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Mães farão marcha pelo parto domiciliar

Por Felipe Oda

São Paulo – Unidas pela internet, mães que defendem o direito de dar à luz em casa programam uma marcha para este domingo, na Avenida Paulista. O movimento, que se espalhou pelas redes sociais e deve contar com atos também em outras cidades, é um protesto contra o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), que nesta semana exigiu do Conselho Regional de Medicina Paulista (Cremesp) a punição de um obstetra que defendeu o parto domiciliar em entrevista à TV Globo.

Professor assistente da Universidade Federal de São Paulo, o médico acusado, Jorge Kuhn, afirma que não realiza partos domiciliares desde 2010, quando o Cremesp emitiu um parecer desaconselhando a prática. “Mas isso não quer dizer que eu não recomende”, ressaltou.

Conselheiro do Cremerj, o ginecologista Luís Fernando Moraes acredita que a entrevista de Kuhn foi “um ato irresponsável”. Logo após a divulgação da nota de reprovação pelo órgão, mulheres e profissionais da saúde defensores do parto em casa começaram a se mobilizar na internet. “A coisa explodiu. A marcha é uma resposta ao conselho”, afirmou a obstetriz Ana Cristina Duarte.

Na capital paulista, os manifestantes se reunirão às 14h, em frente ao Parque Mário Covas, na Avenida Paulista. De lá, seguirão até a sede do Cremesp, na Rua da Consolação, na região central. Ainda não há o número de confirmados. O grupo é o mesmo que, em março de 2011, promoveu uma amamentação coletiva no Espaço Itaú Cultural, na Paulista, protesto que ficou conhecido como ‘mamaço’. À época, uma mãe havia sido proibida por seguranças do local de amamentar o filho em público.

O grupo defende o direito de decisão da mulher em relação ao parto. Em casa, geralmente ela é acompanhada por parteiras ou doulas. “Cabe à mulher decidir como e onde irá parir. Nós nos mobilizamos porque há uma perseguição velada contra os médicos que defendem o procedimento em casa”, disse a bióloga Patricia Hernandez, de 35 anos, mãe de Nicole, de 11 anos, e de Davi, de 1 ano, que nasceu em casa.

Surpreso com o apoio, Kuhn diz que não recebeu nenhuma notificação do Cremesp. “Não imaginava uma reação tão intensa e favorável das mulheres. Sabia, porém, que a entrevista repercutiria. É o que acontece toda vez que se tenta mexer no ‘establishment’�, avaliou. O Cremesp afirmou ao JT que, até quarta-feira não havia recebido o comunicado do Rio de Janeiro. O órgão paulista estuda quais medidas serão tomadas.

O parto domiciliar não é proibido no País, mas a prática é desaconselhada pelas sociedades médicas. “Nós contraindicamos, pois entendemos que o médico está colocando a paciente e o feto em risco. Se houver qualquer intercorrência no parto domiciliar, o médico será punido”, afirmou a diretora da Câmara Técnica de Parto Normal do Conselho Federal de Medicina (CFM), Vera Fonseca. Os defensores da técnica lembram que o procedimento não é indicado para todas as mães.

Modismo – Ainda que o parto domiciliar seja defendido por muitos médicos que seguem a linha do nascimento humanizado, a maioria dos profissionais reprova o procedimento e diz que tudo não passa de “modismo”. O principal problema seria a falta de estrutura adequada fora do ambiente hospitalar para um nascimento seguro.

“Só torço para que isso acabe antes de uma mulher famosa morrer e servir de exemplo para as outras”, afirmou a diretora da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Vera Fonseca. Ela classifica o nascimento em casa como um “completo retrocesso”.

Na opinião de Vera, as pessoas deveriam “marchar por melhorias na assistência obstétrica, não pelo direito ao parto domiciliar”. O posicionamento é reforçado pelo médico ginecologista Krikor Boyaciyan, corregedor do Cremesp. “Não há parto sem risco. Em um parto domiciliar, o médico estará impossibilitado de prestar socorro caso ocorra qualquer evento adverso. Não há estrutura.”

Os defensores da técnica citam como benefícios o conforto, a proximidade com a família e com os profissionais envolvidos no nascimento, bem como uma maior autonomia para a mulher. “O parto não é um evento médico. É fisiológico”, disse o obstetra Jorge Kuhn. “É seguro porque só é indicado para gestantes que preenchem todas as condições necessárias”, completa a obstetriz Ana Cristina Duarte.

Felipe Oda