Falta de novos conhecimentos e diagnóstico impreciso dificultam tratamento do transtorno bipolar

Revista médica revisa os principais obstáculos do distúrbio, que muitas vezes é confundido com depressão e cujos tratamentos não avançam há 20 anos

O tratamento contra o transtorno bipolar, que atinge aproximadamente 2% da população mundial, não avança há 20 anos – e a melhor terapia para a doença é a mesma desde 1949. Em parte, isso se deve à insuficiência de conhecimentos novos sobre o distúrbio, quadro que também acaba atrapalhando a forma como o diagnóstico da bipolaridade é feito: ou seja, somente com base nos sintomas clínicos apresentados pelos pacientes. O diagnóstico impreciso muitas vezes faz com que uma pessoa com transtorno bipolar seja detectada com depressão, ou então com que ela espere anos a fio até receber um diagnostico correto.

Esses são alguns dos problemas apontados por uma série de artigos publicados nesta sexta-feira em uma edição especial sobre o transtorno bipolar da renomada revista médica britânica The Lancet.

O diagnóstico do transtorno bipolar, assim como o de todos os distúrbios mentais, não é orientado por marcadores biológicos, que podem ser detectados em um exame de sangue, por exemplo. Há fortes evidências de que os genes exerçam uma forte influência sobre o surgimento da doença, mas ainda não é possível diagnosticar a condição por meio de testes genéticos. Isso porque, embora vários genes que aumentam o risco do transtorno já tenham sido descobertos, ainda não foi identificado um mecanismo biológico que explique como esses genes afetam o risco de desenvolver o distúrbio.

Diagnóstico impreciso – Para Mary Phillips, psiquiatra da Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos, e autora de um dos artigos presentes na publicação, identificar marcadores biológicos relacionados ao transtorno bipolar é essencial para solucionar o problema do diagnóstico incorreto da doença. Em seu texto, ela afirma que pessoas com a doença demoram de cinco a dez anos a partir do surgimento dos sintomas para que recebam o diagnóstico correto. É comum que esses pacientes sejam classificados a princípio como tendo depressão, já que sintomas depressivos são prevalentes entre indivíduos com bipolaridade. E há pacientes que passam a vida acreditando ter depressão – e sendo tratados para tal problema -, quando na verdade sofrem de transtorno bipolar.

“Isso é um grande problema, pois os medicamentos para essas duas condições são diferentes, e as drogas usadas para depressão podem até acentuar os sintomas do transtorno bipolar”, diz Phillips. “Porém, poucos estudos de neuroimagem, por exemplo, têm sido feitos em cérebros de pessoas com transtorno bipolar para compará-los com o de pessoas com transtorno depressão. É urgente a necessidade de pesquisas futuras nessa área.”

Vídeo: Médico esclarece dúvidas sobre depressão

Estaca zero – John Geddes, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade Oxford, Grã-Bretanha, escreveu um dos artigos presentes na revista no qual afirma que o melhor tratamento para a doença continua sendo o lítio, usado desde 1949. O medicamento, porém, não é completamente eficaz, já que apresenta efeitos adversos e, a longo prazo, costuma exigir terapias adicionais. Segundo Geddes, isso se deve justamente ao fato de haver uma escassez em novos conhecimentos sobre a doença.

No próximo final de semana, a Academia Americana de Psiquiatra (APA, sigla em inglês) vai publicar a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-5. Nesse documento estão listadas e descritas todas as categorias do que a APA considera como doenças mentais, além dos critérios para diagnóstico de cada uma. É no manual que muitos psiquiatras ao redor do mundo se baseiam para fazer um diagnóstico – daí a sua grande relevância. A última versão do DSM foi publicada em 1994, mas, apesar de quase 20 anos terem se passado, o novo manual não trará mudanças no que se refere à forma de diagnostico dos transtornos mentais.