Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Estudo que vinculava autismo à vacina tríplice era “fraude elaborada”, diz revista britânica

Pesquisa assustou pais no fim da década de 1990 e levou à queda na taxa de vacinação em alguns países

O autor do artigo, Andrew Wakefield, não pode mais praticar medicina na Grã-Bretanha, sob acusação de usar métodos de pesquisa pouco éticos

Um estudo de 1998 que semeou pânico na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos ao vincular o autismo infantil à vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) foi uma “falsificação elaborada”, publicou a edição online do British Medical Journal (BMJ), nesta quinta-feira.

O médico britânico Andrew Wakefield alegava, em seu estudo, que 12 crianças que eram normais até receberem a vacina tríplice viral se tornaram autistas depois de desenvolverem inflamações intestinais. Mas, segundo a reportagem do BMJ, feita pelo jornalista Brian Deer, cinco das 12 crianças já tinham problemas de desenvolvimento, fato encoberto por Wakefield. Várias pesquisas e investigações (britânica, canadense e americana) publicadas depois do controvertido estudo, que só levou em conta essa amostragem de 12 crianças, não encontraram qualquer correlação entre o aparecimento do autismo e a vacina tríplice.

O estrago feito pelo artigo fraudulento de Wakefield, porém, já era grande. Depois de sua publicação, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos contra as infecções infantis, contribuindo para um aumento de casos de sarampo nos Estados Unidos e em alguns países europeus, segundo os serviços americanos de controle e prevenção de doenças. Em 2008, tanto o País de Gales e a Inglaterra registraram epidemias de rubeóla.

Segundo o neurologista Erasmo Casella, presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, nenhuma vacina causa autismo. “Ser contra as vacinas é remar contra a maré científica”, afirma Casella. “Depois que a pesquisa de Wakefield foi publicada, alguns países suspenderam as vacinas e mesmo assim os casos de autismo continuaram aumentando”, afirma.

Retratação – A revista médica britânica The Lancet, onde o estudo foi publicado por Wakefield, se retratou formalmente, em fevereiro de 2010, e decidiu retirar o artigo, responsável pela queda da tríplice vacinação na Grã-Bretanha. A revista The Lancet havia reconhecido já em 2004, após as primeiras reportagens de Brian Deer em uma emissora e um jornal britânicos, que não devia ter publicado o estudo dirigido pelo dr. Wakefield e dez dos 13 autores do estudo renunciaram às conclusões do artigo.

The Lancet, ao retratar-se, acatou uma decisão do General Medical Council (Conselho Geral de Medicina) britânico, segundo o qual alguns elementos do artigo de 1998 de Wakefield e seus coautores eram inexatos e seus métodos de pesquisa pouco éticos, como exames desnecessários nas crianças, conflito de interesses e manipulação de dados.

Devido às irregularidades, Wakefield não pode mais praticar medicina na Grã-Bretanha. Atualmente ele mora nos Estados Unidos (onde também não possui licença para clinicar), e publicou um livro recentemente afirmando que o “establishment” médico ignora a relação entre autismo e vacina tríplice viral. Ele foi procurado para comentar a reportagem do BMJ, mas seus editores não conseguiram contatá-lo. O estudo de Wakefield levou famílias americanas a pedirem indenização por casos de autismo supostamente contraídos após a vacinação. Em março passado, a justiça americana rejeitou qualquer vínculo entre a tríplice vacina administrada em um bebê e os sintomas de autismo que se desenvolveram mais tarde. Outras três famílias já viram rejeitadas suas demandas em casos similares. (Com Agência France-Presse)