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“Interagir com a criança é muito importante para o seu desenvolvimento”, diz pediatra americana

Em entrevista, Mary Young explica que, nos primeiros anos de vida, o cérebro é extremamente suscetível aos estímulos recebidos pelos pais e pelo ambiente

” Precisamos olhar para a criança como um todo, reconhecendo a saúde física, social e emocional dela”

Em seus primeiros anos de vida, crianças são extremamente suscetíveis a diversos estímulos – das atitudes dos pais às influências do meio ambiente. Até os três anos de idade, o cérebro está mais sensível e tem uma capacidade maior de mudar e melhorar. Isso é importante porque, se receber os estímulos necessários, uma criança tem mais chances de crescer com saúde, de desenvolver a linguagem e ampliar as capacidades de aprendizado. É o que explica Mary Young, responsável por supervisionar e coordenar um trabalho no Banco Mundial voltado para o desenvolvimento na primeira infância.

Young, que se dedica ao tema há mais de duas décadas, explica a importância de conscientizar os pais.”Se você abraça, conversa ou lê um livro para o seu filho – tudo isso é caracterizado como um estímulo ao cérebro. Precisamos mostrar aos pais quanto a interação com a criança é importante para o desenvolvimento dela.” O site de VEJA conversou com a pediatra, integrante do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, durante o Congresso Brasileiro de Pediatra, em Salvador.

O que sabemos sobre a plasticidade do cérebro (veja quadro)? O desenvolvimento cerebral continua depois do nascimento e ele é afetado por condições ambientais. Essas influências do meio ambiente afetam a química do cérebro e alteram as sinapses, mudando a arquitetura dele. Portanto, nos primeiros anos de vida, por causa da sensibilidade e da formação, o ambiente pode ter ainda mais impacto. Sabemos que tudo afeta, desde o som, o toque, a visão, o cheiro, a comida, os remédios…

O que os pais devem fazer para estimular seus filhos? Os pais precisam responder às crianças. Se você abraça, conversa ou lê um livro para o seu filho- tudo isso é caracterizado como um estímulo ao cérebro. Precisamos mostrar a eles quanto a interação com a criança é importante para o desenvolvimento dela. Se as pessoas tivessem consciência disso, usariam essas oportunidades para responder, conversar, para ajudá-las a se desenvolver. Isso começa desde a gravidez. É preciso fazer o acompanhamento pré-natal, cuidar da alimentação, fazer exames para se certificar de que não há nenhuma doença infecciosa. E então, quando o bebê nascer, é preciso continuar a atender as necessidades dele e ajudá-lo nesse desenvolvimento.

Glossário

PLASTICIDADE CEREBRAL

É a capacidade do cérebro de se adaptar a doenças ou lesões, fazendo com que regiões diferentes da originalmente programada para executar determinada função assumam a tarefa. Como se um carro, em um congestionamento, em vez de ficar parado, usasse uma rota alternativa. O cérebro, em razão de sua plasticidade, faz o mesmo, e pega “rotas alternativas” para executar as funções e transmitir informações.

Qual é o papel dos pediatras? Os pediatras são o canal para que tudo isso ocorra. Eles devem orientar, dar suporte e ajudar os pais nessa tarefa. Durante esse período, que costuma ser muito estressante para as mães, eles precisam saber o que pode ser antecipado e como trabalhar em determinados casos. Acho que os pediatras não devem só olhar para as doenças graves ou problemas de saúde comuns nessa fase, mas também observar o desenvolvimento e o bem-estar da criança.

Há relação entre o desenvolvimento da primeira infância dos cidadãos e o desenvolvimento de um país? O desenvolvimento infantil leva diretamente para educação, saúde, capital social e igualdade. Quando pensamos como isso reflete no desenvolvimento humano, vemos a importância da educação. Temos um estudo que mostrou que aquelas que participam de programas de desenvolvimento quando pequenas têm melhores resultados na escola, elas continuam a estudar e conseguem níveis mais altos de educação. Educação é diretamente ligada com o crescimento econômico. O mesmo ocorre com a saúde. Agora, sabemos que muitas das doenças que aparecem com o passar dos anos, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares, podem começar muito cedo no desenvolvimento infantil. Então, se você tem uma boa saúde, você contribui para a produtividade, além disso, ao não ter essas doenças, você reduz o gasto da sociedade com elas. Também sabemos que crianças que participam de programas desse têm uma melhora de comportamento, ou seja, menor índice de deliquência, de comprometimento social, tudo contribui com o bem-estar da sociedade. Há ainda uma questão da igualdade – crianças pobres que participam de programas desse tipo têm mais chances de serem bem-sucedidas no futuro.

Como medir o desenvolvimento e o bem-estar infantil? O que temos até agora é um modelo de déficits, usamos morbidades, índices de mortalidade, baixo peso ao nascer – todos fatores negativos. Em nível populacional, nós não temos índices para medir o bem-estar e o desenvolvimento. Acho que precisamos mudar isso. Sabendo da importância do desenvolvimento do cérebro, temos que ter índices da população para medir o bem-estar infantil. E quando digo bem-estar, não digo apenas a saúde física, mas precisamos olhar para a criança como um todo, reconhecendo a saúde física, social e emocional. É possível medir isso. Da mesma forma que medimos a prevalência das doenças, ou a temperatura das crianças, podemos descobrir como essas crianças estão se desenvolvendo. É uma necessidade crescente tanto nos países ricos como nos que estão em desenvolvimento. Temos que parar de pensar em índices de sobrevivência infantil versus o bem-estar das crianças. Precisa haver uma combinação dos dois fatores.