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2 de fevereiro de 2005
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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Agarre seu homem

Manoel Carlos


N
ão pensem vocês que só os homens desenvolvem teorias estapafúrdias – e muitas vezes preconceituosas. Tenho amigas que também conceituam sobre vários temas. Bia é a mais atrevida delas. Num encontro casual, meses atrás, ela estava especialmente radical e ferina:

– O homem, assim que termina um relacionamento, não é capaz de ficar mais do que dez minutos sem que lhe ocorra o nome de outra mulher para substituir a que está saindo. E lhe vem à cabeça, num abrir e fechar de olhos, uma vizinha, uma colega de trabalho, uma amiga da ex, a mulher de um amigo, uma antiga namorada...

Segundo minha amiga, quem quiser garantir o homem desejado, depois de desimpedido, tem de aproveitar esses dez minutos fatais.

Léo Martins


– Mas, nesse caso – argumentei na ocasião –, a mulher tem de estar atenta e muito bem informada, para cercar o homem em tão pouco tempo!

– Exatamente – me respondeu Bia –, mas isso é o mais fácil. Que mulher não tem pelo menos um colega de trabalho na mira, esperando uma chance?

– Será?

– Pergunte a qualquer uma. Eu digo no trabalho, mas pode ser na faculdade, no clube, no curso de inglês, no edifício onde mora, nos 50 metros quadrados de praia que costuma freqüentar...

– Você tem?

– Claro. Lá na redação (Bia é jornalista) estou de olho em dois, sendo que um deles é cabeça coroada.

– Cabeça...?

– Coroada! Tem cargo de chefia. Esse está na mira de outras, que eu sei, mas vai levar quem chegar primeiro.

– Que maluquice!

– Precisamente a que chegar naqueles dez minutos cruciais, em que ele ainda estará fazendo as avaliações, a cabeça a mil, procurando decodificar os sinais nervosos do seu desejo.

– Mas, Bia...

– Sempre estamos de olho em alguém – cortou ela. – Obviamente, eu me refiro às disponíveis, ainda que conheça algumas casadas que... Bem, é melhor eu calar a minha boca, já que temos amigas em comum.

Sou humano, fiquei curioso. Em menos de cinco segundos passei em revista, de memória, algumas amigas casadas das nossas relações: Dani, Silvinha, Clara, Ana... Mas todas me pareceram fiéis ao marido. E Bia continuava.

– Como se comportar diante desse homem desejado e que de repente pode ficar livre? Mantendo marcação cerrada, auscultando, adivinhando o momento certo em que o casamento dele vai se romper, acabar! E aí dar o bote.

Confesso que fiquei escandalizado com a frieza. A teoria me pareceu até imoral! Então uma mulher aproveita-se de um momento de fragilidade numa relação e dá o bote no marido da outra? Demonstro minha quase-indignação. Mas vocês não conhecem a minha amiga.

– Tá escandalizado por quê? Vai me dizer que vocês não vivem sempre de olho em alguém, inclusive em algumas mulheres casadas com amigos?

– Claro que não – protestei.

– Claro que sim. Deixe de hipocrisia. Não me venha com aquela história de que "mulher de amigo meu, pra mim, é homem", que eu conheço um final nada nobre pra essa frase de falso moralismo.

Fico pensando em como os jovens de hoje são tão diferentes dos da minha geração. Falam tudo assim, na lata, como se costuma dizer, quando no meu tempo a garotada era mais respeitosa. Engoli a afronta e ela despejou freneticamente, sem respirar:

– Tenho uma colega de redação que se deu superbem! Pegou uma cabeça coroada no momento exato em que ele dava um chega-pra-lá na sacrossanta esposa. Mas ela teve sorte, porque estava passando na porta do edifício onde ele morava, vindo de uma festa, às 2 da madrugada, no momento exato em que ele saía, mala na mão, à procura de um táxi. Pronto. Ela deu carona, ele contou da separação, ela consolou, ele disse que ia pra um hotel, ela ofereceu o apartamento em que morava, pelo menos por aquela noite, já que era tão tarde. Afinal tinha dois quartos, não ia incomodar etc. etc. Resumindo: o cara aceitou e... ela faturou. Já viu, né? Isso foi há um ano e ele está lá, com ela, até hoje. Não é muita sorte?

Eu estava realmente perplexo. E perplexo continuei por toda uma semana. Achava diabólico alguém de olho em alguém sem o outro perceber. A felicidade, ou, pelo menos, a relação de um casal, ser alvo da cobiça de uma terceira pessoa, não obrigatoriamente desejando uma crise conjugal, mas pelo menos à espreita, pronta para dar o bote, assim que a crise surgir. Seria verdadeiro esse comportamento maquiavélico das mulheres?

Talvez meus prováveis leitores estejam se perguntando que razão me levou a contar, neste espaço, uma história tão extravagante. Explico. Na semana passada, meses depois desse encontro casual, que eu já nem mesmo lembrava, recebi aí do Rio um e-mail com estas palavras: "Sofri muito ao saber que Brad Pitt se separou da Jennifer Aniston. Não por gostar dela, mas por não estar perto dele nos primeiros dez minutos após o desenlace matrimonial!" Assinado: Bia. Acabei rindo da pretensão da minha amiga e passei a considerar sua teoria apenas uma brincadeira de gosto duvidoso. Mesmo assim, essa história voltou a entrar na minha cabeça de tal modo que quis contá-la aqui, para a reflexão dos meus prováveis leitores.

     
   

 

 
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