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O novo Kindle deixa os rivais para trás

Que pena que não exista um reality show na televisão chamado “Reuniões das Empresas de Tecnologia mais Assustadas” onde se possa ver reuniões de conselho de administração com casos clássicos de pânico. Por exemplo, quando um empregado da Apple esqueceu em um bar o protótipo do iPhone 4; ou quando a Intel descobriu que seu microprocessador Pentium tinha um erro matemático, ou quando a Microsoft foi descoberta subornando blogueiros com 2 500 computadores pessoais para promover o Windows Vista.

Um dos episódios mais emocionantes, contudo, poderia ser filmado na Amazon quando a Apple anunciou o iPad.

A Amazon fabrica o Kindle, o popular leitor de livros eletrônicos. Durante certo tempo, o Kindle dominou o mercado. Mas o iPad tem tela tátil colorida, um melhor sistema operacional, reprodução de áudio e vídeo, cem mil aplicações – e, além de tudo, não custava mais caro que o Kindle. Para esse dispositivo, com sua tela monocromática de seis polegadas sem interface tátil, o iPad era o principal pesadelo (em cores).

Esta semana, a Amazon revelou o que todo mundo chama de Kindle 3 (menos a Amazon). Se pode dizer que é a resposta para o iPad. O Kindle 3 foi engenhosamente desenhado para ser tudo o que o iPad nunca será: pequeno, rápido e barato.

A falta de tamanho toma a forma de uma redução de 21% das dimensões do Kindle anterior. O novo mede 7,5 x 4,8 x 0,3 polegadas, ainda que sua tela siga tendo o mesmo tamanho de sempre: seis polegadas diagonais. Os designers da Amazon fizeram o que deveriam ter feito muito antes: rasparam grande parte da margem de plástico bege (agora, cinza escuro). O novo Kindle é quase ridiculamente leve, pouco mais de 259 gramas, um terço do peso do iPad. É uma grande diferença para uma máquina que se quer carregar durante horas.

E há também seu preço de 140 dólares. Isso vale para o modelo com Wi-Fi – uma nova função para eqüivaler-se ao Nook, da Barnes & Noble. O modelo que também pode conectar usando uma rede celular, com as versões anteriores, custa 50 dólares a mais. Mas a função sem fio serve principalmente para baixar livros novos, assim que o modelo com Wi-Fi provavelmente será suficiente para a maioria das pessoas.

Esses 140 dólares são uma barganha em comparação com os 400 dólares que custava o Kindle original; uma pequena parte do que se pagaria por um iPad (500 dólares ou mais, muito mais).

Sim, claro, é um pouco idiota comparar o Kindle com o iPad, um computador com potência infinitamente superior. Ainda que, no caso de efetivamente se considerar o iPad por sua função de leitor de livros, vale a pena assinalar que o catálogo do Kindle de obras atuais é dez vezes maior que o da Apple.

Não, o verdadeiro concorrente do Kindle é o conjunto de leitores de livros eletrônicos rivais muito similares, todos com a mesma tecnologia de tela E Ink.

O E Ink permite ler satisfatoriamente mas é uma tecnologia seriamente defeituosa para as telas de livros eletrônicos. Funciona aplicando cargas elétricas a milhões de diminutas partículas negras, provocando seu congelamento que forma padrões de letras ou imagens em escala de cinza. O resultado realmente se vê como tinta sobre papel, porque o negro está muito próximo da superfície.

O E Ink também é muito bom quando se trata de consumo de bateria, dado que a única coisa que gasta bateria é a mudança de página; do contrário, a imagem poderia ficar na tela indefinidamente sem requerer nenhuma energia adicional (A Amazon afirma que no novo Kindle, sem as funções sem fio, é possível ler durante um mês sem carregá-lo nenhuma vez).

Mas o E Ink tem problemas abundantes. Demora a trocar a imagem da página, por exemplo. O novo Kindle reduz a espera a menos de 1 segundo; é o trocador de página mais veloz dos e-readers, fazendo com que seus rivais comam poeira (principalmente o Nook, ainda lento apesar de cinco atualizações de programa desde sua estreia). Mas a troca de pagina ainda mostra na tela uma sequência de flashes brancos e negros – uma caraterística inata do E Ink.

Os problemas de velocidade do E Ink também significam que nunca poderá exibir um vídeo. E, claro, ele não é colorido. Jeff Bezos, diretor-executivo da Amazon, respondeu a essa crítica no mês passado: “Não dá pra melhorar o Hemingway com trechos de vídeo”. Sim, mas as cores poderiam melhorar uma nova geração de leitores eletrônicos. Não obstante, a Amazon claramente dedicou muito tempo a refinar da tela E Ink do novo Kindle. O fundo cinza é ligeiramente mais brilhante que qualquer outro leitor, dando melhor contraste ao texto em negro.

No mundo dos livros eletrônicos com direito autoral, escolher o e-reader é uma decisão transcendental. Não se compra apenas um leitor portátil. Também há o compromisso com uma livraria eletrônica particular porque, em geral, os livros eletrônicos de uma empresa não servem nos leitores de outras (a única exceção é a Sony e o Nook, que usam o mesmo sistema de proteção). O novo Kindle, inclusive, não pode ler livros sem proteção no popular formato ePub, como ocorre com seus rivais.

Por sorte, todas as livrarias da internet são muito boas (exceto a da Apple, cuja seleção de livros segue muito pequena). O preço também parece ter se igualado. Em geral, Amazon, Barnes & Noble e Sony cobram exatamente o mesmo preço pelos livros mais vendidos da lista do New York Times. Infelizmente, a maioria agora custa 13 dólares, mais que os 10 dólares que a Amazon costumava cobrar pelos best sellers.

Os preços parecem altos. O fato de que os livros eletrônicos não requerem impressão, encadernação, envio, distribuição ou recolhimento e trituração de cópias não vendidas deveria significar uma economia. E é atroz que não se possa vendê-los ou presenteá-los.

A unidade de armazenamento do novo Kindle agora guardo o dobro de livros: um total de 3 500, que deveriam bastar para entretê-lo no próximo atraso do seu voo no aeroporto. A pequena alavanca foi substituída por teclas em quatro direções, como nos celulares, e os botões de avançar e retroceder a página agora são silenciosos, útil quando se lê na cama de casal.

Mas o que faz do novo Kindle um sucesso não é o que a Amazon agregou a ele, mas o que retirou: tamanho, peso e preço. Sem dúvida, os próximos episódios de “Reuniões das Empresas de Tecnologia mais Assustadas” não serão filmados na Amazon. Serão gravados em seus rivais.