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“Espere para ver o que startups farão com a biologia sintética: é incrível e assustador”, diz Eric Ries

O guru americano fala sobre tendências para inovação e o avanço do empreendedorismo. Nesta semana, ele faz workshop no Brasil

Eric Ries não inventou as startups, tampouco o conceito de que, para essas empresas nascentes, encontrar um modelo sustentável de negócio é mais importante do que fazer dinheiro rápido. Mas esse americano de 37 anos teve papel fundamental ao sedimentar, no livro A Startup Enxuta, publicado em 2011, práticas testadas que pairavam no ar sobre como fazer a inovação avançar. De certa maneira, ele criou uma “língua franca” que hoje permite o diálogo de aventureiros de todo o mundo em torno de termos como “mínimo produto viável (MPV)”, “pivotagem” e por aí vai. Ries está feliz com o fruto da obra. Dividindo os louros com outros impulsionadores do empreendedorismo de risco, ele enxerga um mundo mais propenso ao empreendedorismo, o que inclui as grandes empresas. Acossadas pela concorrência, incluindo à das startups, elas “enfim perceberam que devem se adaptar ou morrer”, diz. Na visão dele, as inovações vão continuar aceleradas nos próximos, com o “software comendo o mundo”, na expressão cunhada por outro protagonista do Vale do Silício, Marc Andreessen, uma imagem eloquente sobre como a tecnologia vem derrubando barreiras, eliminando intermediários e reduzindo ineficiências. Entre as tendências vindouras, o maior potencial, diz Ries, está no campo da biologia sintética: “Se você acha maluca a ideia de que garotos em um garagem podem fazer apps que transformam o mundo, espere até o momento em que eles farão organismos biológicos.” Na entrevista a seguir, ele fala desses assuntos e também da experiência no Kickstarter: pelo site de financiamento coletivo, Ries arrecadou mais de 580.000 dólares e ideias para um novo livro, a ser lançado no ano que vem. Em troca, os financiadores receberão, entre outras coisas, exemplares do livro Leader’s Guide. Nesta quarta-feira, Ries fará um workshop no HSM ExpoManagement 15, em São Paulo.

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O que mudou desde o lançamento de A Startup Enxuta? Houve várias mudanças desde então. A primeira é a democratização do empreendedorismo. Há mais e mais gente empreendendo uma vez que a informação a respeito se espalha pelo mundo. Além disso, as pessoas responsáveis pela pela elaboração de políticas públicas perceberam que o empreendedorismo é um componente importante do crescimento econômico. Mas a principal mudança mesmo é que, em qualquer lugar que eu visito, vejo que há muito mais ferramentas para empreendedores. Isso é animador.

Qual o papel de suas ideias nessas mudanças? E o legado para escolas de negócios e empresas, por exemplo? Não posso receber os créditos por essas mudanças, é claro, embora espere que o livro tenha tido um efeito positivo na promoção de ferramentas para o empreendedorismo. Fico orgulhoso que tanta gente tenha abraçado as ideias da startup enxuta, que isso venha sendo ensinado em escolas de negócios e mais ainda que tenha sido abraçado por grandes empresas. As pessoas se esquecem que toda startup quer se tornar uma grande empresa, mas quando elas crescem perdem de certa forma aquela espírito inovador que as fez surgir. Então, muitas empresas estão usando os conceitos de startup enxuta para retornar ao caminho da inovação e empoderar as pessoas com espírito empreendedor dentro da corporação.

Como as grandes empresas lidam com a inovação aceleradas das startups? Elas também adotam o conceito enxuto? As companhias enfim perceberam que elas devem se adaptar ou morrer, porque elas vão enfrentar mais e mais competição das startups. Então, as grandes corporações chegaram à conclusão correta de que precisam mudar, mas é mais fácil dizer isso do que fazer. Ser mais inovador, dar poder aos colaboradores, ser mais criativo… São todos slogans, mas é difícil concretizá-los. Acredito que a razão que levou empresas a adotar A Startup Enxuta é que o livro lhes oferece um sistema de gerenciamento que eles podem usar para promover o pensamento inovador e se tornarem mais resilientes diante da nova concorrência.

Que tendências da inovação você apontaria para os próximos anos? São muitas para enumerar. Se olharmos para o que a tecnologia está fazendo, veremos que o software está comendo o mundo. Isso acontece em todos os tipos de indústria e é uma força muito potente. Pense no ramo hoteleiro, com AirBnB, mas também medicina, construção, educação, finanças, logística. As atividades que costumávamos fazer de forma manual serão todas automatizadas. Pessoalmente, acredito que o campo com maior potencial para mudar nossas vidas é o da biologia sintécica, que permite uso das mesmas técnicas de hackeamento e programação de software aplicadas a compostos biológicos, reconhecendo que o organismo humano é, em certa medida, um sistema de software. Se você acha maluca a ideia de que garotos em um garagem podem fazer apps que transformam o mundo, espere até o momento em que eles farão organismos biológicos que podem mudar o mundo. Isso tem um potencial imenso e, ao mesmo tempo, é um pouco assustador pensar no que pode ser feito.

Como você avalia a experiência do Leader’s Guide, no Kickstarter? Fique muito orgulhoso pela forma como a comunidade fez o projeto funcionar. É o mais bem-sucedido projeto de um livro no Kickstarter. Cerca de 10.000 pessoas disseram que querem ver esse livro feito, querem fazer parte de sua confecção e colocar suas ideias lá. A ideia toda é usar a campanha no Kickstarter para testar e dar forma a ideias que farão parte do meu próximo livro. Quero ter certeza de que as coisas sobre as quais vou tratar estão certas.