Google quer ser gigante também no mundo da Internet das Coisas

Aquisições na área de hardware mostram que empresa se prepara para ir além da web e, assim, manter-se à frente da concorrência

Em Her, filme que concorre ao Oscar e com estreia prevista para 14 de fevereiro no Brasil, Samantha, uma assistente pessoal nos moldes da Siri, do iPhone, conhece tanto as necessidades físicas e afetivas de Theodore Twombly, personagem vivido por Joaquin Phoenix, que ele não tem outra alternativa que não se envolver emocionalmente com o sistema operacional. Longe da ficção, o Google trabalha para construir um mundo muito próximo do retratado no cinema. E para “aprender” tudo sobre as pessoas, a companhia aposta em aquisições estratégicas que podem colocar em nossa casa – e em nossa vida – dispositivos inteligentes capazes de identificar nossos hábitos e nossas vontades. O que o Google pode fazer com tanta informação personalizada? Oferecer pipoca quando você ligar a TV para assistir a um filme ou sugerir um posto de gasolina quando seu combustível estiver na reserva. Isso não só transforma Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, em gestores de uma empresa que vai muito além da internet como coloca a companhia na dianteira da concorrência.

Para entrar na casa das pessoas e se transformar no melhor amigo virtual, capaz de dar conselhos e sugerir soluções para problemas do dia a dia, o Google está comprando empresas especializadas no desenvolvimento de dispositivos inteligentes. É o caso da Nest, adquirida no começo da semana por 3,2 bilhões de dólares. A companhia é fabricante de um termostato que “aprende” o hábito dos moradores e regula de forma automática a temperatura da casa. Eles também desenvolveram um alarme de incêndio, que possui um sensor que detecta o nível de dióxido carbono no ar. Ao menor sinal de alteração nos padrões de CO2, o equipamento emite um alerta. O Google não pretende se transformar, a partir dessa compra, em um gigante dos termostatos e alarmes, mas está olho na tecnologia por trás desses equipamentos, que são capazes de interpretar padrões de comportamento humano.

Segundo George Geis, professor da Universidade da Califórnia (UCLA) e autor de um estudo sobre as aquisições do Google, 90% do faturamento da empresa americana vêm de anúncios. E isso não vai mudar no futuro. “O Google já percebeu que a receita da publicidade na web vai parar de crescer e por isso está buscando novos formatos e novas plataformas para a exibição de propaganda”, diz o acadêmico em entrevista ao site de VEJA. De acordo com Geis, existe um esforço do Google para entender os hábitos das pessoas e a compra de empresas de hardware apenas reforça os planos da companhia. “O Google está desenvolvendo um carro sem motorista e por isso investiu em empresas de robótica e GPS. Mas o que as pessoas vão fazer no carro se não será mais necessário dirigir? Elas vão consumir publicidade. E esses anúncios serão personalizados”, explica o professor. Na prática, o Google lança um produto que pode até não render muito dinheiro, mas servirá como uma nova plataforma para a exibição de publicidade. (Continue a ler a reportagem)

Para Frank Gillet, vice-presidente da Forrester, consultoria americana especializada no mercado de tecnologia, o Google busca um formato de publicidade que não seja chato. “A propaganda mais relevante vem na forma de um conselho de um assistente pessoal. O Google está pensando em como a publicidade vai funcionar daqui a cinco ou dez anos”, diz o analista em entrevista ao site de VEJA. A compra da Nest é um dos primeiros passos da empresa em direção à chamada Internet das Coisas, um conceito em franco desenvolvimento que prevê que os mais variados objetos – de eletrodomésticos a carros – estarão conectados à rede, como mostra reportagem de VEJA desta semana. “O Google percebeu que somente serviços na nuvem e web não serão suficientes para manter um negócio. Para oferecer uma experiência completa ao usuário, a companhia precisa estar presente em todo o ecossistema. E isso inclui hardware”, diz o analista. Para Gillet, a Apple é um ótimo exemplo de como o domínio do ecossistema pode fazer diferença em produtos e serviços. Para isso, ela é responsável pelo desenvolvimento do hardware e do software de itens como iPhone e Macs, além do controle das lojas de aplicativos (App Store) e conteúdos (iTunes), que dão vida aos dispositivos. A Microsoft, embora esteja muito atrás do Google e da Apple, comprou a Nokia justamente para ganhar relevância no mercado de dispositivos móveis – e propor uma alternativa de ecossistema aos seus consumidores.

No final de 2013, o Google anunciou a aquisição da Boston Dynamics, uma empresa conhecida por desenvolver robôs que mais parecem ter saído de um filme de ficção científica. O buscador comprou ainda outras sete empresas do mesmo segmento. O objetivo é usar a tecnologia em projetos como o carro sem motorista e também na logística de estruturas de comércio eletrônico. Transformar-se em um concorrente da Amazon, varejista líder em comércio eletrônico que também se aventura na robótica, não está entre as metas do Google. Para a companhia de Page e Brin, os hábitos de compra dos consumidores valem muito mais para a estratégia da empresa e por isso estar nos bastidores, trabalhando em parceria com lojas on-line, é um movimento natural para ter acesso às informações dos consumidores.

