| |
| |  | |
CRÔNICA
Agarre
seu homem Manoel Carlos Não
pensem vocês que só os homens desenvolvem teorias estapafúrdias
e muitas vezes preconceituosas. Tenho amigas que também conceituam
sobre vários temas. Bia é a mais atrevida delas. Num encontro casual,
meses atrás, ela estava especialmente radical e ferina:
O homem, assim que termina um relacionamento, não é capaz de ficar
mais do que dez minutos sem que lhe ocorra o nome de outra mulher para substituir
a que está saindo. E lhe vem à cabeça, num abrir e fechar
de olhos, uma vizinha, uma colega de trabalho, uma amiga da ex, a mulher de um
amigo, uma antiga namorada... Segundo
minha amiga, quem quiser garantir o homem desejado, depois de desimpedido, tem
de aproveitar esses dez minutos fatais.
Léo
Martins  |
Mas, nesse caso argumentei na ocasião , a mulher tem de estar
atenta e muito bem informada, para cercar o homem em tão pouco tempo!
Exatamente me respondeu Bia , mas isso é o mais fácil.
Que mulher não tem pelo menos um colega de trabalho na mira, esperando
uma chance?
Será?
Pergunte a qualquer uma. Eu digo no trabalho, mas pode ser na faculdade, no clube,
no curso de inglês, no edifício onde mora, nos 50 metros quadrados
de praia que costuma freqüentar...
Você tem?
Claro. Lá na redação (Bia é jornalista) estou
de olho em dois, sendo que um deles é cabeça coroada.
Cabeça...?
Coroada! Tem cargo de chefia. Esse está na mira de outras, que eu sei,
mas vai levar quem chegar primeiro.
Que maluquice!
Precisamente a que chegar naqueles dez minutos cruciais, em que ele ainda estará
fazendo as avaliações, a cabeça a mil, procurando decodificar
os sinais nervosos do seu desejo.
Mas, Bia...
Sempre estamos de olho em alguém cortou ela. Obviamente,
eu me refiro às disponíveis, ainda que conheça algumas casadas
que... Bem, é melhor eu calar a minha boca, já que temos amigas
em comum. Sou
humano, fiquei curioso. Em menos de cinco segundos passei em revista, de memória,
algumas amigas casadas das nossas relações: Dani, Silvinha, Clara,
Ana... Mas todas me pareceram fiéis ao marido. E Bia continuava.
Como se comportar diante desse homem desejado e que de repente pode ficar livre?
Mantendo marcação cerrada, auscultando, adivinhando o momento certo
em que o casamento dele vai se romper, acabar! E aí dar o bote.
Confesso
que fiquei escandalizado com a frieza. A teoria me pareceu até imoral!
Então uma mulher aproveita-se de um momento de fragilidade numa relação
e dá o bote no marido da outra? Demonstro minha quase-indignação.
Mas vocês não conhecem a minha amiga.
Tá escandalizado por quê? Vai me dizer que vocês não
vivem sempre de olho em alguém, inclusive em algumas mulheres casadas com
amigos?
Claro que não protestei.
Claro que sim. Deixe de hipocrisia. Não me venha com aquela história
de que "mulher de amigo meu, pra mim, é homem", que eu conheço um
final nada nobre pra essa frase de falso moralismo.
Fico
pensando em como os jovens de hoje são tão diferentes dos da minha
geração. Falam tudo assim, na lata, como se costuma dizer, quando
no meu tempo a garotada era mais respeitosa. Engoli a afronta e ela despejou freneticamente,
sem respirar:
Tenho uma colega de redação que se deu superbem! Pegou uma cabeça
coroada no momento exato em que ele dava um chega-pra-lá na sacrossanta
esposa. Mas ela teve sorte, porque estava passando na porta do edifício
onde ele morava, vindo de uma festa, às 2 da madrugada, no momento exato
em que ele saía, mala na mão, à procura de um táxi.
Pronto. Ela deu carona, ele contou da separação, ela consolou, ele
disse que ia pra um hotel, ela ofereceu o apartamento em que morava, pelo menos
por aquela noite, já que era tão tarde. Afinal tinha dois quartos,
não ia incomodar etc. etc. Resumindo: o cara aceitou e... ela faturou.
Já viu, né? Isso foi há um ano e ele está lá,
com ela, até hoje. Não é muita sorte?
Eu
estava realmente perplexo. E perplexo continuei por toda uma semana. Achava diabólico
alguém de olho em alguém sem o outro perceber. A felicidade, ou,
pelo menos, a relação de um casal, ser alvo da cobiça de
uma terceira pessoa, não obrigatoriamente desejando uma crise conjugal,
mas pelo menos à espreita, pronta para dar o bote, assim que a crise surgir.
Seria verdadeiro esse comportamento maquiavélico das mulheres?
Talvez
meus prováveis leitores estejam se perguntando que razão me levou
a contar, neste espaço, uma história tão extravagante. Explico.
Na semana passada, meses depois desse encontro casual, que eu já nem mesmo
lembrava, recebi aí do Rio um e-mail com estas palavras: "Sofri muito ao
saber que Brad Pitt se separou da Jennifer Aniston. Não por gostar dela,
mas por não estar perto dele nos primeiros dez minutos após o desenlace
matrimonial!" Assinado: Bia. Acabei rindo da pretensão da minha amiga e
passei a considerar sua teoria apenas uma brincadeira de gosto duvidoso. Mesmo
assim, essa história voltou a entrar na minha cabeça de tal modo
que quis contá-la aqui, para a reflexão dos meus prováveis
leitores. |