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Hospital brasileiro testa nova técnica contra o câncer

O método, criado por cientistas americanos, reduz os riscos que envolvem a radioterapia antes do transplante de medula óssea

Uma técnica inovadora de radioterapia feita para preparar pacientes com câncer para o transplante de medula óssea tem sido testada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O procedimento, chamado Targeted Marrow Irradiation (TMI), que foi desenvolvido por pesquisadores dos Hospitais Universitários de Cleveland, nos Estados Unidos, “destrói” a medula com uma irradiação mais focal, localizada, diminuindo o acesso da radiação a outros órgãos e tecidos sadios e, consequentemente, produzindo menos efeitos colaterais.  No Brasil, o hospital é o primeiro a experimentar o tratamento.

Toxidade da radiação

De acordo com Ana Carolina Pires de Rezende, médica radio-oncologista do Hospital Albert Einstein, antes do transplante de medula, o paciente precisa passar pela etapa de condicionamento, a radioterapia que prepara o organismo para a cirurgia. Em muitos casos, para acessar a medula óssea, o procedimento é feito de corpo inteiro, o que pode prejudicar outros órgãos saudáveis, inclusive os vitais.

Essa radiação desnecessária, segundo Nelson Hamerschlak, coordenador do Centro de Oncologia e Hematologia do hospital, pode provocar inflamação do intestino, pneumonia, mais indisposição e cansaço, que acabam por interferir na qualidade do transplante. O método beneficiará principalmente aqueles que precisam fazer o transplante de medula óssea, como pacientes com leucemia ou mieloma múltiplo, com mais de 60 anos ou a saúde fragilizada por outros problemas associados, como a desnutrição.

Precisão da técnica

Os pesquisadores norte-americanos desenvolveram a técnica com o objetivo de reduzir a toxicidade do procedimento tradicional. Eles criaram uma diferente programação do equipamento radiológico, de forma que atinja efetivamente mais os ossos e o baço, áreas que precisam ser irradiadas, preservando os órgãos vitais. Segundo Ana Carolina, esse programa exige um planejamento específico e individualizado para cada paciente, com diferentes doses de radiação e regiões do corpo.

“É como se a gente desenhasse e delimitasse os órgãos do paciente para o sistema antes de a máquina fazer a aplicação. É um trabalho extremamente personalizado”, explicou a médica. “Ao mesmo tempo que essa radioterapia é menos tóxica, fazendo com que o paciente tolere melhor o tratamento, ela é mais eficiente, pois irradia apenas o que eu preciso, que é a medula.”

Devido a sua praticidade, a técnica não exige grandes investimentos. Segundo Hamerschlak, não é preciso adquirir um aparelho específico, apenas fazer pequenas adaptações e treinar a equipe, principalmente os físicos, para as novas programações. “Nossos profissionais acompanharam esse desenvolvimento em nível experimental e foram treinados ao longo de cinco anos”, afirmou.

Testes no Brasil

O método já é utilizado pela equipe de Cleveland há dois anos. No Brasil, o Hospital Albert Einstein realizou a radioterapia focalizada com sucesso em dois pacientes em junho deste ano. A dose de radiação foi referendada pela equipe americana.

Em março, o educador Luiz Fernando Naso, de 63 anos, descobriu uma leucemia mieloide aguda e teria de se submeter ao transplante de medula óssea. Pela idade avançada, foi identificado no perfil de prioridade do teste. “Não fiquei com medo por ser o primeiro. Eu confio e acredito no trabalho do médico. Não tive nenhuma reação e minha única queixa é que a mesa onde o paciente deita é muito dura”, brincou Naso, que passou pelo transplante no dia 6 de junho.

A partir de agora, o hospital dará início a um protocolo de pesquisas para testar doses maiores da radiação, sem ampliar a toxicidade. Uma das perguntas a serem respondidas é se essa técnica reduz os casos de doença do enxerto contra o hospedeiro, uma das principais complicações do transplante, que normalmente acontece por conta da toxicidade da radioterapia.

(Com Estadão Conteúdo)