| |
|
|
 |
|
CIDADE
A passarela do Leblon
Atores famosos, empresários
poderosos,
socialites, intelectuais e celebridades em
geral se cruzam na Dias Ferreira, a rua
das grandes badalações
Sofia Cerqueira
|
Fernando Lemos

|
| Luana Piovani na
Praça Cazuza, no início da via: flanando
em seu canto preferido do Rio |
Duas da tarde.
Chico Buarque passa pela calçada. Carolina Dieckmann, barrigão
de nove meses, caminha em direção a um ateliê.
A poucos metros, Guilhermina Guinle devora uma salada. Reynaldo
Gianecchini surge com amigos. A noite cai. O casal Du Moscovis e
Cynthia Howlett conversa entre sushis no mesmo lugar onde Caetano
Veloso e a atriz Ildi Silva foram vistos juntos pela primeira vez,
em abril. É madrugada. Andréa Beltrão entra
no supermercado e, numa livraria perto dali, José Wilker
folheia uma revista. O que pode lembrar o vaivém de uma cidade
cenográfica da TV Globo é, na verdade, o cotidiano
da rua mais badalada do Rio, a Dias Ferreira, no finalzinho do Leblon.
"Isto aqui virou a Hollywood carioca", diz a atriz Luana Piovani,
outra presença constante no pedaço. A freqüência
vip atrai um batalhão de paparazzi. Mas não são
só artistas que chamam atenção nos 700 metros
de extensão dessa via encravada entre as avenidas Ataulfo
de Paiva e Bartolomeu Mitre. Lá circulam empresários
de peso, socialites e, é claro, quem quer ver e ser visto.
O local é referência no circuito gastronômico,
com restaurantes como Carlota, Sushi Leblon e Celeiro. Nos últimos
dois anos, também virou sinônimo de um comércio
chique e exclusivo, com grifes como Isabela Capeto e Patrícia
Viera. Já são mais de trinta ateliês em seus
sete quarteirões. Há três meses, a estilista
paulista Adriana Barra ampliou a lista. Não é a última
novidade. Na semana passada, foi aberto um brechó de luxo;
nos próximos dias, o designer de jóias Alfredo Grosso
inaugura um ateliê; e, ainda neste ano, o Mirai e o Sushi
Leblon, japoneses já fixados naquelas calçadas, ganham
filiais na própria rua.
Fernando Lemos
 |
| Guilhermina Guinle no
Celeiro: "Trago amigos de fora para conhecer" |
Primeira via aberta no Leblon, quando o bairro era ainda um imenso
areal, e chamada de Rua do Pau até o início do século
passado, a Dias Ferreira fervilha 24 horas por dia. Ao bochicho
dos restaurantes nos dois primeiros quarteirões funcionam
doze e do sofisticado roteiro de ateliês somam-se charmosos
cafés, casas de chá e uma chocolateria. A agenda cultural
é garantida pelas livrarias Argumento, a preferida do novelista
Manoel Carlos, e Letras & Expressões, point de famosos
nas madrugadas. Juntas, as duas promovem até oito lançamentos
de livros por semana. Estrelas da TV também são vistas
no Hortifruti e no supermercado Zona Sul, aberto dia e noite. Tanto
agito num único endereço tem seu preço
e alto. O aluguel de uma sala de 40 metros quadrados num prediozinho
antigo e muitas vezes sem elevador vai de 2 000 a 4 000 reais (o
de um imóvel semelhante em Botafogo custa 600 reais). Só
as luvas de um ponto na rua variam de 600 000 a 1 milhão
de reais. "Pensei inicialmente em abrir uma loja no Jardim Botânico
ou em Santa Teresa", conta Adriana Barra. Mudou de idéia
ao encontrar uma sala vazia num pequeno prédio art déco
da rua por onde circula sua clientela estrelada: Camila Pitanga,
Malu Mader, a apresentadora Astrid Fontenelle... "A Dias Ferreira
tem a cara do Rio", afirma. "É sofisticada, descontraída
e com clima de bairro."
 |
| Maysa Borges na
loja de Isabela Capeto: "O ambiente ainda é de
província" |
A exemplo do que acontece em boa
parte do seleto circuito de ateliês locais, o cliente que
chega à loja de Adriana Barra toca a campainha como quem
visita um amigo e é recebido com biscoitinhos e bate-papo.
"Não sou adepta do shopping, me encontrei aqui", diz Astrid
Fontenelle. Carioca, há trinta anos radicada em São
Paulo, a apresentadora tem ficado no Rio para gravar seu programa
de TV. "Venho umas duas vezes por semana almoçar no Celeiro
ou jantar no Sushi Leblon", conta. "Estou me recariocando." São
justamente os dois restaurantes o primeiro, um requintado
e caríssimo bufê de saladas (R$ 65,80, o quilo); o
segundo, o japonês mais in da cidade os focos preferidos
dos paparazzi. "Não precisa ter festa ou evento: aqui encontramos
famosos naturalmente", explica o fotógrafo Carlos Sadicoff,
pioneiro no ofício de flagrar celebridades pela cidade. Diariamente,
ele estaciona o carro na Dias Ferreira e dali mesmo, munido de laptop,
transmite as fotos para revistas e sites. Dentro do veículo
mantém camisas diferentes, chapéus e óculos
para se disfarçar, embora a inconfundível cabeleira
prejudique a discrição. Gaba-se de ter fotografado
na área Marília Gabriela e Reynaldo Gianecchini recém-separados,
Chico Buarque, Malu Mader, Ronaldo Fenômeno, Giovanna Antonelli,
Alinne Moraes e Fernanda Torres, entre muitas outras figuras. "Alguns
famosos passaram a pedir a comida em casa por causa disso", revela
Bia Herz, uma das proprietárias do Celeiro.
