Adora caminhar nas
Paineiras e prefere sair a pé pela cidade a tirar o carro da garagem. "Vivo
muito o Rio", conta. Criada em Jacarepaguá, já conviveu em uma realidade
bem distante da sua. Aos 15 anos, quando o pai, o ator e ex-vereador Antônio
Pitanga, se casou com Benedita da Silva, foi morar na favela Chapéu Mangueira,
no Leme. "Conheci uma comunidade solidária e festiva, animada pelos bailes
funk", recorda. "Depois presenciei a virada que aconteceu com a chegada do tráfico.
Quando me dei conta, estava impossível ficar ali."
Saiu de cena. Hoje, mora na Gávea e acompanha as obras da nova casa, no
Jardim Botânico, para onde se muda em breve com o marido e a enteada. É
uma madrasta do tipo que ajuda no dever de casa, leva ao médico e brinca
como uma menina numa festinha da escola. "Temos uma relação de muito
afeto, amor", orgulha-se. "A mãe dela é muito presente e não
há espaço para desavenças." A cantora Mariana de Moraes,
mãe de Maria Luísa, fala com tranqüilidade dessa relação:
"Só tive a chance de trabalhar um tempo fora do Rio porque a Camila é
uma 'boadrasta', muito carinhosa. É uma pessoa de caráter".
Manter a família unida tem sido uma
prioridade de Camila. Seus pais se separaram em 1985 e ela e o irmão, o
também ator Rocco, foram criados por Pitanga. "Meu pai é um vencedor",
diz. "Filho de uma lavadeira, educou a gente, trabalhando muito, mas com presença
e afetividade." Na infância, Camila passou alguns anos sem ver a mãe,
e fala do assunto de forma lacônica. "Houve uma necessidade de ser assim",
desconversa. Agora, ela e a ex-bailarina Vera Manhães, que vive em Itaipuaçu,
distrito de Maricá, perto de Niterói, se vêem com freqüência.
Na semana passada, por exemplo, Vera estava na casa da filha, que iria acompanhá-la
numa consulta médica. "Temos uma relação linda", põe
um ponto final. "Camila foi embalada no berço artístico", conta
Pitanga. "Talvez, ao começar a gravar a Bebel, não tivesse consciência
do potencial armazenado." Politizada, ela já subiu em palanque e, nos tempos
pré-mensalão, levantou a bandeira do PT. Mudou. "Agora vejo tudo
com menos romantismo", reconhece. "O sistema político é viciado.
Acreditava numa pureza que não existe em nenhum lugar, em nenhuma pessoa."
Continua preocupada com o social. "Ela é uma artista compromissada com
o que acontece ao seu redor, com uma visão justa de mundo", confirma Chico
Diaz, o Jáder de Paraíso Tropical. "Sem falar que conhece
os fundamentos do ofício e se arrisca."
E está de parar o trânsito. Literalmente. Há algumas semanas,
quando gravava uma cena da empinada Bebel, vestida com um macacão rosa-choque
cheio de fendas, provocou um engarrafamento na Avenida Atlântica. Para azar
de Camila e sorte de seu imenso fã-clube masculino , o horário
das gravações coincidiu com o final de uma partida entre Vasco e
Botafogo. Por ali passavam muitos torcedores a caminho de casa. "Gostosa!", gritou
um, de dentro de um carro. "Quer ir lá para casa?", disparou outro. Por
pouco não aconteceu um acidente, tamanha a excitação dos
motoristas.
TRABALHO DE CORPO E ALMA
| Francisco Silva/Ag. News | Gabriel
de Paiva/Ag. O Globo | 
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Curvas à mostra, em duas fases:
na pele da despudorada Bebel (à esq.) e aos 16 anos,
quando virou musa do verão depois de desfilar para uma
grife apenas de shortinho e mãos nos seios |
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ELA POR ELES
Ricardo Fasanello/Strana  | "Sempre
quis trabalhar com a Camila, mas, na minha cabeça, ela era uma princesa,
sem um pingo de sacanagem." Gilberto
Braga, autor de Paraíso Tropical |
"Camila
é uma artista preocupada com o que acontece ao seu redor, trabalha muito,
conhece o ofício e se arrisca." Chico
Diaz, ator | João
Miguel Júnior/Divulgação  |
André Nazareth/ Strana  | "Só
tive a chance de trabalhar um tempo fora do Rio porque ela é uma 'boadrasta',
muito carinhosa. É uma pessoa de caráter." Mariana
de Moraes, cantora, mãe da enteada de Camila Pitanga |
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