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Uma brasileira influente no Google

Ph.D. pelo badalado Massachusetts Institute of Technology, Fernanda Viégas vai criar interfaces amigáveis a novas ferramentas do gigante de buscas

Antes de encontrar seu caminho profissional, a paulista Fernanda Viégas flertou com várias carreiras. Mas não se apaixonava por nenhuma delas. Chegou a iniciar cursos tão díspares quanto engenharia química, educação e linguística. Sem medo de recomeçar, migrou para os Estados Unidos, onde estudou história da arte e design gráfico. Encontrou-se. Acabou Ph.D. do badaladíssimo Massachusetts Institute of Technology, o MIT, e, aos 39 anos, é considerada uma das mulheres mais influentes do mercado de tecnologia, segundo a revista FastCompany. Para chegar lá, propôs a si mesma uma meta: tornar-se especialista em uma área pouco conhecida do grande público – mas que certamente é muito valorizada por ele: a visualização de dados. Seu trabalho é criar representações gráficas de fácil interpretação a partir de grandes volumes de dados. Em outras palavras: dar cara à montanha de números e demais informações que os computadores e a internet colocam à disposição dos usuários da rede diariamente. Podem ser índices financeiros, mas também citações de uma palavra em um livro ou ainda a sequência cronológica de fatos. Entre seus sucessos na área, está o projeto Many Eyes, uma plataforma que pode ser usada gratuitamente pelos usários da web. O próximo passo é dar forma a novos serviços do gigante de buscas Google, que contratou a brasileira recentemente. Na entrevista a seguir, Fernanda relembra sua curiosa trajetória profissional, conta como o mercado de tecnologia de ponta trata as mulheres, detalha sua missão no Google e explica como alguns de seus trabalhos foram parar no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York.

Afinal, o que é o Big Picture, projeto em que está envolvida no Google atualmente?

O Big Picture, do Google, é um grupo de visualização de dados liderado por mim e por Martin Wattenberg. Fomos contratados para criar interfaces gráficas, com base nos dados do Google, que possam ser acessadas no mundo inteiro. Muitas vezes, as empresas contratam profissionais para atuar em projetos internos: elas querem acompanhar os resultados de vendas ou as campanhas de marketing, por exemplo. Não é o meu caso. Quero desenvolver ferramentas de visualização para a população em geral. Isso é a minha grande paixão. O Google me chamou para fazer exatamente isso. Eles falaram que possuem dados que outras empresas não têm e que queriam que usássemos a visualização para trazer à tona essas informações.

Quando os usuários do site poderão ver os primeiros produtos do seu trabalho?

Não temos um prazo. Mas ainda vai demorar um pouquinho para conseguirmos colocar alguma coisa no ar.

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Reprodução (VEJA)

Como você foi parar nos Estados Unidos e há quanto tempo mora fora do Brasil?

Eu cheguei aos Estados Unidos em 1992. Vim para cá por dois motivos: eu não me encontrava em termos educacionais no Brasil e não sabia o que queria fazer da vida. Cursei engenharia química, mas não gostei. Depois, prestei vários vestibulares e acabei iniciando o curso de linguística na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Gostei, mas não era aquilo que queria. Ouvi falar de um programa de bolsas de graduação do Instituto Brasil Estados Unidos (Ibeu) e resolvi tentar: me inscrevi, fiz os testes e fui selecionada para estudar na Universidade do Kansas. Cheguei no final de 1992 e comecei a fazer o curso de educação. Logo vi que não queria estudar aquilo e acabei descobrindo o design gráfico. Pensei: “Me encontrei. Finalmente”. Fiz os cursos de design e história da arte e me formei em ambos, mas não queria trabalhar como designer. Ouvi falar do Media Lab, do MIT, um grupo de pesquisa cujos integrantes eram provenientes de várias áreas, como música, engenharia e psicologia. Pensei: “Isso me parece interessante. Pode ser legal unir design e tecnologia”. Acabei indo para lá, em 1997. Desde então estou aqui.

Por que você decidiu entrar de cabeça na área de visualização de dados?

