Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Pregação política nas redes sociais desperta uma reação: ‘não curti’

Multiplicação de postagens de políticos e simpatizantes têm levado usuários a excluir contatos, bloquear publicações ou ignorar mensagens

A eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, em 2008, incluiu definitivamente a internet e as redes sociais no roteiro obrigatório dos candidatos – e de seus simpatizantes. Ficou bem documentado à época que Obama e seus eleitores haviam explorado bem os ambientes virtuais para transformar conexões em votos. As eleições municipais brasileiras, que entram na reta final nesta semana, seguem em certa medida o modelo americano, mas em muitos casos o efeito obtido tem sido o inverso do pretendido em serviços como o Facebook e o Twitter. Ao invés do desejado “Curti”, o excesso de postagens (ou o tom delas) tem provocado rejeição. Ou seja: “não Curti.” O descontentamento motivou até a criação de uma comunidade no Facebook, chamada “Não quero propaganda política no meu Face”, que reúne quase 2.000 seguidores.

Leia também

Brasileiros usam redes para manter contato com a família

“Twitter e Facebook estão acabando com segredos”, diz historiador britânico

Nicholas Carr a VEJA: “Não sinto falta de Twitter e Facebook”

O consultor de vendas Francisco Costa, de 33 anos, que mora em Boituva, no interior de São Paulo, é um dos incomodados com a pregação de políticos e simpatizantes. Durante o período eleitoral, excluiu da lista de contatos do Facebook cinco “amigos” – todos candidatos. “Minha timeline ficava lotada pelas postagens com propaganda política”, diz. “Eu me sentia constrangido e intimidado, como se estivesse sendo coagido a aderir a uma das candidaturas.”

A impressão do consultor de vendas é que as postagens feriram uma certa “ética” das redes sociais, um conjunto de regras de convivência não escritas, mas subentendidas e necessárias à coexistência digital. A sensação de que muitas postagens políticas ultrapassaram essa linha é compartilhada por outros usuários de redes. O que indignou a analista de sistemas paulistana Vanessa dos Santos, de 32 anos, não foi propriamente o volume das postagens, mas o teor. “A divulgação de conteúdos de campanha não me incomoda. O que eu acho estressante de fato são os ataques que surgem entre simpatizantes de diferentes partidos”, diz. Resultado: Vanessa excluiu gente do Facebook e do Twitter. “Essas pessoas estavam tentando impor suas preferências políticas, além de criticar com muita severidade quem não se aliava a elas.”

Alguns usuários optaram por não adotar a providência fatal – excluir um “amigo” -, mas ficaram igualmente incomodados. É o caso do estudante de direito José Carlos da Silva Junior, de 24 anos, de São José do Rio Preto (SP). Ele não chegou a bloquear ningúem, mas admite que não lhe faltou vontade para isso. “Eu excluí muita gente da minha lista de contatos há pouco tempo, deixando apenas pessoas que de fato trazem informações interessantes para minha vida. Então, agora, não queria cortar mais ninguém da lista, apesar da eleição.” A estudante de publicidade Thayssa Barcellos, de 20 anos, de Caçapava (SP), adotou postura semelhante. “Para não me desgastar, decidi apenas não dar abertura a discussões sobre eleição, o que me aborrece. Nas redes, elas não têm fim.”

Excluir, bloquear, ignorar. Eis alguns benefícios das redes sociais. Marco Bonito, estudioso desses serviços e doutorando em comunicação digital pela Universidade do Vale dos Sinos (RS), afirma que, ao mesmo tempo em que dão fôlego renovado aos pregadores políticos (o que não é ruim), as redes garantem aos usuários autonomia para decidir o que ler ou ouvir. “No caso da TV aberta ou mesmo dos carros de som, nossa autonomia para dizer ‘não’ à propaganda eleitoral é muito limitada”, diz. “Já nas redes sociais, todo o usuário pode escolher o que deseja consumir e produzir.”