Fernando Lemos
 |
| Astrid Fontenelle no
ateliê de Adriana Barra: "Eu me encontrei aqui"
|
Luana Piovani é refratária
à vigilância das lentes. Mas nem assim deixa de flanar
por seu canto preferido da cidade. "É o lado chato de lá,
mas não vou abdicar de viver", diz. Seu tour inclui o supermercado,
um salão de beleza, os restaurantes Mirai ou Togu e, após
a praia, o frango com farofa de ovo do Galeto do Leblon, um dos
pioneiros da região. Ela vive esbarrando em conhecidos. "É
impossível passar aqui e não encontrar alguém",
confirma o ator Edwin Luisi, que malha todos os dias numa academia
lá. "É uma rua deliciosa, eclética, e as pessoas
mantêm o hábito de andar a pé", acrescenta a
apresentadora Cynthia Howllet. Assim que sua filha Manuela completou
1 mês, em maio, ela retomou a rotina de ir duas vezes por
semana ao Sushi Leblon, às vezes com o marido, o ator Du
Moscovis. "A gente evita apenas a varanda, por causa dos paparazzi",
lamenta. Gastronomia, moda e gente bonita. A combinação
atrai turistas. "Virou um programa ir à Dias Ferreira", comenta
a atriz Guilhermina Guinle. "Volta e meia trago um amigo de fora."
Ela costuma almoçar no Celeiro e levar seu cachorro numa
pet shop vizinha do restaurante. Na Argumento costuma encontrar
o pai, o empresário Luiz Eduardo Guinle, que tem escritório
nas adjacências.
Selmy Yassuda
 |
| Cynthia Howlett (à dir.)
e a amiga Nana Viveiros:
no Sushi Leblon |
Um vaivém inimaginável
há quase três décadas. Em meados de 1978, os
editores Fernando Gasparian, Alfredo Machado e Sérgio Machado
passaram em frente à livraria que a mulher do primeiro, Dalva,
abrira no número 199. "Eles disseram que não ia durar
seis meses", lembra Laura Gasparian, filha de Dalva e Fernando.
A livraria Argumento não somente vingou como mudou para um
espaço maior na mesma rua, claro , ganhou o
concorrido Café Severino e virou referência na cidade.
"Quando alugamos a casa, há 25 anos, o atrativo era o preço
do ponto", lembra Bia, do Celeiro. O Sushi Leblon chegaria quatro
anos mais tarde. Em 2002, suas sócias, Ana Carolina Gayoso,
Bia Stewart e Marina Hirth, abriram outro restaurante na rua, o
Zuka. Nos próximos meses, inauguram mais um: o Pop Fish,
um japonês voltado para um público mais jovem. O restaurante
Mirai abrirá uma filial na mesma calçada. "Resolvo
o almoço aqui em volta", diz o ex-presidente do Banco Central
Armínio Fraga, que tem escritório no Leblon Corporate,
um dos prédios comerciais mais caros do Rio, onde o metro
quadrado custa cerca de 12 000 reais. "Era uma rua comum que agora
tem um clima carioca-chique, cheio de coisas úteis", afirma
a professora de ioga Isabela Fortes, outra habituée. Seu
roteiro inclui o ateliê aMargarida, aberto há um ano,
com modelos em edições limitadas e peças sob
medida.
Não foi só o perfil
do público que mudou. A rua estreita e arborizada teve a
mão invertida na década de 90. Na mesma época,
a circulação de ônibus foi proibida. Existem
problemas crônicos, como falta de vagas e de infra-estrutura
volta e meia o esgoto vaza. Ainda assim, há cinco
anos moradores e comerciantes vetaram um projeto de urbanização
que padronizaria as calçadas. Temiam pela descaracterização
de um lugar que conserva uma tradicional loja de pianos, uma casa
de ferragens cinqüentenária e autênticos botecos
pés-sujos. "Temos a badalação num ambiente
de província, as pessoas se cumprimentam", aponta a socialite
e designer de bolsas Maysa Borges da Fonseca, dona de um ateliê
e cliente de Isabela Capeto. Há tanta gente que já
foi capa de revista chamando atenção na Dias Ferreira
que o escritor Rubem Fonseca, radicalmente avesso a fotos e entrevistas,
consegue andar praticamente incógnito por ela, em geral de
boné, quase irreconhecível. "Gosto de caminhar, e
aqui é interessante", disse ele à repórter
de Veja Rio, numa raríssima declaração,
apressando o passo. "Gosto de ver sem ser visto. Não posso
perder o meu anonimato."
|
SEGREDOS DO SUCESSO
O que se pode encontrar
nos 700 metros de extensão da Rua Dias
Ferreira, entre as avenidas Ataulfo
de Paiva e Bartolomeu Mitre
15 restaurantes basdalados, entre eles 4 japoneses
Mais de 30 sofisticados ateliês, lojinhas e showrooms.
Há desde o comércio
de roupas feitas sob medida até multimarcas, além
de lojas de acessórios,
jóias, moda infantil, peças de decoração
e lingerie
2 grandes livrarias
2 cafés, loja de vinhos, tabacaria, chocolateria, fast-food
e casa de chá
Academia de ginástica e de ioga
Supermercado aberto 24 horas e Hortifruti
|
|