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Facebook faz maior IPO de tecnologia da história

Entenda o que vai mudar na rede social após a abertura de capital e saiba como comprar ações do site de Mark Zuckerberg mesmo morando no Brasil

O Facebook dá nesta sexta-feira o seu mais importante passo estratégico. A companhia, fundada em 2004 pelos colegas de dormitório Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz e Chris Hughes, todos estudantes da Universidade de Harvard, estreia no mercado financeiro com a maior oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) na Nasdaq, a Bolsa do setor de tecnologia. Ao todo, serão oferecidas 421 milhões de ações, cujo valor individual foi fixado em 38 dólares nessa quinta-feira. Ao arrecadar cerca de 16 bilhões de dólares, o Facebook teve seu valor de mercado elevado para 104 bilhões.

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A operação é um marco para o setor de tecnologia e o terceiro maior IPO dos Estados Unidos, atrás da Visa, que arrecadou 19,7 bilhões de dólares, em 2008, e da General Motors, que captou 18,1 bilhões, em 2010, segundo ranking da Thomson Reuters.

A partir do momento que o Facebook entrar para a lista das empresas listadas pela Nasdaq – com o símbolo FB -, algumas mudanças internas devem ocorrer, ainda que a médio ou longo prazo. A injeção de capital dará mais fôlego à companhia, mas também exigirá mais transparência e cautela por parte de seus executivos. Segundo Fernando Belfort, analista sênior da consultoria de mercado Frost & Sullivan, Zuckerberg tem um perfil informal, ao passo que investidores procuram empreendedores previsíveis e que sigam protocolos. “Não à toa, todos os executivos da empresa tiveram assessoria sobre como lidar com a imprensa e com o mercado”, explica.

As cobranças também serão maiores, afirma Arleu Anhalt, presidente da consultoria Financial Investor Relations, especializada em prestar serviços a companhias que estejam em processo de IPO. “Ao passar a ter milhares de acionistas, muitos com conhecimento avançado em investimentos, o Facebook terá de prezar pela transparência, terá de criar uma área de relacionamento com investidores, terá de prestar contas a cada três meses e também será obrigado a se reunir com acionistas para detalhar seus relatórios”, diz. Uma rotina bem diferente a que está acostumado na condição de uma grande empresa com clima de startup.

Os bilhões arrecadados na abertura de capital serão imprescindíveis para que o Facebook dê uma guinada em departamentos estratégicos. De acordo com Marcelo Silva, também analista da Frost & Sullivan, cinco áreas serão beneficiadas pelo aporte. A companhia deve investir pesado na aquisição de outras empresas, como fez recentemente com o Instagram. A ideia é levar para a plataforma um know how que possa ser absorvido de forma a complementar o serviço já oferecido pelo Facebook. Na prática, os usuários devem perceber uma maior integração de ferramentas à rede.

Também deve ocorrer um investimento significativo na área de desenvolvimento e pesquisa, já que o mercado é volátil e exige constante inovação. Isso deve incentivar o surgimento de novos produtos, cujo objetivo primordial é manter conectados ao site os mais de 900 milhões de usuários da rede. Países emergentes como Brasil e Índia passarão a ser estratégicos para o Facebook. Isso significa que a empresa deve expandir suas operações e contratar mais funcionários nessas regiões.

Outra área que ganhará robustez a partir do IPO será a publicidade. Novos modelos serão amplamente explorados pela empresa e devem surgir cada vez mais campanhas conectadas aos usuários. O número de páginas institucionais vai aumentar e ações direcionadas aos interesses dos cadastrados se tornarão cada vez mais populares na plataforma. Aplicativos de monitoramento serão integrados à rede, já que esses programas conseguem mensurar dados importantíssimos para empresas de mídia. O Fousquare, que identifica os lugares mais frequentados, e o YouTube e o VIMEO, que conseguem apontar conteúdos digitais prediletos, são alguns exemplos dessa categoria de aplicativos.

O criador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, em Nova York na semana passada

O criador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, em Nova York na semana passada (VEJA)

Mobile – A divisão que mais deve mudar com a abertura de capital, no entanto, será o departamento de dispositivos móveis. Como essa é uma demanda do mercado, dado o crescimento de usuários que acessam a rede através de um tablet ou de smartphone, o Facebook terá de focar seus esforços para desenvolver um modelo de receita que não prejudique a experiência do usuário, mas que seja sustentável. Essa preocupação ficou bem clara no documento enviado ao US Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado financeiro americano, em fevereiro. “Atualmente, não temos receita no uso de produtos móveis e nossa capacidade de fazer sucesso nesse segmento ainda não está provada”, afirmou a companhia no relatório que precede o IPO.

Vale ressaltar, contudo, que todos os movimentos da empresa não devem ocorrer nos próximos meses. “O usuário não vai sentir muitas diferenças logo após a abertura de capital, embora devam ocorrer certas alterações na gestão da companhia”, explica Alberto Albertin, coordenador do Centro de Tecnologia e Informação Aplicada da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Niklas Zennström, cofundador do Skype, concorda com o acadêmico brasileiro e reitera que o Facebook conseguiu se estruturar muito bem graças aos investimentos no mercado privado. “Atualmente, as empresas podem escolher quando e se pretendem se tornar públicas. Há mais investimento do que quando Google, Amazon e eBay entraram na bolsa. Esse era um importante recurso para conseguir capital na época”, diz.

Para Salvatore Cantale, professor de finanças do Institute for Management Development (IMD), renomada escola de negócios da Suíça, as mudanças mais significativas do Facebook aconteceram no passado. “O fundador e CEO da companhia, Mark Zuckerberg, continuará tendo o maior controle acionário da empresa. Não acredito em grandes transformações”, diz.

Como comprar ações? – Os brasileiros podem comprar ações de empresas como Apple, Amazon, Netflix e LinkedIn, todas listadas na Nasdaq, embora esse não seja o tipo de investimento mais divulgado pelas corretoras brasileiras.

Segundo Gilberto Poso, superintendente-executivo de gestão de patrimônio do banco HSBC, a operação é simples, mas demanda o cumprimento de determinadas exigências. Para adquirir essas ações, o investidor tem duas opções. Ou ele procura um corretor brasileiro e compra os papéis negociados na Bovespa; ou ele abre uma conta em um banco nos Estados Unidos, procura uma corretora americana e então investe nas companhias.

Atualmente, as maiores empresas do setor de tecnologia oferecem ações na bolsa brasileira. É o caso, por exemplo, da Microsoft, Amazon, LinkedIn, Netflix, Dell, eBay, Google e Intel. O entrave: para comprar esses papéis no Brasil é preciso ter investimentos financeiros superiores a 1 milhão de reais.

Segundo César Moreno, sócio do escritório Braga & Marafon Advogados, também é possível fazer essas operações direto nos Estados Unidos. Contratados banco e corretora, o investidor brasileiro só precisa comunicar o Banco Central sobre sua remessa de capital para o exterior e declarar os investimentos no Imposto de Renda.

O que acontece, no entanto, é que as ações na Nasdaq deixaram de ser tão atraentes para os brasileiros por causa da crise que assola Estados Unidos e Europa. Para Keyler Carvalho Rocha, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), nem mesmo as ações do Facebook serão vantajosas para pequenos investidores. “Trata-se de uma empresa que vai para a bolsa no preço limite. A previsão de valorização dos papéis é de apenas 4% ou 5%, enquanto a previsão de desvalorização pode chegar a 30%”, explica o acadêmico. Por ora, colocar mais dinheiro no cofrinho de Zuckerberg não perece ser a ideia mais sensata. Não para nós brasileiros, os novos burgueses da América.

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