Por que comprei heroína para a minha filha dependente

Em relato forte e emocionante, mãe conta em detalhes experiência que atinge diversas famílias ao redor do mundo

Uma mulher britânica contou ao site da BBC, no início de março, o motivo que a fez comprar heroína para a filha, dependente da substância. De acordo com o relato da mãe, em uma crise de abstinência da jovem, ao se sentir impotente, resolveu pôr fim ao sofrimento da filha. “Ela estava encharcada de suor, vomitando, chorando, histérica, tremendo. Sentia-se terrivelmente mal, completamente desesperada. Eu tinha a sensação de que estava presa em um canto, como se não houvesse mais nada que pudesse fazer”, diz a mãe.

Segundo o relato, o vício da filha teve início cinco anos antes, quando a menina estava com 18 anos. Com os amigos ingressando em faculdades e um relacionamento chegando ao fim, a jovem mudou de comportamento e passou a andar com usuários de drogas – o que foi apenas o passo inicial para que ela chegasse ao fundo do poço. Dentre as diversas tentativas da mãe de compreender o que se passava com a filha, um dia a verdade finalmente foi posta às claras: ela também estava viciada nos entorpecentes.

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“Conversamos sobre como poderíamos parar o vício algumas vezes. Falávamos sobre isso como mãe e filha e, justamente por causa disso, às vezes, perdíamos as estribeiras. Há um misto de emoções em jogo: em uma hora você está gritando e zangada; em outra você está profundamente triste”, diz.

A mãe conta como foram todos os processos que envolveram o vício da filha: do sentimento de tentar ajudar ao ódio, e até o fatídico dia em que teve de expulsar a própria filha de casa, pois ela não parava de consumir heroína. Após causar um acidente de trânsito, perder o emprego e se distanciar da família por três meses, a jovem finalmente voltou à casa dos pais para uma ceia de Natal e, durante o jantar, dormiu em cima do prato de comida – o que deixou claro para a mãe que a situação era ainda mais grave do que pensava.

“Cabe à pessoa querer mudar – e ela não queria”, diz a mãe no relato. Conforme o tempo passava, a mulher conhecia cada vez mais o lado sombrio do vício. “Soubemos que minha filha foi pega roubando no trabalho para financiar o vício. Ela também furtou uma folha de cheque do meu talão. Assinou um cheque de mil libras e o descontou. Tivemos que denunciá-la à polícia”, diz a carta aberta da mãe.

Como o hospital público britânico não fornece gratuitamente a metadona, substância usada no tratamento de viciados em heroína, a mãe recorreu às ruas. “Eu não comprei heroína pessoalmente. Só dirigi meu carro para um local e quando chegamos lá, ela saiu, se injetou e voltou”. De acordo com o relato da britânica, o pai da menina sentiu-se traído e, como mãe, ela diz que não repetiria a atitude.

Após tentar por duas vezes o suicídio, a jovem agora passa por um tratamento diário com metadona, não se droga mais e auxilia a mãe em atividades da casa. “Sei que é orgulho de mãe, mas ela é muito linda e inteligente. Acredito que ela poderia ser qualquer coisa que quisesse”, afirma a mãe.