Adquirir uma empresa não significa apenas absorver suas tecnologias e produtos, mas também seus talentos. De acordo com Bruno Tasco, analista de mercado da consultoria Frost&Sullivan, levar pessoas para a operação é um dos objetivos do Google. “O fundador da Nest teve participação no desenvolvimento de diversos produtos da Apple. Ele tem experiência no desenvolvimento de hardware e por isso é tão interessante para a empresa”, explica Tasco.

Desafios à vista – Segundo Geis, da UCLA, ao criar um ecossistema harmônico, que inclui software, hardware e análise de dados em volume gigantesco, o Google ditará tendências no mundo da Internet das Coisas e será pioneiro na oferta de soluções para os lares conectados: “A diferença é que o dinheiro da publicidade não virá de AdWords, o famoso formato publicitário do Google, mas da propaganda ultrapersonalizada sugerida através de geladeiras, televisores e aspiradores de pó.” Conquistar essa liderança, contudo, pode ser mais complicado do que parece.

Em meio a tantas aquisições, a empresa precisa achar um meio de incorporar companhias tão diferentes ao seu negócio e fazê-las trabalhar alinhadas aos seus objetivos de longo prazo: manter-se no topo entre as plataformas de publicidade. Se integrar empresas que têm no DNA o software já é tarefa difícil, incorporar companhias de setores diversos será ainda mais complicado. “É necessário mais tempo e mais dinheiro até que os produtos cheguem ao mercado”, diz Gillet, da Forrester.

Esse é um dos motivos que levaram o Google a manter sua operação principal separada após as compras da Motorola Mobility, da Boston Dynamics e, mais recentemente, da Nest. No caso da Motorola, maior aquisição da história da empresa, o Google apontou Dennis Woodside – executivo com pouca experiência em tecnologia, mas com vivência em fusões e aquisições – para liderar a operação. “O grande desafio é conectar todas as peças do quebra-cabeça e fechar um ecossistema único. Vai levar tempo para integrar as pessoas e os processos”, completa Tasco, da Frost&Sullivan.

Se tiver sucesso ao integrar todas as aquisições – que não devem parar na Nest -, o Google poderá avançar em seu projeto de longo prazo. Porém, a privacidade pode se tornar outro empecilho. Muitas pessoas poderão sentir que tiveram suas vidas invadidas pelo Google, à medida que a companhia ampliar sua rede de coleta de dados em torno dos usuários, com sensores espalhados por todo tipo de dispositivos. Antecipar necessidades dos usuários, com base nessas informações, no entanto, poderá ser uma moeda de troca valiosa na oferta de publicidade. “Os usuários poderão controlar tudo à sua volta por meio do smartphone e isso vai mudar profundamente a forma como as pessoas vivem: elas vão economizar tempo para fazer o que mais gostam”, diz Tasco. Em síntese, o Google só quer ser o seu melhor amigo. Não só para aconselhar, mas também para vender produtos que atendam as necessidades das pessoas. O grande desafio em um mundo de tantas ofertas será segurar a carteira.

As apostas na área da saúde

Além das iniciativas no campo de Internet das Coisas, os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, também se interessam em coletar e analisar dados relacionados à saúde. Na última quinta-feira, a empresa divulgou as primeiras informações sobre uma nova lente de contato que ajuda o usuário a monitorar seus níveis de glicose, inovação especialmente útil para quem sofre de diabetes.

Recentemente, a empresa também passou a investir em uma startup chamada Calico, que pesquisa novos medicamentos para combater o envelhecimento. “Não fiquem surpresos com nossos aportes em projetos que parecem estranhos, se comparados aos nossos negócios na internet”, disse Larry Page, CEO do Google, ao anunciar a nova empresa, em setembro de 2013.

Os investimentos revelam a preocupação de Page e Brin com a longevidade do homem, que se acentua, além da crença da dupla na tecnologia como ferramenta de ajuda ao corpo humano. Por essa razão, eles contrataram Ray Kurzweil, cientista e futurólogo americano, como diretor de tecnologia do Google no final de 2012. Assim como os fundadores da empresa, Kurzweil é entusiasta do transumanismo, movimento que defende o uso da tecnologia para ampliar a capacidade física e intelectual dos seres humanos. A singularidade tecnológica – que prevê o momento em que a inteligência artificial superará a humana – é o principal foco dos estudos de Kurzweil. “Minha missão no Google é desenvolver tecnologias para entender a linguagem natural dos humanos. A ferramenta de busca se transformou e agora vai além de encontrar palavras-chave”, disse Kurzweil à revista Wired, alguns meses depois de assumir o cargo.

Embora tenha se intensificado nos últimos anos, o interesse de Page e Brin em projetos na área da saúde não é novidade. Por meio do Google, eles investem em projetos relacionados à coleta e análise de dados biológicos desde 2007, quando injetaram 4,4 milhões de dólares na startup 23andMe. A empresa foi fundada por Anne Wojcicki que, na época, era esposa de Brin (os dois se separaram em 2013). A empresa, que continua em operação, analisa amostras de saliva enviadas por pessoas de todo o mundo. Depois que o DNA é sequenciado, os dados são comparados com outras amostras do banco de dados e um relatório que aponta as origens ancestrais é enviado ao usuário.