Governo recomenda dieta com mais alimentos naturais e caseiros

Publicação do 'Novo Guia Alimentar' sobrepõe o prazer de comer aos cálculos nutricionais e indica redução dos produtos industrializados

Comer bem não deve ser sinônimo de contar calorias ou apenas de consumir porções exatas de cada nutriente, independente de sua fonte. Uma dieta saudável precisa, sim, ser balanceada, mas deve prezar pelos alimentos naturais e refeições caseiras e limitar os produtos industrializados. Essas são as recomendações do novo Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado nesta quarta-feira pelo Ministério da Saúde.

O objetivo do documento é conter doenças em ascensão no país, como o diabetes e a obesidade – metade (50,8%) dos brasileiros está acima do peso, sendo que 17,5% são obesos, segundo dados da pasta. “É preciso colocar a alimentação como pauta central de saúde”, disse o ministro da Saúde, Arthur Chioro.

O Guia, que não era atualizado desde 2006, muda a concepção de que é preciso trabalhar com grupos alimentares específicos e porções previamente recomendadas. A meta é de sobrepor o prazer de comer às contas nutricionais, dando preferência ao consumo de pratos caseiros, como arroz e feijão, e limitando produtos como barrinhas de cereais ou whey protein.

“Usamos uma metodologia inovadora, baseada em décadas de pesquisas e chegamos a uma fórmula simples: faça dos alimentos a base de suas refeições e use produtos industrializados eventualmente. Dessa forma, é possível atingir o bem-estar físico e emocional que a comida proporciona”, disse, em entrevista concedida ao site de VEJA em agosto, o médico Carlos Monteiro, um dos responsáveis pela proposta do novo Guia. “Contar calorias é absurdo.”

No Brasil, análises feitas pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP, do qual Carlos Monteiro é coordenador, mostraram que um quinto da população do país mantém hábitos alimentares tradicionais – é a porção que exibe a dieta mais equilibrada, próxima à ideal, e é mais saudável. “O paladar brasileiro tem respostas nutricionais excelentes para a dieta: acompanhamos o arroz sempre com feijão, porque assim balanceamos os carboidratos de maneira saudável”, afirmou Monteiro. O novo Guia, no entanto, recomenda o uso moderado de óleo e outras gorduras, sal e açúcar na hora de temperar e cozinhar os alimentos.

Hábitos – Outra preocupação do Guia é incentivar hábitos como comer em horários regulares, em ambientes apropriados e, sempre que possível, na companhia de outra pessoa. Essas são formas de desestimular o consumo de alimentos ultraprocessados, apontados por diversas pesquisas recentes como um dos causadores das taxas elevadas de sobrepeso em todo o mundo.

“Nossos genes foram selecionados para compreender e aproveitar a comida tradicional. No entanto, quando começo a substituí-la por produtos com aroma, sabor e consistência idênticos a de verdade, o organismo fica confuso e não consegue aproveitar seus nutrientes. A fibra de um biscoito enriquecido não tem o mesmo efeito no organismo que o nutriente presente em uma fruta”, disse Monteiro.

A versão impressa do Guia será distribuída nas unidades de saúde de todo o país, e a digital estará disponível no site do Ministério da Saúde.

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