Medicamento transforma rato sedentário em ‘fitness’

Com oito semanas de tratamento e sem treinos, os roedores conseguiram correr 110 minutos a mais

Utilizando apenas um medicamento que ajuda a ‘queimar gordura’, cientistas transformaram ratos sedentários em animais ‘fitness’. Com oito semanas de tratamento e sem treinos, os roedores conseguiram correr 110 minutos a mais até atingirem a exaustão, marcada pela falta de açúcar no sangue. Por meio desse experimento, desenvolvido por pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça e Austrália e publicado neta terça-feira na revista científica Cell Metabolism, foi possível observar como funcionam os mecanismos responsáveis pela melhora no desempenho físico. Além disso, essa substância pode ser um facilitador para que pessoas com limitações físicas, como obesidade e disfunções cardiovasculares e pulmonares, possam fazer mais exercícios.

O medicamento utilizado foi o composto GW1516, conhecido comercialmente como Cardarine Endurobol e desenvolvido nos anos 90 para tratar doenças metabólicas e cardiovasculares. Entretanto, a substância ficou famosa por aumentar o desempenho físico e queimar gordura, sendo muito utilizada por atletas. Sua fabricação, no entanto, foi proibida quando se verificou que seu uso resultava no rápido desenvolvimento de câncer em ratos.

Gene ‘fitness’

No estudo, os cientistas utilizaram o GW1516 por ele ativar o gene PPARδ, identificado na pesquisa como um dos principais agentes durante o exercício, explica o biólogo molecular e endocrinologista Michael Downes, do Instituto Salk, nos Estados Unidos. “Quando anulamos o gene PPARδ nos ratos e, em seguida, fizemos com que esses animais corressem em uma esteira, descobrimos que os genes que são normalmente induzidos por exercício não conseguiram ser ativados. Isso indica que o PPARδ desempenha um papel central na atividade física, sendo um importante interruptor molecular para a entrada de energia no músculo”, disse em comunicado. Estudos anteriores também já haviam detectado que, ao fazer com que esse gene trabalhasse mais, era possível melhorar o desempenho em atividades físicas.

Ao ativar o PPARδ nos ratos sedentários com injeções diárias de GW1516 por oito semanas, os organismos desses animais tinham um funcionamento diferente durante o exercício. Os cientistas identificaram alterações em 975 genes desses roedores, sendo que os responsáveis por quebrar e queimar gordura que tiveram sua atuação amplificada e os ligados a quebra e queima de carboidratos, foram suprimidos. “Isso sugere que queimar gordura é um mecanismo compensatório para conservar a glicose. O PPARD suprimiu todos os pontos envolvidos no metabolismo do açúcar no músculo para que a glicose fosse redirecionada ao cérebro, preservando assim a função cerebral” disse Downes.

Com essas alterações, os ratos foram capazes de correr por 270 minutos até atingirem a fadiga, quando o açúcar no sangue caiu para cerca de 70 mg/dl — valor limítrofe para humanos –, sugerindo que baixos níveis de glicose (hipoglicemia) são responsáveis pela exaustão. Os roedores no grupo de controle, que não receberam a GW1516 conseguiram correr, no máximo, por 160 minutos, uma diferença de 70% no desempenho físico. Entre outras melhorias observadas, os animais que receberam o medicamento também eram mais resistentes ao ganho de peso. Os músculos, por sua vez, não foram alterados.

Apesar dos benefícios, a comunidade científica tem se mostrado cética quanto ao uso do GW1516, já que, quando consumido em abundância pode causar danos ao organismo. Diversas pesquisas já foram feitas com esse medicamento tido, muitas vezes, como milagroso, mas em nenhuma delas os efeitos positivos superavam os danos colaterais. Mesmo com os riscos, companhias farmacêuticas estão interessadas em fazer testes com substâncias derivadas da GW1516 em humanos. A ideia é utilizá-los para queimar a gordura em obesos e diabéticos, melhorando a saúde desses pacientes.

Confira o vídeo feito pelo Instituto Salk sobre o estudo (em inglês):