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Médico diz que falta Tamiflu para combater doença em Uruguaiana

Diariamente, o médico pneumologista Cláudio Crespo atende cerca de cem pacientes com suspeita de gripe suína na Santa Casa de Uruguaiana, cidade de 126.000 habitantes localizada no extremo oeste do Rio Grande do Sul e que faz fronteira com a Argentina – onde o número de vítimas fatais da gripe chega a 165. Em Uruguaiana, ocorreram três dos 15 óbitos registrados no Brasil até esta segunda-feira devido à influenza A (H1N1) – por isso, o município decretou situação de emergência. De acordo com o relato do médico, o quadro na cidade é preocupante: ele estima que 4% da população esteja com algum tipo de gripe, mas é impossível saber se se trata da suína ou não. Além disso, os hospitais estão lotados e há poucas doses do antigripal que pode combater o novo mal. Diante da situação, o pneumologista sentencia: haverá mais mortes nos próximos dias, a menos que o remédio seja distrubuído em larga escala. Leia a seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone.

Como está a situação na Santa Casa de Uruguaiana?

Nosso pronto-socorro está lotado de gente aguardando leitos. Tem gente com gripe e diversas doenças que podem ter sido provocadas pela gripe, como sinusite, bronquite, pneumonia e crises de asma. Estamos vivendo dois surtos concomitantes: um de gripe comum e outro da nova gripe. Só não há como saber quais pessoas estão com a gripe suína.

Por quê? O resultado dos testes demora muito a sair?

Só conseguimos fazer esses testes nos casos graves. Se temos demora nesses laudos mesmo em casos graves, imagine se tivéssemos que fazer os testes em todo mundo que está doente. Seria totalmente inviável. Há casos de pessoas que já receberam alta e que estão bem em casa. Mas até hoje eu não sei qual foi o tipo de gripe que causou aquele quadro.

Há recursos para atender toda a demanda?

O prefeito foi até a capital (Porto Alegre) para pleitear novos aparelhos para a nossa UTI, verba para colocar mais pessoal da área e medicamentos. Ele vai tentar trazer mais Tamiflu (antigripal que combate a gripe suína), porque recebemos poucas doses, cerca de 100. Atualmente, temos entre 4.000 e 5.000 pessoas com gripe na cidade. Não há como dizer de qual gripe sofrem.

Quais pacientes estão recebendo o Tamiflu?

Pela orientação que tivemos e pela quantidade de doses que recebemos, temos que ser criteriosos no uso e dar prioridade para os casos mais graves. Mas aí há um contra-senso: os casos mais delicados chegam fora da época de uso do Tamiflu. O remédio só funciona no prazo de até 48 horas após o aparecimento dos primeiros sintomas. Nos casos que evoluíram para óbito (grávida de 36 anos; menina de 5 e caminhoneiro de 35), as pessoas já chegaram ao hospital após o prazo de administração do antiviral.

O senhor acredita que mais mortes podem acontecer nos próximos dias?

Acredito que sim. E o inverno é longo aqui, tem mais um mês e meio de frio, pelo menos.

Na sua opinião, é possível evitar mais mortes?

O ideal seria ter Tamiflu para ministrar em todos os pacientes, e não somente nos casos mais graves. Acho que o problema é que não há Tamiflu no Brasil todo. É preciso comprar mais doses para que possamos usar em uma escala maior. Isso poderia reduzir o número de vítimas fatais.

Há muitos casos graves na Santa Casa?

Há casos de todos os níveis. Desde os que estão no começo, até casos mais graves, já com pneumonia. Além de pacientes com outras doenças secundárias dessa gripe. Desde que a doença surgiu aqui, há quase um mês, tive 26 pacientes em casos considerados mais graves. Desses, cinco morreram, sete tiveram alta, quatro estão em estado grave, na UTI, e dez continuam com a gripe, mas estão bem. Dessas mortes, só temos três laudos que confirmam a influenza A (H1N1).

Qual a explicação para o fato de haver jovens entre as vítimas fatais, uma vez que eles estavam originalmente fora do chamado grupo de risco?

Dentro dos quadros graves que tivemos, só um era de uma pessoa acima de 60 anos, uma senhora. Tive poucas crianças e muitos adultos jovens. Acredito que isso se deva à maior exposição dessas pessoas. Mas a razão que levou algumas à morte ainda é desconhecida. Com exceção da grávida, nenhuma das pessoas tinha doença prévia. Elas evoluíram de uma forma ruim, mas foram atendidas, medicadas e receberam o tratamento correto para sua situação clínica. Mesmo assim, tiveram péssima evolução.

Como está o movimento nas ruas em Uruguaiana?

Os colégios estão em férias. O Fórum deve suspender audiências nos próximos dias, porque reúne muita gente. Só vai para Uruguai e Argentina quem precisa trabalhar mesmo. Nós não temos uma vida social muito intensa aqui, então não está aí o canal de contaminação.

Então, onde afinal acontece o contágio?

O problema de contágio acontece justamente nos postos de saúde, nas emergências. Com esse pânico todo, o pessoal vem para tirar dúvidas: a pessoa está com outros sintomas e acha que é a gripe, ou vem para uma consulta com duas ou três pessoas fazendo companhia, que acabam se contaminando também. As pessoas se assustam, vão para onde estão os doentes e saem infectadas.