Como meu background é design gráfico, gosto muito de promover a comunicação visualmente. Cheguei ao Media Lab e comecei a brincar com várias tecnologias e percebi que o que mais me interessava eram os espaços sociais on-line – o e-mail e as salas de bate-papo, na época. Ainda não existia o Facebook e o Twitter. Comecei a olhar para os meus arquivos de e-mails e pensei: “Esses arquivos retratam meus laços familiares, meus laços afetivos, minha relação com os meus amigos”. Mas embora esses conteúdos fossem extremamente importantes para mim, as interfaces de acesso ao banco de dados eram horríveis. Afinal, os programas de e-mail não são feitos para que as pessoas consultem anos e anos de mensagens. Fiquei interessada, então, nessa questão da visualização. Pensei: “Será que eu posso usar a visualização para trazer à tona essa parte mais pessoal e emocional desses arquivos?”. Foi aí que tudo começou.

Como as técnicas de visualização de dados podem mudar nossa relação com a informação? Elas podem facilitar a tarefa de lidar com a avalanche diária de notícias, por exemplo?

Essa é uma de nossas esperanças. Existem outras técnicas, mas a visualização é interessante porque não resume as coisas: ela exibe todos os dados. Outro ponto positivo: ela não cobra do leitor conhecimentos prévios de estatística. Isso significa que uma camada muito maior da população pode olhar os dados e interpretá-los. Para a imprensa, a visualização é fundamental. Afinal, cada vez mais os jornalistas têm de explicar assuntos complexos ao público. Se você puder contar uma história e também mostrar os dados relativos a ela, existe uma chance maior de as pessoas interpretarem a informação. Isso eleva o debate público.

Você já expôs trabalhos no MoMA e em outros museus dos Estados Unidos. Como encontrou a ligação entre pesquisa científica e arte?

Isso é interessante. Eu nunca separei arte de um projeto científico. O que acontece é que a visualização por si só impressiona muito as pessoas. E o fato de eu ter um treinamento em design gráfico faz com que eu seja extremamente sensível a essas interfaces: que cores escolher? Que tipografia? Foram essas características que fizeram com que meus projetos acabassem em museus. O trabalho exibido no MoMA, por exemplo, nunca foi pensado como arte. Eu o fiz porque queria entender como a enciclopédia colaborativa Wikipédia funciona e, então, desenvolvi, junto do Martin Wattenberg, o History Flow: por meio da ferramenta, é possível entender, através de um diagrama, a guerra travada dentro da Wikipédia entre as pessoas que editam os artigos do site. Nesse sentido, acho que arte e ciência estão muito mais unidas do que pensamos.

Na Wikipédia, você deve ter descoberto informações curiosas, não?

Sim.Passei a pesquisar vários artigos diferentes. Sou chocólatra e optei por olhar mais a fundo o que tratava de chocolate. Ao olhar para o diagrama que mostrava a sucessão de edições do verbete, percebi que acontecia ali uma verdadeira guerra. Um cara chamado Daniel havia colocado no artigo um parágrafo dizendo que algumas vezes as pessoas usam chocolate para fazer uma tipo de escultura surrealista chamado coulage. Alguém discordou e retirou o trecho do ar. Insistente, o Daniel republicou sua afirmação. Esse processo de “tira-e-põe” durou semanas até que o rapaz desistiu. Recentemente, em uma análise do Twitter, percebi que muitas vezes os marqueteiros demoram para entender a razão pela qual um assunto se transforma em trending topic no microblog, ou seja, um tema muito comentado. Mapeei o TT “chuva de chocolate”, uma ação de uma empresa cujo objetivo era promover um evento na Avenida Paulista, em São Paulo. A ideia parecia ter agradado os internautas, e a repercussão foi motivo de comemoração para os organizadores do barulho. Algumas horas depois, contudo, verifiquei os resultados e reparei que muitas palavras associadas ao trending topic eram negativas. As pessoas compareceram ao local, mas a tal chuva era de papel picado, e não de chocolate. Resultado: os marqueteiros estavam comemorando uma ação que havia sido um fracasso.

Como se sentiu ao ser apontada uma das mulheres mais influentes da área de tecnologia pela revista FastCompany?

Fiquei surpresa, muito feliz e muito honrada. O grupo de mulheres que está ali é composto por pessoas extremamente inteligentes, capazes e de muita influência. Fiquei ainda mais feliz por estar trabalhando com visualização e estar naquela lista por isso. Trata-se de uma confirmação de que visualização é algo importante.

Qual é atualmente o peso das mulheres no mercado de tecnologia? Elas já chegaram aos postos de comando?

A situação está melhorando, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Quando você trabalha em empresas de tecnologia, percebe que há mais homens do que mulheres, principalmente em cargos de gerência. Quanto mais alto você vai, menos mulheres vê. Isso, é claro, está relacionado ao fato de que, em algum momento, a mulher interrompe a carreira em alguma medida para ter filhos.