Steve Jobs, um sopro de inteligência no mercado de celulares

O iPhone estabeleceu um padrão ainda não superado para smartphones, animados por outra invenção da Apple: um pujante mercado de aplicativos

A Apple lançou o iPhone em 2007. O mundo da telefonia móvel nunca mais seria o mesmo. Em menos de quatro anos, a empresa saiu de zero para quase 4% do mercado mundial, deixando para trás a Motorola e seguindo de perto a LG, segundo dados do Gartner, especializado em análise de mercados, divulgados neste ano. Se a Nokia ainda é a maior (com a Samsung na cola) no segmento de celulares, no caso dos smartphones (aparelhos que se parecem mais com um computador de mão), a Apple é a segunda, perdendo apenas para os produtos com Android, o sistema operacional do Google (25,5% contra 34,7%, de acordo com a empresa comScore). Até o ano passado, a Apple reinava absoluta nesse mercado.

Fica mais fácil entender a força do iPhone quando se lembra que a empresa de Steve Jobs tem apenas um smartphone, que luta no mercado contra os demais fabricantes. E não é só isso: o Android, como sistema operacional, só existe porque o iOS chegou primeiro. É mais ou menos o que aconteceu com o Windows e o Mac OS na década de 1990. Mas a batalha ainda não está perdida para a Apple.

Jobs foi fundamental para a criação do iPhone. Na verdade, ele foi o responsável pelo projeto, depois do enorme fracasso do ROKR E1, desenvolvido em parceria com a Motorola. Com o apoio da operadora norte-americana Cingular (hoje AT&T), Jobs passou a desenvolver um aparelho que fosse do jeito que ele queria. A idéia era usar uma tela sensível ao toque, que acabou sendo atualizada para uma com multitoque (que aceita vários comandos ao mesmo tempo), sendo possível usar gestos como o de pinça para dar zoom em uma imagem. No dia da apresentação do primeiro modelo, 9 de janeiro de 2007, o público foi pego de surpresa, pois ninguém imaginava que o iPhone seria assim: muito mais do que um simples celular.

Em pouco mais de dois anos, todos os fabricantes de smartphones tentaram criar o “iPhone Killer”, um rival à altura. Ninguém conseguiu até o momento. Segundo uma pesquisa da ChanceWave feita recentemente, o iPhone é o sonho de consumo de 46% das pessoas interessadas em tecnologia nos EUA. Entre os consumidores que já compraram um, 70% estão muito satisfeitos.

O mercado de smartphones praticamente não existia. Na época, reinavam absolutos nessa área o Palm Treo, o Nokia N97 e os BlackBerrys, famosos pelo seu servidor de e-mails. Mas nenhum deles tinha um sistema prático de navegação pela internet. A tecnologia 3G ainda engatinhava. O Safari Mobile foi considerado na época o Santo Graal da internet móvel. Com ele, era possível acessar páginas da web do mesmo jeito que se fazia nos computadores. Em 2008, o crescimento deste mercado foi de 60%, chegando a 115 milhões de unidades vendidas. No seu primeiro ano, o iPhone chegou a ter 28% do total de vendas, perdendo apenas para a RIM, com 41%. Desde então, a Apple ultrapassou a empresa canadense.

Em vez de se deitar nos louros da vitória, a Apple continuou a aprimorar o iPhone. Na segunda geração, de 2008, o smartphone ganhou conexão 3G e seu maior diferencial, a App Store, uma loja de aplicativos nativos para o sistema operacional do iPhone (hoje, batizado de iOS). No dia do lançamento, eram 500 programas à disposição dos usuários. Atualmente, são mais de 500.000 aplicativos, que já produziram 15 bilhões de downloads. O Android Market, loja de software para os smartphones que rodam o sistema do Google, oferece 200.000 programas (no lançamento, em março de 2009, eram 2.300).

Ao lançar o iPhone 4, Steve Jobs conseguiu outro feito memorável. Logo no primeiro mês, o aparelho mostrou falhas na recepção do sinal. Muita gente reclamou e o episódio ganhou o nome de Antennagate, uma vez que o problema era atribuído à antena. A Apple veio a público. Jobs, com maestria, conseguiu provar que o problema existia em outros aparelhos, ou seja, não era exclusivo do iPhone. Para não irritar mais o público, ofereceu capinhas que atenuavam o problema no seu smartphone. Em poucos dias, o Antennagate morreu, como se nunca tivesse existido. E as vendas do iPhone 4 foram muito bem, obrigado. Neste trimestre, foram vendidos 20,34 milhões de unidades.

O mercado de aplicativos móveis foi praticamente inventado pela Apple. A App Store é um modelo de negócios como nenhum outro. Há casos de desenvolvedores independentes que ficaram milionários em poucos meses, como a Rovio, que criou o jogo Angry Birds. Praticamente na falência, a empresa se tornou um grande sucesso, com vendas superando os 200 milhões de downloads, a criação de uma franquia com a FOX e até uma série para TV e filme. Nada disso seria possível sem a App Store.

O iPhone e seus derivados (iPod touch e iPad) são atualmente a plataforma portátil para games mais popular do mundo, superando PSP, da Sony, e Nintendo DS. Nada mal para quem, há quatro anos, não era nada no mercado de telefonia móvel.